29/01/2013

Remédios Caseiros: a Rita Fonseca

A Rita tem o coração sempre aberto, em carne viva de emoções e afectos.

A nossa conversa começou com um tom nostálgico pela aproximação dos 30 anos. A 2 dias da grande data, a Rita demonstrou-se pensativa e expectante quanto ao futuro. Porém, foi com a maior desenvoltura que reconheceu:

"Sou, como tu sabes, uma lamechas do pior." 

Isso pode revelar-se muito difícil no exercício da sua profissão, onde se dedica à saúde dos nossos melhores amigos patudos: é médica veterinária numa clínica de pequenos animais na Maia. Numa época actual tão demarcada pela palavra "crise", esta amante da vida defende que é, particularmente, uma temporada de carência de valores, em que o dinheiro é uma desculpa muito forte para reflectir vontades submersas. Ainda assim, os exemplos de pessoas que sobrevivem às dificuldades são ilustres representantes do optimismo da Rita, já que são capazes de abdicar de certos prazeres para ajudar os companheiros peludos. 



Apesar de parecer feita para este trabalho, confessa que não foi uma paixão à primeira vista. Os testes psicotécnicos apontavam para uma apetência natural para artes e ciências. Criada num seio artístico, as influências por parte dos pais foram, desde logo bastante evidentes. Eles conheceram-se no Orfeão Universitário do Porto e ela fundou-se em contacto directo e próximo com a música. Seguindo os passos do pai, com 3 anos já trauteava Stevie Wonder e Madonna duma forma desinibida e, mesmo depois da separação dos pais, nunca deixou de ter a presença cativa das artes na sua vida, desenvolvendo um sentimento artístico próprio.

Com resultados muito positivos nos estudos, decidiu seguir a vertente científica e concorreu para várias universidades, estabelecendo-se na Faculdade de Medicina Veterinária de Lisboa. A mãe gostava de ter a sua mimalha por perto, mas a independência latente falou mais alto e a Rita adorou a experiência de viver sozinha. Não se mudou de ânimo leve. O trabalho da mãe no Banco de Portugal deu-lhe a oportunidade de gerar amigos em campos de férias elaborados pelo fundo social do Banco, onde primariamente foi como participante e, mais tarde, como monitora. O facto de ter amigos por aqueles lados deu-lhe segurança e desempenhou um factor forte para a sua alternativa. Uma vez no curso, aprendeu que a Veterinária não é só a clínica de animais de pequeno e grande porte, mas que pode fazer uma variedade de outras ocupações como a inspecção sanitária ou o controlo de qualidade em hipermercados ou lotas. Posteriormente, optou por ir para o Rio de Janeiro, lugar ainda um pouco assustador que lhe deu a oportunidade de trabalhar no âmbito que mais a agradava, numa clínica veterinária de pequenos animais, e durante três meses enriqueceu-se de bagagem na área dos problemas renais e cardíacos. Empenhou-se para colaborar com o Dr. Sales Luis durante o seu estágio curricular, um conceituado médico veterinário em Lisboa e que protagonizou a inspiração da Rita, por lhe depositar muita confiança e transmitir sentido de responsabilidade. Foi através dos pequenos momentos que se foi apercebendo do que queria ser, daquilo que gostaria de representar.

Seis anos passados, manteve a sua intenção de voltar para o encanto do Porto. A Itália serviu como mote para a sua viagem de final de curso e, logo a seguir, encontrou lugar na clínica onde trabalha actualmente. Hoje em dia, acha que não conseguiria fazer outra coisa da vida, embora não receie nem recuse trabalho. O respeito pelos animais e pelos seus donos é a característica que mais exala do seu ofício, já que se entrega completamente àquilo que faz duma maneira altruísta e dedicada. Os casos que mais a marcam continuam a ser aqueles que envolvem um grande sentimento por parte das pessoas - afinal, foi isto que a fez assentar neste território. Embora tímida, ainda gosta muito das artes e descobriu recentemente uma amizade nova na fotografia, dimensão da sua sensibilidade artística mais pura.

Se tivesse que definir a Rita numa só palavra, certamente me deteria no termo "Amor". É que ela é assim, uma lamechas optimista que nunca perde a esperança nas pessoas e que me faz sentir mais sortuda por tê-la por perto.

Um agradecimento especial à Formiga preta e à Cigarra malhada pelas fotografias assustadas, mas muito carismáticas.

4 comentários:

  1. A pessoa, que eu conheço e adoro com a clarividência de quem sabe onde estão as pessoas importantes, é mesmo incrível.
    A escrita deste blog, que descobri através da pessoa, foi uma óptima surpresa, parabéns!

    ResponderEliminar
  2. Parabéns às duas!! Um óptimo testemunho, de Amor com A maiúsculo. É bom saber mais sobre as pessoas interessantes!!!!
    Beijos,
    Luísa Cunha Queiroz

    ResponderEliminar
  3. Gostei muito. Em todas as entrevistas sobressai uma escrita cativante e cuidada, com conteúdos muito interessantes. O ambiente intimista dessas conversas fez-se sentir deste lado. Parabéns!
    Sandra Patrício

    ResponderEliminar