30/04/2013

Remédios Caseiros: o Zé Ruy Sá Ribeiro

A maneira fácil com que o Zé Ruy encara o Mundo fá-lo numa pessoa extremamente cativante, daquelas que se quer ter por perto para amaciar o coração. Ele diz que não gosta de fotografias, mas sem dúvida que nos conquista com o seu sorriso, a sua forma determinada e o seu carisma inconfundível.

Encontrei este rapaz, graúdo de quase 26 anos (e agora já celebrados), preocupado na azáfama dos detalhes, com o seu último projecto da faculdade: uma curta-metragem com o nome de "Hoje em dia", um reflexo da situação económica, financeira e das "politiquices" do quotidiano, numa história cheia das reviravoltas e particularidades curiosas que tanto gosta de representar. Este seu trabalho cuida-se da perspectiva das pessoas enquanto espectadores da televisão "a la George Orwell", pronta para observar todas as nossas reacções, e aqui ele ocupa-se da realização, argumento e produção.

Está no quarto ano do curso de Cinema e Audiovisual na Escola Superior Artística do Porto, uma formação que, ainda que seja muito dispendiosa, lhe dá as bases que procurava nesta área, especialmente nos domínios dos professores que defende terem mais valor na sua Universidade: no argumento, no som e na imagem. O Zé Ruy não tem muita paciência para as vertentes mais teóricas do seu curso, ainda que confesse que a sua instrução é mais liberal do que outros cursos no seu território, com a característica do trabalho inspirado na pressão da última da hora, tudo ao mesmo tempo.

Não foi apenas isto que estudou. No final do seu 12º ano (ou já 13º), houve uma imposição por parte dos pais para que fizesse algo da sua vida, aperto esse sentido ao longo do seu estudo, que era pouco eficaz. Com uma média bem pequena, mas que nunca o impediu de perseguir aquilo que queria, decidiu ir para o Curso (mais técnico) de Gestão Hoteleira na Escola de Hotelaria e Turismo do Porto, para onde entrou com o 20 do exame de Inglês. Esta era uma educação barata e que lhe dava o tempo que necessitava para encontrar o que gostava de fazer na realidade. Depois do estágio de dois Verões no Algarve e de algumas boas propostas para o futuro, principalmente a promessa dum contracto no último ano que esteve a trabalhar no Hotel Dom Pedro em Vilamoura, definiu que não era isso que queria fazer da vida e voltou para Porto, onde esteve a gerir os bares do Breyner 85, na altura em que abriu.

Em seguida, foi uma coisa atrás da outra: achou um certo encanto pela área do Cinema e encarreirou por aquele lado, uma descoberta imediata daquilo que queria fazer. No início, admite que seguia pelo caminho habitual e que tinha o bichinho da realização. Mas foi logo no primeiro semestre que lhe pediram para escrever um argumento e descobriu que tem um jeito especial para se expressar pelas palavras compostas. Posteriormente, foi algo simplesmente natural e, até hoje, todos os seus argumentos foram seleccionados para ser realizados, algo que empenha com orgulho. Sempre gostou de escrever, embora tenha alguma dificuldade com a parte da prosa e não goste muito do que escreve a esse nível. Deste modo, o argumento exibe-se como uma escrita mais técnica, com regras e limitações que permitiram que desse mais asas à sua imaginação e não estivesse tão focado na parte física que obrigatoriamente estaria presente, e acabou por lhe ganhar o amor para que continuasse.

Apreensivo com os próximos passos onde terá de fazer a realização, um teste à sua visão coerente e concisa, o Zé Ruy matuta no seu modo de ser, já que revela ter alguns problemas com a assertividade e teme o que poderá acontecer. Gosta que as pessoas gostem dele, o respeitem e se sintam bem ao seu redor, por isso, por vezes, acaba por abdicar da sua própria palavra para que não se sintam pressionadas, perdendo um pouco da sua identidade, e sabe que isso é muito mau para um realizador, que tem de conduzir a sua equipa para onde quer, com as suas palavras como regras a seguir.

O Zé Ruy é preguiçoso, mas lida bem com a pressão e gosta dela para trabalhar. É também polivalente na sua área, pois pode fazer qualquer coisa à qual se proponha num set de rodagem. Como qualquer artista que se preze, inspira-se na sua própria vida para representar o que sente, nos seus próprios sucessos e fracassos, nos seus amores e desamores. As suas histórias têm sempre uma "Inês", uma rapariga que surge de traços duma narrativa passada nos seus tempos de adolescente, mas também da sua relação com a sua irmã, que sempre foi próxima e forte. A escolha é quase consciente, na medida em que aproxima o protagonista masculino dos seus contos com as bases de si mesmo, acabando sempre com a idealização da sua "Inês", uma personagem fictícia que é o seu fetiche.

É um apaixonado pela sétima arte e pelas histórias representadas, com o respeito de um rapaz novo pela sabedoria dos mais velhos. Como influências pessoais, escolhe Franklin Pinho, um colega da sua faculdade que manifesta aquilo que o Zé Ruy gostava de ser, na sua eficácia e dedicação, e a quem pede dicas e sugestões. Tem uma preferência por realizadores que tenham filmes com argumentos fortes, e refere que isso se traduz nos diálogos. Assim, honra a presença de espírito de Quentin Tarantino, especialista exímio em mostrar personagens mais sombrias, até absurdas e complexas, através das conversas mais banais e inúteis. Por último, designa Woody Allen como o mestre nas palavras, nas voltas e reviravoltas engraçadas e interessantes para as histórias das pessoas mais reais e comuns, fáceis de identificação pessoal, com o seu humor negro tão delicioso.

E no futuro? O Zé Ruy prevê a saída eventual de Portugal, em que uma escola de Vancouver poderá estar nos planos como uma boa hipótese. Mas não se coíbe e também elege um Óscar para o seu caminho. Depois diz:

"Gostava de ser reconhecido pelos meus pares como uma figura proeminente na área."

E é assim, entre risos e brincadeiras que ele se mostra um amigo daqueles que os braços já nem têm espaço para crescer, um coração quase tão grande como o seu talento. É assim que se mostra um rapaz já tão crescido, uma alma tão sábia para tão tenra idade.

P.S. Ficou a promessa que ele actualizasse mais o seu blog. Espreitem-no aqui.

1 comentário:

  1. Parabéns aos artistas e fiquei a conhecer melhor o meu "sobrinho". Mais uma vez muito bem escrito e descrito.

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