12/03/2013

Remédios Caseiros: a Joana Duarte Silva

A Joana é uma romântica por excelência. Ainda que muito arrumada nas ideias e tendencialmente organizada, a sua vida foi feita de acasos, de ventanias que a levaram para a estrada que escolheu.

Com 28 anos, entrega-se às suas causas com a paixão de uma adolescente, com a maturidade que a vida lhe exigiu. Os pais são médicos e ela sempre desejou seguir-lhes as passadas, com um especial interesse pelas áreas da Psiquiatria e da Medicina Legal. O avô paterno era tranquilo e estóico, uma pessoa que lhe transmitiu uma vontade de conhecer quem a rodeava, duma forma cordial e dando espaço para que lhe contem as suas histórias. O fascínio pelas pessoas falou mais alto, com uma curiosidade para perceber como funcionam os que a rodeiam, como pensam e vivem, o que as apaixona e a sua história, e decidiu seguir o seu coração romântico quando entrou para o curso de Psicologia no Instituto Superior da Maia.

Ainda que nunca se tivesse sentido desvalorizada por ter escolhido uma privada para compor os seus saberes, "todos os anos do curso tinha uma crise existencial". Contudo, a falta de alternativas fez com que a Joana ficasse por aqueles lados, na sua casa portuense. Passou pela Universidade Autónoma de Barcelona onde fez Erasmus, mas foi no estágio curricular no Centro de Saúde de Leça da Palmeira e no Hospital Pedro Hispano que entendeu que era capaz, que conseguia fazer aquilo para o qual tinha estudado.

As experiências no hospital na Consulta da Dor e em Oncologia fizeram-lhe sentido, graças a esta característica mais humana e resolveu continuar por esse caminho quando ingressou num estágio voluntário no Hospital de Santo António. Foram dois anos do contacto mais sincero com as emoções à flor da pele, nuas e cruas, em que o objectivo não passava pela cura física, mas pelo conforto emocional, aprendendo a estar consigo mesma e com os outros, na "simples" presença que já faz tanta diferença.

Nunca deixou a formação de lado. Precisava de ocupar-se e quer sempre estudar e entender mais, por isso dedicou-se a uma pós-graduação no Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar em Ciências Médico Legais, que lhe despertou a atenção e a primeira paixão pela Psicologia Forense. De certa forma, foi a maneira que teve de fugir à Clínica vulgar e que a maioria dos psicólogos escolhe para as suas passagens, mas também o encontro de si mesma e de um lugar só seu.

A altura era ideal para se associar a um novo projecto, desta feita do Instituto da Droga e da Toxicodependência, o Projecto Integrado de Apoio à Comunidade, onde a Joana fazia acompanhamento clínico a crianças e famílias em risco, consumos de haxixe e perícias específicas para o Tribunal de Família e Menores. Contrariamente ao seu trabalho realizado no Hospital de Santo António, este estágio voluntário tinha perspectivas para que se estabelecesse profissionalmente, chance essa aproveitada quando foi trabalhar para a clínica da sua chefe. Esta foi a oportunidade que teve para visitar uma realidade diferente e conviver com uma miséria que não sabia existir, não só a nível monetário ou financeiro, mas também moral. O facto de, por vezes, não conseguir implementar as alterações que gostaria foi extremamente frustrante e assumiu um papel importante e definitivo no seu caminho.

"Acho que não tenho muito jeito para provocar a mudança no outro", assume a Joana com humildade. Por norma, ela aceita as pessoas como são e, por conseguinte, é-lhe muito difícil insistir na metamorfose dos outros. No processo psicológico e terapêutico, o que mais gosta é aquilo que foi incutido pelo avô, a descoberta da história das pessoas, e pensa ser nas perícias que põe em prática a sua predilecção, duma maneira mais profissional e num tempo limitado.

Esta paixão por histórias é mais do que clara, é inegável para o registo da sua personalidade. Anda sempre com um livro consigo e adora ler, sejam os policiais da sua linha profissional, a fantasia que a encanta ou os temas mais intelectuais como a filosofia, ou de alguns pensadores como a Simone de Beauvoir. É feminista, mas sem fundamentalismos, acreditando apenas que os direitos das mulheres já deviam estar enraizados no quotidiano da sociedade. Numa coincidência engraçada, a nossa conversa foi no dia da Mulher, que ela entende como uma forma de relembrar estas ideias e cultivá-las.

Neste momento, encontra-se no limbo de querer laborar como as formigas e acabar a tese de mestrado em Medicina Legal pela mesma casa que a albergou na pós-graduação. Acabou por ir parar ao mesmo lado que um dia desejou, aliando os interesses que teve primariamente. Um pouco perdida pelas promessas sem cumprimento que o país lhe dá, refere o gosto que tem por outros idiomas e a vontade de ter outros voos, outros espaços noutras culturas e países. Com conhecimentos em Inglês, Espanhol, Francês e Russo, é assim que sente que pode comunicar com maior número de pessoas diferentes e com menor dificuldade. O sonho é trabalhar na ONU, nos direitos das mulheres e das crianças, ao sabor do que começou na Psicologia Forense.

Uma observadora, sensível na sua empatia e na percepção que tem dos outros. Quem conhece a Joana fica com um sabor doce na boca, daquelas compotas caseiras da nossa avó. É a lembrança de casa, dum sítio sossegado e seguro, meigo no prazer de estar.

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