28/05/2013

Remédios Caseiros: a Catarina de Paulo

Esta é a história da Catarina: uma menina pequenina com sonhos de gigante.

Tem 26 anos, feitos no início deste ano. Nasceu em Macau, do outro lado do Mundo, onde aprendeu a ser quem é. Num lugar representado por uma amálgama cultural imensa, com pessoas vindas da Índia, do Brasil, de Moçambique e de Angola, teve a felicidade de perceber muito cedo que era uma cidadã de todo o lado, do Mundo. Teve também muita sorte com a educação dada pelos seus pais, que reflectem a sua maior inspiração, já que lhe deram todas as bases de autonomia, responsabilidade e compromisso, e fizeram que fosse uma passageira de ambições grandes, com a humildade no sorriso.

O seu desejo sempre foi ser Bióloga Marinha, interessavam-lhe os assuntos do mar. Ainda assim, o dia mais feliz do seu ano era o dia 10 de Junho, de Portugal, Camões e das Comunidades Portuguesas, em que se sentia completa a fazer os espectáculos da escola, no caminho do teatro e da declamação, mas também da dança e do canto. Foi assim que descobriu que gostava mesmo de ser actriz, aspecto que os pais nunca alimentaram e que, uma vez em Macau e com as imensas lacunas culturais inerentes, acabou por se deixar levar pela estagnação.

Foi um cliché que se tornou verdade e que mudou o seu percurso. Habituada a viajar com a sua família e a passar o Natal na praia, estava na Tailândia quando aconteceu o terrível tsunami em 2004. Tinha saído na noite anterior de Phuket para Banguecoque, na impossibilidade de ficar mais uns tempos como gostaria, já que os hotéis estavam todos reservados e repletos de turistas. A televisão deu-lhe o mote da devastação e na inutilidade sentida por não poder ser uma ajuda para aquelas pessoas, decidiu que iria ser médica para evitar que isso acontecesse novamente.

Nessa altura, veio para Portugal para estudar Medicina na Universidade Nova de Lisboa, com os olhos abarrotados de esperança, querendo quebrar as fronteiras. Deparou-se com uma realidade muito diferente daquela que aspirava, longe da protecção à qual estava acostumada, tendo de crescer "à força", duma forma dura e repentina, algo que agora constata que tinha de acontecer um dia. Apercebeu-se que não podia viver tanto os seus sentimentos ou demonstrá-los da maneira evidente à qual estava viciada, pois isso poderia representar uma fraqueza para a qual as pessoas não estavam preparadas para reagir. Foi um amadurecimento necessário e que a fez também questionar a sua direcção, já que sentiu a grande pressão para estudar na faculdade, coisa nada corriqueira para ela, que tinha boas notas apenas pelo prazer do conhecimento.

No final do primeiro ano da universidade, queria simplesmente desistir. Voltou a vontade de fazer um curso de representação nos Estados Unidos, mas era muito caro e ainda pensou em mudar para a ânsia de outrora, a Biologia Marinha, mas o comboio já tinha começado a andar e ela deixou-se estar na viagem. Continuou com o teatro na faculdade, fez Erasmus em Itália e permaneceu na sua vida, mais formatada do que desejava. Embarcou também em projectos voluntários em Lisboa, onde colaborou com a "We Are Changing Together", uma organização sem fins lucrativos onde dava apoio escolar a crianças desfavorecidas, e foi socorrista da Cruz Vermelha, fazendo piquetes nas ambulâncias durante a noite. Foi também na WACT que fez uma formação para tentar ir até S. Tomé e Príncipe ajudar nas escolas, algo que não conseguiu, contrariamente àquilo que toda a gente esperava e facto que a desiludiu profundamente.

Depois, veio viver para o Porto, onde está actualmente a trabalhar, no internato da especialidade em Doenças Infecto Contagiosas, no Hospital Pedro Hispano em Matosinhos. A Catarina vive com as emoções à flor da pele e usa a sua solidariedade como um distintivo intrinsecamente ligado a si, algo que teme por poder interferir com as suas capacidades profissionais, pois lhe custa ver as pessoas a sofrer. Receia ficar fria e distante ou insensível, que perca a humanidade que tanto conserva. Acima de tudo, defende que devemos amparar e auxiliar quem está perto de nós, e não nos limitarmos a causas fora do nosso país que, ainda que louváveis, nos levam muitas vezes a esquecer o nosso vizinho.

Esta foi também uma das razões pelas quais se decidiu seguir a sua área de eleição, a paixão pela Medicina Tropical, e assume que tem de ter uma sensibilidade especial para este domínio, pois tem de lidar com muitos indivíduos de estratos sociais e económicos mais desfavorecidos, com situações de vida muito difíceis e graves, no âmbito da toxicodependência, da prostituição, do álcool e dos comportamentos de risco, entre outros. É preciso um carinho notável para chegar às pessoas, uma vertente mais social e incondicional, com os julgamentos postos de parte.

Hoje, procura uma casa como a que sentia em Macau, um sítio onde possa ser ela mesma. Num mundo ideal, parava agora um ano e ia para Londres ou Nova York aprender representação, o famoso "gap year" que se revela ser impossível de concretizar em Portugal. Em Julho irá até Londres para fazer uma formação de "Acting and Musical Theatre", e só o tempo irá decidir os seus ventos. Ainda assim, não pensa em deixar a sua profissão actual de lado e gostava de investir na Medicina Humanitária, viajar para outros países e aplicar-se no voluntariado.

"Venho dum sítio onde sempre sorri com o coração e com a cara", diz a Catarina, sem presunções. São os seus sonhos que a definem e, com a força de um gigante e a alma de uma menina, esta é uma história que irá, certamente, acabar no "e viveu feliz para sempre".

7 comentários:

  1. A Catarina revela, pela excelente descrição aqui revelada, ser a médica que o futuro necessita. Aliás, a medicina embora esteja e seja da área das ciências, é um profundo acto de HUMANISMO. Logo aqui está um ser humano que sabe estarmos unidos e, portanto, o outro é um pedaço de nós. Parabéns e representar ou cantar é viver porque a vida é um enorme palco... Venha a médica....

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  2. Obrigadissima: ) Um Grande Beijinho*

    Catarina

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  3. Tenho um imenso orgulho em conhecer um ser humano como tu, querida Kika. Vais longe. :) Nós valemos pelo sonho que temos ... A vida não se esquecerá de ti, Menina do Mar.

    Um abracinho de gigante!
    "Mariazinha". :p

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  4. wow :) adorei Catarina!!! Mesmo que não haja caminhos fáceis, que a vida te sorria sempre da maneira como tu sorris ao mundo! bjoca grande* Cristina

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  5. Obrigado, pelo prazer desta leitura.
    Um grande beijinho* :)

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