17/01/2013

Terapias Expressivas: Musicofilia (I)

A maneira como a música nos move é absolutamente fascinante.
A música é transversal a todas as culturas: é fundamental, é central. A espécie humana tem tanto de musical como de verbal e ouvir música é uma experiência auditiva, sensorial e motora. Algumas pessoas conseguem mesmo ver cores, saborear, cheirar ou sentir uma variedade de sensações através da música.

De facto, a terapia pela música vem de tempos muito remotos. Aristóteles considerava-a como uma força que purificava as emoções; os xamãs das tribos indígenas usavam cânticos e danças como tratamento ou cura. Depois da segunda grande Guerra, músicos ingleses iam até aos hospitais para aliviar traumas emocionais dos soldados. A sua eficácia e potencialidade terapêutica revelam-se através da capacidade que a música tem de nos afectar: ela anima, acalma, reconforta, emociona e serve até para organizar e sincronizar os momentos de lazer ou trabalho.O tema da Musicofilia surgiu-me na leitura de um livro de Oliver Sacks, um neurologista britânico dedicado ao estudo dos défices ou problemas neurológicos. No seu livro, fala sobre várias doenças relacionadas com a música e sobre a ligação entre a música e o cérebro, com assuntos diversos e de extrema importância como a Imaginação e a Imagética, os "Brainworms", as Epilepsias Musicais ou Musicogénicas  e as Alucinações Musicais.Vários estudos nesta área revelaram que a imaginação da música activa o córtex auditivo quase tão fortemente como ouvir activamente a música. Da mesma forma, a estimulação mental de alguns movimentos impulsa estruturas neurais necessárias para a execução dos movimentos em si. Ou seja, para o cérebro é igual tocar ou imaginar tocar, ouvir e imaginar ouvir. Por outro lado, existem os chamados "Brainworms", "bichos do cérebro" ou "bichos do ouvido" - "Earworms" - , que se definem pela repetição em eco, automática ou compulsiva de tons ou palavras. Quem nunca teve uma música na cabeça, daquelas mesmo chatas e repetitivas? Normalmente é exactamente isso que determina os "Brainworms". Entram pelos nossos ouvidos sem pedir licença e só precisam de ser particularmente repetitivos e cansativos para se tornarem neurologicamente interessantes.
Oliver Sacks retrata no seu livro uma história de um homem que desmaiava e tinha convulsões depois de "ouvir" uma música. Durante um ataque epiléptico algumas pessoas perdem a consciência, mas outras estão conscientes, apenas experimentando sensações invulgares, podendo ter visões, sentir cheiros ou ouvir música. Estes episódios designam-se por Epilepsias Musicais, onde existe uma "duplicação da consciência" e distinguem-se dos ataques ditos de Epilepsia Musicogénica. Esta última refere uma "indução" pela música, traduzindo algum medo de qualquer tipo de música por parte das pessoas que sofriam desta doença, visto que desmaiavam quando a ouvissem. Enquanto que as primeiras surgem de forma imaginária com o momento do ataque epiléptico, as segundas são reais e provocam ou desencadeiam este mesmo ataque. A música pode ser calma ou carregada de emoções, associações e nostalgia; os ataques epilépticos musicogénicos são involuntários e podem tratar-se através de medicação ou, quando são muito graves e interferem directamente com o bem estar das pessoas, pode recorrer-se à cirurgia. Por fim, exige-se a explicação do que são Alucinações Musicais. Estas acontecem quando uma pessoa ouve uma música imaginária e são de origem neurológica, não tendo qualquer fundamento psicótico - alucinações de "libertação". Estes episódios podem ocorrer com pessoas que sejam surdas até de nascença, o que revela uma actividade espontânea da parte auditiva do cérebro. As pessoas que sofrem de Alucinações Musicais chegam a sentir-se torturadas e perseguidas por, simplesmente, não conseguirem "desligar". Por vezes,  chegam a ter um volume ensurdecedor e acontecem às horas mais indignas e a experiência duma Alucinação Musical não é mera imagética, mas sim música "real" como se estivesse mesmo a ser ouvida, sendo incurável.A Musicofilia pode resultar apenas numa vontade repentina e insaciável de ouvir ou tocar música, uma obsessão que só é saciada com uma compulsão. A inspiração surge de vários estímulos e as emoções são libertadas das mais variadas formas. O que é considerado por uns como algo fundamentalmente terapêutico pode ser interpretado por outros como um verdadeiro suplício, difícil de conviver de maneira positiva.

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