19/03/2013

Remédios Caseiros: a Luísa Queiroz

Reflexo de uma imensa ternura e da loucura de se viver feliz, a Luísa abriu-me a porta da sua vida.

Tive a sorte de encontrar uma pessoa fantástica como ela na família, já que me casei com o irmão pintainho. Entre muitos risos, ela assume que, como a mais velha entre os dois, lhe "roubou" todos os atributos e ficou com as palavras, as ideias e a expressividade.

Era nova quando começou a pensar fora da caixa. Primariamente, acreditou no caminho da Assistência Social, mas o pai desviou-a dessa escolha. Na altura, a mãe também achou que as férias eram muito grandes para passear e, como enfermeira no âmbito da Saúde Pública, sugeriu que ajudasse numa creche e jardim de infância do Bairro do Amial no Porto, com as idas à praia e o verão dos pequenitos. Ainda que o pai achasse que poderia ser desvalorizada pelos seus esforços, foi neste voluntariado que entendeu o que gostava de ser, "ganhar dinheiro para brincar com miúdos", e resolveu tirar o curso de Educação de Infância na Escola Superior de Educação de Santa Maria. O curso foi difícil, mas deu-lhe as regras básicas para ser uma boa profissional.

Os tempos eram outros e a "Lady Di" foi a delegada oficial das educadoras de infância, o que fez com que todas as meninas sonhassem ter este cargo e se esgotasse o mercado de trabalho. A Luísa ainda foi para a Madeira um ano, onde sacrificou a sua vida pessoal e activa, por momentos parados e sem interesse. Depois, foi colocada noutra zona da Madeira, ainda mais longínqua e imóvel socialmente, e decidiu ir a uma entrevista de emprego na Cooperativa Construção e Habitação Santo António das Antas por descargo de consciência, mas que a sorte a trouxe de volta para o seu Porto.

Depois desta experiência, alucinante pela quantidade de trabalho que fazia enquanto coordenadora duma creche, jardim de infância e ATL, foi obrigada a seguir outro curso. Uma prima era coordenadora na Associação Portuguesa de Pais e Amigos do Cidadão Deficiente Mental e foi lá que a Luísa deu os primeiros passos no Ensino Especial. Revelou-se uma verdadeira lufada de ar fresco para aquela instituição na sua actividade criativa e, depois desta experiência, optou por tirar a Especialização em Ensino Especial na Escola Superior de Educação de Paula Frassinetti, onde ganhou uma vantagem no domínio cognitivo motor. Tirou o curso de Língua Gestual Portuguesa e mais recentemente, como uma forma de complementar conhecimentos e adequá-los ao estado vigente, tirou um Mestrado em Multideficiência e Problemas de Cognição na Escola Superior de Educação.

Como professora, a Luísa desempenha, para mim, o papel mais difícil e nobre da sociedade. Ela define-o como um desafio constante, uma maneira de cativar a sua mente. Hoje em dia, com 46 anos é responsável pelo acompanhamento aos alunos com adequações curriculares e que frequentam as escolas do Agrupamento Irene Lisboa. Está ciente que "cada caso é um caso" e que tem de se adaptar as exigências a cada apoio que faz, e recorre ao humor e à criatividade como meios facilitadores para comunicar com "os seus meninos". A sua preparação em Educação de Infância fez com que a informalidade fosse a sua maior arma, tendo maior facilidade em observar o ser humano como um todo com dinâmicas emocionais, físicas, cognitivas, biológicas e sociais, e não só como alguém que está a aprender a escrever e a ler. Ainda assim, por vezes sente-se incompreendida pela resistência às etiquetas e protocolos por, como ela diz, "descambar-lhe sempre o pé para o chinelo".

"A escola é um espelho da sociedade" e ela revela a sua violência. Com a população cada vez mais envelhecida, as crianças são escassas nas escolas com turmas mais heterogéneas, constituídas por alunos de outros países e culturas. Ainda que os estudantes com necessidades educativas especiais tenham algumas dificuldades ao nível abstracto, do português e matemática, a nível emocional eles absorvem tudo da mesma maneira e, tal como qualquer criança, espelham comportamentos que observam.

A Luísa declara que é cada vez mais complicado exercer o seu cargo pela incompatibilidade que existe entre os pensamentos políticos e a realidade educativa. A filosofia de que toda a gente tem de ter direito à educação é elegante na sua utopia, mas reflecte um conhecimento prático que não existe. Para a minha querida cunhada, um aluno que esteja numa situação de integração, mas com estímulos limitados e num estado vegetativo é pior do que estar inserido numa escola teoricamente segregativa,  mas com actividades específicas para ele. Ao mesmo tempo, os professores têm os seus direitos cada vez mais limitados e escondidos por trás de capas e nomes desconhecidos.

Um serviço de 22 anos e não é efectiva. Ainda que a frustração muitas vezes a invada pelo trabalho provocador que seguiu, tem hobbies que servem como subterfúgio, como a fotografia e a jardinagem, coisas que possa criar e sentir-se mentalmente estimulada, ideias também defendidas na sua colaboração com a Associação Agitar, perita em acções para os mais idosos.

Um furacão energético e de boa disposição, a Luísa é apaixonadamente dedicada, carinhosa e curiosa. É daquelas pessoas que consegue fazer-nos sorrir a cada instante e tem sempre uma palavra meiga para nos oferecer.

3 comentários:

  1. Sim descreveu-a como também a vejo. Mais uma vez parabéns pela simplicidade da escrita mas que fica clara e expressiva.

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  2. Parabéns pela descrição exata da Luisa!Uma grande e querida amiga!

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  3. Gosto muito deste remédio caseiro! Bjs miúda

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