23/04/2013

Remédios Caseiros: a Judite Rocha

Dizem que os melhores perfumes munem-se dos frascos mais pequenos. A minha Judite é mesmo assim: pequenina e concentrada, como uma boa essência deve ser.

Tem 48 anos, com muito gosto. Vive com a intensidade amplamente associada aos adolescentes, habita o instante e o "agora", e não tem medo da velhice ou que a vida acabe, pois ama-a incondicionalmente. Com uma infância mais sofrida, a idade trouxe-lhe a tranquilidade e a estabilidade que ansiava, muito mais importante para ela do que o estado físico, já que nunca teve o culto pelo corpo. As rugas dão-lhe a naturalidade que o crescimento lhe exigia, e ela opera apenas no presente; o passado existe apenas como lição de vida, daquilo que pode apreender com o que foi bom e mau, mas não guarda rancor das coisas más ou nostalgia do que foi bom: simplesmente acabou.

Trabalha há 30 anos no sector de importação duma empresa de revenda e representação de várias marcas de ferramentas, a mesma que a acolheu numa altura em que estava com pouco que fazer. Fez o 12º, no ano seguinte a ele ter começado, numa época em que se estudava à noite e tinha-se o dia livre. Era um verdadeiro aborrecimento para quem não tinha dinheiro e aquela ocupação completou os seus requisitos mínimos.

O seu sonho era ser jornalista, a única coisa para a qual concorreu. Conseguiu entrar na Escola de Jornalismo do Porto, mas sendo um estudo privado e caro, contribuiu para a sua maior tristeza quando decidiu não continuar. Contrariamente àquilo que almejava, deixou-se ficar pela empresa que lhe dava esta segurança e equilíbrio, num ambiente confortável, onde lhe pagavam bem, com boas condições e qualidade de vida.

Ainda assim, nunca deixou de procurar aprender mais e melhor, fazendo cursos de línguas, como o Francês, o Italiano, o Espanhol e o Inglês. A sua paixão por pessoas e gentes distintas fê-la enveredar pelo conhecimento de outros idiomas, como forma de facilitar a chegada e a comunicação interpessoal, e fazendo-a entender e explorar outras culturas, outras histórias, outras razões para além das palavras.

Não se sentindo parte do rebanho que a rodeava, a Judite começou-se a sentir sufocada no meio dos seus amigos: todos tinham família e filhos, responsabilidades que nunca fizeram parte dos seus planos. Apesar de ser uma pessoa extremamente maternal com os seus amigos, com um sentido de protecção abrangendo até as pessoas que mal conhece, confessa não ter sentido o relógio biológico em nenhuma das etapas da sua vida. Reconhece que isso poderá ser algo egoísta, pois nunca seria capaz de viver com a culpa de ter um filho infeliz, mas acha que este processo, se existente, foi inconsciente para o seu desenvolvimento.

No meio da asfixia das relações que tinha, a Judite sentia-se perdida. Tinha dificuldade em fazer amigos e os que tinha eram movidos por objectivos díspares dos seus, o que foi reduzindo ainda mais um núcleo de amizades que era já parco. De repente, deu por si a pensar que "a vida não pode ser só isto" e, numa conversa com uma amiga, surgiu a sugestão que conhecesse mais o Couchsurfing, uma comunidade onde a  hospitalidade ganha o papel principal na troca de experiências e contactos entre pessoas.

Ao início, a Judite não queria nem sequer aventurar-se: sempre odiou as máquinas e estas "coisas da internet", pois o que mais a interessava era o contacto humano. Ainda assim, foi no Couchsurfing que a sua vida mudou totalmente. Teve a oportunidade de conhecer muitas pessoas, casadas, solteiras, com filhos ou sem eles, mas com uma outra mentalidade, completamente diferente daquilo a que estava habituada. Apaixonou-se tanto por esta ideia que chegou a vestir a camisola de embaixadora, uma ligação perpétua entre a organização e os membros da cidade, com intenções muito claras: introdução e informação às pessoas novas, reuniões casuais entre os elementos e soluções a problemas que surgissem. A Judite desempenhava, então, uma garantia para todos os que representava, um pastor que juntava o rebanho. Foi nesta comunidade que angariou grandes amigos, que se enamorou duma maneira arrebatadora, que entendeu a grande generosidade que existe em cada um de nós. Hoje em dia, o entusiasmo inicial das grandes paixões passou e já não é embaixadora, mas ainda recebe os seus amigos e algumas pessoas que, ocasionalmente, lhe enchem o coração.


Mais recentemente, tirou um Curso de Voluntariado Internacional na Pista Mágica, uma chance que teve para ir fazer voluntariado para a Alemanha. Com o tempo, percebeu que não poderia ter ilusões: as Organizações não Governamentais têm tantos podres como as empresas, e o que ela gostava mesmo era de fazer algo feito por ela, honesto e verdadeiro. Ainda que a vida a tenha levado para outro lado, não deixa este sonho de parte e sente que, um dia, isso ainda vai acontecer.

Actualmente, o trabalho que tem pode ter os dias contados e está a investir num projecto virado para a 3ª idade, que vai arrancar no início de Setembro, no Porto. O propósito não é voluntário, mas acessível e este espaço tende a ser algo ocupacional, para que ela possa explorar mais esta sua vertente, paciente com idosos e com adoração pelas suas histórias cheias de significado. Entretanto, deve ter também uma direcção para a estimulação mental, o contágio da sua imensa vontade de viver alegremente, do sonho e do optimismo demarcado.

Apesar de ter decidido afastar-se da vida monótona de mãe e esposa, não exclui a hipótese de um dia juntar-se a alguém e adoptar uma criança que precise dela, embora não seja algo em que pense para o seu futuro. Questiona-se sobre as outras pessoas da sua vida, mas nunca se sentiu sozinha e a sua liberdade não tem preço.

E aqui está a Judite: uma portuguesa com orgulho, mesmo que o saudosismo não se ocupe dos seus tempos, visto que, como em tudo na sua vida, acredita que o melhor está ainda para vir.

2 comentários:

  1. Adorei :) encheu-me o coração e deixou-me com uma lagriminha! Este Remédio Caseiro fez-me conhecer mais um pouquinho da minha querida amiga Judite :) obrigada às duas pelo que me fizeram sentir ao lê-lo :)

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  2. Tive a oportunidade de conhecer o doce que é a Judite. Parabéns pela partilha. às vezes, é preciso coragem para o fazer.

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