09/04/2013

Remédios Caseiros: o Nuno Baptista

O ar curioso do Nuno considera a sua originalidade como matriz de quem é na sua essência.

Os 29 anos apanham por pouco tempo este professor de corpo e alma, hoje dedicado às artes plásticas. O seu anseio era ser taxista, pois adorava andar de carro, e só percebeu que queria seguir o ensino depois de ter encontrado a sua professora de inglês no quinto ano, que lhe despertou o interesse por filmes e séries e o amor pela língua de sua majestade. O seu pai decidiu por ele quando o impediu de sair de Macedo de Cavaleiros, de onde é natural, para perseguir as artes, e acabou por escolher o inglês como seu companheiro.

Os seus planos foram cumpridos quando entrou no curso para a docência de Português/Inglês na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, mais propriamente em Vila Real, e foi aqui que começou a desenvolver a sua escrita criativa e a ganhar o gosto pelas palavras complexas e envolventes. Ainda assim, as artes continuaram a gritar a sua vontade e atenção, por isso largou as letras e foi para a Escola Superior de Educação do Instituto Piaget de Gaia, onde encontrou o curso de Educação Visual e Tecnológica. Esta escola tinha uma fama de não ser das melhores formações, mas o Nuno defende-a com unhas e dentes, pois teve a oportunidade de conviver com os profissionais mais soberanos do seu ramo, um contacto muito pessoal e especial e que determinou o seu caminho.

Na altura em que iniciou os seus estudos, o panorama de ensino estava saudável e recomendava-se: conseguiu colocação imediata e esteve a dar aulas, que lhe encheram as medidas da sua alma. Apesar disso, há cerca de 3 anos tudo mudou, a disciplina para a qual aprendeu extinguiu-se e ele teve de adaptar-se ao processo vigente. Não existindo adequação do sistema educativo que existia no passado, o Nuno deu por ele a dar aulas de artes plásticas e, hoje em dia, trabalha na Câmara de Gaia, dando as aulas das Actividades Extracurriculares do Agrupamento de Escolas de Valadares, mais particularmente do primeiro e segundo anos nas Escolas Básicas de Vila Chã e de Campolinho1. Investe nos seus alunos com o carinho que é necessário a um educador e ensina conteúdos que eles achem cativantes, com o instinto que o trouxe para estas andanças e o arrebatamento das ideias libertadoras. Acima de tudo, gosta da reconstrução duma obra desconstruída, do trabalho com os mais variados materiais e de incitar "os seus miúdos" a que experimentem, conheçam e evoluam.

Em 2004 sentiu a necessidade de se expressar através de palavras e iniciou um blog, o Cubo de Gelo, onde partilhava os mais diferentes interesses duma forma poética dentro da prosa, sem regras ou estruturas que o prendessem. Gosta de complicar aquilo que é simples e vê nisso um proveito muito atraente para o descrever, com um encanto específico por Fernando Pessoa e Eugénio de Andrade e uma preferência por Herberto Hélder, um escritor que quebra barreiras e limites. Há exactamente 2 anos, conseguiu editar um Compêndio do seu Cubo de Gelo pela Editora Corpos e que lhe deu o maior prazer pela transmissão da musicalidade dos seus versos, ecos da sua mente. Com a primeira edição esgotada, confessa que foi uma boa recepção para alguém que estava convencido que apenas iria vender a amigos e brinca com a possibilidade de ser demasiado complicado ou "pesado" para a maioria das pessoas, argumentando que é um livro para saborear, aos poucos e poucos.

O Nuno tem uma adoração pela música, principalmente pelo trip hop e pela onda alternativa que começou a ouvir nos anos 90, graças ao contacto com o seu irmão do meio. Chegou a fazer umas sessões de DJing e participava também há algum tempo num outro blog musical, mas teve vontade de fazer algo seu no início deste ano. O Undenied Pleasures surge, então, como o caminho mais directo para os seus destaques e fascínios, com textos explicativos e esclarecedores de bandas e influências. Em conversa com o amigo Carlos Baptista, com o mesmo sobrenome mas que não é da família, decidiu levar as suas ideias mais longe e criou um programa de rádio falado, um regresso às origens das grandes vozes radiofónicas e num formato inovador para a música alternativa.

Transmontano com orgulho, ele representa uma juventude que está em declínio pela falta de momentos proveitosos para que exista evolução. Além disso, acha que continua a haver uma visão negativa da gente da sua terra, os "campónios" e "pastores" que toda a gente imagina, mas que já não são exemplo, e considera opções para promover a mudança de sentimentos e mentalidades. Tem a ambição de criar a sua própria editora com a ajuda de um amigo e que espera que dê a oportunidade que as pessoas criativas precisam para um bom desenvolvimento.

Organizado na sua desorganização e irresponsavelmente responsável, o Nuno vive numa constante dicotomia e trabalha melhor sobre pressão, tentando ser sempre uma pessoa correcta e um exemplo para os seus alunos. Afirma que sabe que o ensino está numa fase conclusiva e que, em breve e infelizmente, deixará de ter espaço para si e, por isso, sonha em investir mais na sua pintura e seguir o lado mais artístico. Está também a escrever um segundo livro, que acha que vai ser um pouco contrário às ideias do primeiro, mais simples e objectivo.

Para o Nuno, é mais importante atingir os seus objectivos e ser feliz com aquilo que desempenha e elabora, do que o reconhecimento que pode ter. Ainda assim, os seus olhos asiáticos, que ele jura não serem da família, são o espelho do agradecimento que sustenta pelas pessoas que o rodeiam e inspiram uma constante construção de si mesmo: ainda que intrincada, mas sempre muito dedicada.

4 comentários:

  1. Parabéns pelo artigo, é mesmo isso. Quem me conhece já afirmou que reflecte muito do que sou.
    Obrigado pelo interesse ;)

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    1. Obrigada eu! As pessoas interessantes devem ser sempre partilhadas com o Mundo ;)

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  2. Parabéns ao Nuno. Um Abraço

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  3. Novamente bem escrito e dando a conhecer uma pessoa interessante. Parabéns

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