07/02/2013

Terapias Expressivas: Rivalidade Fraterna


Um dos assuntos mais recorrentes em contexto de consulta com crianças é a competição entre irmãos.

Muitos são os pais que se debatem com esta temática que envolve um sentimento de rivalidade, por norma, mas não necessariamente, do irmão mais velho para com o irmão mais novo. O filho primogénito sente que tem de partilhar o amor dos pais, como uma "divisão de amor" que resulta numa separação do tempo e atenção a que estavam habituados pela exclusividade, assim como perda de privilégios mais imediatos: abandonar a cama dos pais, partilha de jogos e brincadeiras. Esta alteração da dinâmica familiar reverte num ciúme extremamente ambivalente, já que o filho mais velho vive num constante clima de amor e ódio, desejo de estar e repulsa por um amigo que é inimigo, ao mesmo tempo um companheiro e um rival. 

É importante reforçar que é assim que as crianças sentem estas situações e que não é um drama desmesurado, mas antes uma questão de difícil gestão interna, fruto duma grande insegurança. A rivalidade fraterna é natural, importante e fundamental para o bom desenvolvimento das crianças, que encontram nos irmãos figuras de referência e, por isso, as quezílias são normais. As relações entre irmãos são benéficas e necessárias, pois representam um meio facilitador para a aprendizagem da socialização. Quando o bebé nasce é um ser extremamente egocêntrico, o centro do Universo; tudo o que toca é seu e não existe o que é do outro. Desta forma, o convívio com o irmão é um modo de encenar a relação com um igual ou semelhante e pode ajudar à melhor resistência à frustração e aprendizagem de novas formas de estar e agir, tanto psíquicas como sociais.

Existem, no entanto, excepções indicadas por alguns estudos. Quando a diferença de idades é inferior a 18 meses, o irmão mais velho sente que o mais novo sempre existiu, como se fossem gémeos. Por outro lado, crianças com idades compreendidas entre os 6 e 8 anos já não competem tanto pelo amor dos pais, sendo mais autónomas. A partir destas idades, ainda que esta competitividade exista, é muito mais fácil de lidar internamente, visto que se encontram num estado evoluído do desenvolvimento cerebral.

Os pais, por seu lado, também se sentem culpados por não conseguirem lidar com este dilema e, por vezes, reprimem estes acontecimentos de forma castradora, impedindo os seus filhos de trabalhar estes sentimentos, acabando por dissimular uma agressividade que se pode tornar em alterações comportamentais indesejáveis. Entre elas, estão a introversão duma criança que costumava ser extrovertida, resistência à sociabilidade, insegurança, dificuldades na aprendizagem escolar, baixa auto-estima e atitudes regressivas, como querer voltar para a cama dos pais, enurese nocturna, querer usar chupeta, entre outros. Posto isto, é necessário que os pais demonstrem compreensão e afecto, através de algumas posturas essenciais, nomeadamente a promoção da autonomia dos filhos, com espaços para dormir e hábitos alimentares saudáveis, a aceitação do ciúme entre irmãos sem recriminação e a abstenção de participar nestas "guerras", só actuando em casos extremos e sempre como mediadores de conflitos, nunca como justiceiros.

"Tu és o mais velho, por isso tens de dar o exemplo"

Esta frase é carregada dum sentido negativo e cria grandes hostilidades, por isso é fundamental uma conversa aberta, sem mentiras ou falsidades. Uma mensagem para os pais: não façam comparações, mesmo quando acham que eles não estão a ouvir. Eles são pequenos, mas ouvem e registam tudo e ainda que não entendam inicialmente, vão perceber e digerir duma forma que pode não ser a mais adequada.

2 comentários:

  1. Estou a tirar o curso de Educação Básica, pelo que este texto despertou a minha atenção. Para além de estar bastante bem escrito, não podia estar mais de acordo com as ideias expressas. Muito bom! Parabéns :)

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    1. Obrigada e espero continuar a satisfazer atenções :)

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