16/04/2013

Remédios Caseiros: o Celso Pinto

A postura profissional do Celso detecta a sobriedade que gosta de transparecer naquilo que faz, muito embora seja algo associado ao artístico, ao subjectivo.

Ainda assim, conhecem-no por não gostar de pessoas. Ele diz que não é bem assim, que apenas não gosta de ser interrompido naquilo que se faz, com prejuízo para o próprio trabalho, elaborado e com pormenores muito específicos. Com 32 anos, vejo-o sempre com o seu blazer, a falar duma forma calma e pausada, com a linguagem técnica que lhe permitiu ser distinguido como um dos melhores da sua área; ele constrói, repara e restaura instrumentos musicais de corda beliscada, ou seja violas, guitarras, baixos, bandolins e banjos, entre outros.

"Isto não começou com formação", diz ele, duma forma modesta e despretensiosa. Natural de Penafiel, passava muito tempo no estúdio de uns amigos, razão de queixas da mãe pelo cheiro constante a tabaco. Um dia, um amigo perguntou-lhe se ele podia "dar um jeito" numa guitarra e ele, confessa inconscientemente, respondeu que sim. Aliás, não havia muito tempo que tinha ele mesmo começado a tocar (cerca de dois meses) e, não obstante, decidiu começar a comprar "uns livros no Feira Nova" e a investir nesse meio. Depois, declara que continuou neste caminho para ganhar algum dinheiro, já que não tinha mesada e a palavra foi-se espalhando, tanto que a certa altura estava a fazer vários ofícios para esse mesmo estúdio onde começou, até que esta era a frase recorrente:

"Tens de levar a guitarra ao Celso."

O seu espaço de trabalho era simples: tinha uma caixa de pequenas ferramentas que foi comprando com aquilo que ganhava e laborava mesmo em cima da sua cama, onde apenas fazia uma limpeza aos instrumentos, trocava cordas e afinava-os. Escreveu também um "fanzine" sobre guitarras que rendia algum dinheiro e ainda tinha uma organização que vendia cassetes de música "metal", que vendia a nível nacional, por isso o problema não era monetário. Ainda assim, as limitações eram mais que muitas: em Penafiel, o epicentro musical era o estúdio onde passava os seus dias e não existia sequer uma loja de instrumentos, mas, acima de tudo, revela que não tinha maturidade para perceber que deveria investir em formação para poder melhorar o seu serviço; nem fazia ideia que isso pudesse existir.

Como um qualquer rapaz com boas notas a Matemática e Física, foi parar inevitavelmente à Engenharia. Assim, ingressou no curso de Engenharia Electrotécnica e de Computadores da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, onde rapidamente percebeu que não fazia sentido continuar, expressando aos pais que gostava de aprender, mas não necessariamente exercer esta área. Apesar disso, fez o bacharelato e chegou a representar a sua formação de base. À semelhança de muitas pessoas da sua geração, teve muitas profissões que não tinham nada a ver com ele ou com aquilo que gostava de fazer bem, como o telemarketing ou a auditoria de máquinas de tabaco, e foi num momento de dificuldade em pagar as contas que voltou ao seu atalho original.

A altura era essencial para se decidir e aprendeu a disciplinar-se aos poucos, colocando de parte coisas que até "achava piada", mas que não eram produtivas, como o web design ou a fotografia, e dedicou-se de corpo e alma àquilo que acreditava. Comprou uma bancada, mais ferramentas e foi à procura de trabalhos em lojas de instrumentos e no antigo Uptown, percebendo que, com alguma subordinação, era capaz de se sustentar. Sendo uma área muito dispendiosa a nível elementar e dos pequenos detalhes, como parafusos e os mais pequenos utensílios, o Celso deu por ele a ter de voltar para casa dos pais em Penafiel para conseguir fazer mais por aquilo que gostava.

O seu primeiro atelier foi mesmo na sua terra de origem numas galerias comerciais à antiga, mas surgiram outras dificuldades: a disponibilidade para as deslocações dos seus clientes era menor e tecnicamente haviam alguns problemas aos quais não conseguia dar resposta, alongando-se o processo por tempos infindáveis e causando-lhe um peso que não desejava. Assim, contraiu um empréstimo com os seus pais e foi para os Estados Unidos aprender a sua arte para a Galloup School of Lutherie, mais propriamente para a School of Fretted Instrument Building and Repair, que lhe deu o diploma que mostra com um certo orgulho, embora afirme que não é isso que o identifica. 

Esteve muitos mais anos do que aqueles que gostaria de admitir sem um afinador e aprendeu a treinar o seu ouvido com a ajuda dum CD, duma revista de guitarras. Entretanto, o David Fialho convidou-o para entrar para o Breyner 85 e foi aí que mais desenvolveu a sua actividade aqui no Porto, no Afinas ou não Afinas ou o desespero dum técnico num atelier que lhe enche o peito de vaidade da boa e declara que foi "uma situação que se resolveu a ela própria, algo que tende a acontecer por estes lados". Coincidências das boas, portanto, e que o levaram ao respeito que tem hoje dos músicos e instrumentistas que passam por ele e que o procuram em busca de ajuda. Sabendo que cada um toca duma maneira específica e que os instrumentos têm vantagens ou desvantagens, podendo até contribuir para vícios influenciados pelas condições dos mesmos, o Celso tenta que o seu trabalho seja irrepreensível, tornando o material mais confortável; ele trabalha o instrumento para a pessoa em questão, é individual e intransmissível. Desta forma, o seu ofício pode ser considerado caro para alguns, mas ele faz questão de explicar que a qualidade tem um preço e acha que o seu trabalho se justifica a ele próprio.

No ano passado, foi também convidado por Lee Ranaldo para ir em digressão com ele e tratar-lhe das guitarras em primeira mão. O susto foi mais que muito: afinal, ele ia lidar com o guitarrista de Sonic Youth, que tem tantos anos de carreira como ele tem de vida. Mas decidiu seguir caminho e tem sido uma experiência muito boa, que apenas o prende por ter de fechar o seu atelier durante as férias. Hoje em dia, está também a planear uma mudança que irá ocorrer no início do próximo mês e pela qual está expectante e ansioso.

É um apaixonado por música, acima de tudo, seja ela de que estilo for, e apenas tem pena de não ter começado a ouvir canções mais cedo, qualidade que assume ser essencial para um bom músico. Brinca com o facto dos amigos chamarem-no de "semi obsessivo compulsivo" e refere que pega nesse seu problema para o vender, pois é importante que seja metódico e organizado para que seja produtivo e mais eficiente. Conseguiu inclusive dar a volta às ideias retrógradas e infundáveis do pai, que desvalorizava o seu trabalho, quando o pôs a trabalhar por uma semana no seu cantinho, e hoje em dia conta com o seu próprio aprendiz e amigo de longa data Hugo, uma pessoa em quem confia plenamente e que lhe dá espaço para que se concentre mais nos trabalhos complicados, assim como noutras perspectivas para crescer.

Não desfazendo os meus outros Remédios, o Celso é das pessoas mais interessantes que tive o prazer de conhecer e com quem conversei, dando azo a um texto maior do que esperava, não querendo perder todos os pormenores que me contou. É que é nas coisas simples que se encontra uma pessoa tão grande como ele.

2 comentários:

  1. Na panóplia da vida e nos excelentes relatos que escreves, podemos sentir o amor com que o fazes e também conhecer formas de estar e de ser de pessoas que usam e abusam do viver em busca da Paz. Parabéns Celso e Raquel

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  2. Sem dúvida tenho que dar a mão á palmatória trabalho muito,municioso que obriga a grande saber e paciencia, quanto ao resto só nós dois é que sabemos....quanto ás ideias retrogadas e infundáveis......Dores de cabeça muitas mas valeu a pena.PARABÉNS.

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