19/02/2013

Remédios Caseiros: o Nuno Fernandes

Politicamente incorrecto, o humor do Nuno é contagiante.

Licenciado em Ensino de Inglês e Alemão pela Universidade do Minho, assume a jocosidade britânica e concentra-se nos detalhes mais cómicos para brincar com assuntos sérios. Ingressou neste curso para fugir à Matemática, mas também porque sempre teve facilidade com os idiomas. Braga foi a oportunidade que precisava para abrir asas e sair da redoma que viveu durante a adolescência, habitando sozinho e em contacto com muitas experiências que lhe permitiram criar independência e autonomia. Enquanto que noutras faculdades poderia escolher a vertente de tradução, a UM assustou-o pelas dúvidas causadas nos primeiros anos de curso, pela aversão a algumas temáticas pedagógicas e teorias sociológicas dos anos 60, muito ultrapassadas relativamente àquilo que tinha em mente. Ainda assim, foi no ano de estágio que entendeu que era aquilo que gostava de fazer, pela sua capacidade de improvisação no tratamento das situações que se lhe apresentam. Não se limitou pelo estudo constrangido da faculdade e a sala de aula é o seu palco.

Depois do curso, achou que teria o percurso normal dum professor, passar 1 ou 2 anos longe do Porto e seguidamente colocado perto de casa. Quando se apercebeu que isso seria difícil, deixou-se ir abaixo e a passagem obrigatória pelo serviço militar foi uma lufada de ar fresco para a vida sedentária que tinha. Quis evitar estar parado e foi trabalhar num call center na Optimus durante 6 meses, até uma chamada o ter interrompido e voltado para o caminho original. Mudou-se para Alcains, uma vila perto de Castelo Branco, onde foi substituir provisoriamente uma professora com licença de maternidade e se sentiu de novo valorizado e reconhecido. Voltou para o Porto, continuou com explicações e, em 2001 começou a trabalhar na Escola Profissional do Infante, instituição essa que lhe dá casa, ainda que com algumas interrupções.

Para o Nuno, professor é orientar e é mesmo isso que ele faz, até com os amigos. Na escola, os jovens procuram-no para que lhes mostre como funciona o Mundo e ele ajuda-os a fazer as escolhas por si mesmos, tentando informá-los sem impor a sua visão, ordem essa que abomina. A sua curiosidade por diferentes assuntos faz com que saiba alguma coisa sobre muitas matérias e tenha conhecimentos mais profundos nalguma literatura, política, história e natureza. O tempo passa a correr nos seus devaneios felizes e envolve qualquer um com o seu entusiasmo.

A música também cresceu lado a lado com ele. Com alguns trocos que foi juntando, comprou o seu primeiro teclado e abraçou a primeira banda, uma escola muito importante de música industrial, onde aprendeu e evoluiu. A desconstrução partiu para a construção e a catarse do Projecto Cobaia abriu os seus horizontes musicais. Mais tarde, aprendeu rudimentos, escalas, acordes e notas com Orlando Mesquita e pertenceu aos General Inverno como baixista, o instrumento que sempre gostou, num grupo que já estava criado e que lhe deu bases para descobrir a sua própria voz. Em 2005 pertenceu à fundação de Goya com o amigo Pedro Jorge e só recentemente é que conseguiu abandonar as vergonhas e medos de se expor e fez uma banda sua, com letras e composições próprias. É na música que encontra a sua terapia, onde arruma ideias e explica emoções e sentimentos únicos.

Os 39 anos do Nuno demonstram-se na sua sabedoria e gosto pelas coisas. Hoje em dia, arrepende-se de não ter ido em Erasmus para outro país, de não ter feito nenhuma loucura num comboio a correr territórios desconhecidos. Armou-se em português e teve medo da incógnita. Destaca a sua sedução pelos países nórdicos, pela organização do estado social e gostaria de quebrar os preconceitos frios que tanto são impostos pela sociedade. 

No abstracto, o Nuno rege-se por uma ideologia política socialista, mas reconhece que esse estado não funciona em Portugal pela grande corrupção existente. As qualidades infra-humanas como o "nacional porreirismo" e o "desenrascanço" são condenáveis, mas continuam a ser valorizadas e o nosso país insiste no provisório como definitivo. A degradação que nos rodeia assombra qualquer um, mas o Nuno defende que não devemos perder a esperança e o grande objectivo é continuar a fazer o melhor por nós.

Confesso a dificuldade em traduzi-lo por "simples" palavras. Correndo o risco de parecer demasiado sentimental, é preciso que bebam do que ele tem para contar para que sintam como ele é notável e cativante. Um português que não gosta de futebol, nem fado, nem touradas, mas que se distingue pela singularidade de saber o que é ser amigo e entregar-se de corpo e alma.

5 comentários:

  1. Grande Nuno, continua com a tua filosofia de vida, e que nunca por vencido te conheças.
    Abraço
    Daniel Carneiro(ex Aluno)

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  2. Bem tanto quem foi blogado como o autor do blog estao de parabens, exelente trabalho

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  3. grande texto... à medida da tua alma rapaz. Bem hajas.

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  4. Sem dúvida um grande texto e que dá vontade de conhecer pessoalmente o Nuno.

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  5. Excelente texto Raquel! Revi o Nuno tal como o conheço, a pessoa singular e interessante que é, o inestimável amigo em que se tem vindo a tornar. Tal como dizes do Nuno, em cuja companhia o tempo passa a correr, porque a conversa é sempre com conteúdo, também o teu texto se lê com igual sensação de ligeireza apesar da profundidade e rigor. É característica fundamental de uma blogger, que se deve apreciar.

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