14/05/2013

Remédios Caseiros: a Joana Santos

Há livros que nunca se esquecem. Talvez por serem recheados de coisas que gostaríamos de ver ao vivo e a cores e por nos perdermos a imaginá-las, mas principalmente, porque nos levam a sítios nunca antes visitados, a histórias com significado que conseguimos transmitir para a nossa própria vida. E depois, há pessoas como esses livros, como a Joana.

Ela diz que não se sente minimamente inspiradora, mas é nela que residem as ideias mais motivadoras que já tive o prazer de assistir. Os acasos foram capazes de a levar ao sítio onde se encontra hoje e revelaram-lhe a sua própria competência a lidar com as minorias que tanto defende, entregando-se orgulhosamente, ainda que duma forma totalmente despretensiosa.

Com 33 anos (quase 34), actualmente trabalha no Projeto Catapulta, a oportunidade para que alguns jovens residentes no centro histórico do Porto "dêem o salto" para uma vida com frutos mais deliciosos do que a família de onde são provenientes. Idealizado pela Associação SOS Racismo, à qual também dá a cara e o corpo ao manifesto, resultou duma candidatura ao Alto Comissariado para a Imigração e Diálogo Intercultural (ACIDI) para encontrar interpretações para o futuro dos adolescentes daquela área geográfica. Duma forma geral, iria dar formação nas tecnologias da informação, mas o facto é que é mais um membro da equipa a tentar proporcionar-lhes algumas actividades e a criar um grupo de jovens que se relacionam, mas que não sabem cooperar, acabando por se dedicar mais horas do que as que estavam estipuladas, aventuras nem sempre positivas.

Começou nestas lidas da infância como monitora numa empresa que fazia actividades de ciências para crianças, enquanto estudava no curso de Arquitectura na Universidade Técnica ainda em Lisboa, de onde é natural. Não gostava do estilo de vida dos arquitectos e acabou por não concluir o seu curso, investindo então numa área que julgava não ter jeito, mas que lhe dava uma retribuição monetária positiva. Foi nessa altura que decidiu abrir um franchising dessa mesma empresa e mudou-se para o Porto com a Mad Science, plano ao qual se empregou durante cerca de 8 anos.

Era ainda muito pequena quando a mãe a levou pela primeira vez à escola: na sua alcofa e com uma semana de idade, já estava na cantina rodeada dos cheiros e lugares que tanto viria a adorar. O facto da mãe ser professora não foi determinante para o seu caminho, que assume a naturalidade da sua essência. Com embaraço por só ter o 12º ano e as pessoas quererem tratá-la por Doutora ou legitimamente lhe exigirem algum tipo de formação para lidar com crianças, determinou-se a tirar o Curso de Professora do Ensino Básico, com a variante de Educação Visual e Tecnológica, na Escola Superior de Educação do Porto (ESE), terminando em 2009.

Nesse ano, através dum protocolo entre a Cooperação Portuguesa do Ministério dos Negócios Estrangeiros e a ESE, foi ensinar futuros professores primários nas áreas de Prática Pedagógica e Tecnologias da Informação e Comunicação para a Universidade Nacional de Timor Lorosa'e. Foram 14 meses bem passados, entre aspectos positivos e outros nem tanto, com o clima e a beleza mais ao gosto dela, mas também com alguns modelos desajustados e disformes que lhe deram uma visão particular do que acontece nesse país. Tudo isto contribuiu para mais uma marca na sua história, de tal maneira profunda que conta:

"É uma experiência tão diferente que dou por mim a referi-la demasiadas vezes".

O facto de ter estado 3 anos sem trabalhar fez morrer alguns dos assuntos novos para si e, consequentemente, restringiu-se a esta bagagem.


Ainda que notoriamente desanimada com as políticas do país onde vive, a Joana continua a lutar pelos seus ideais, contrariando a forma desorganizada das pessoas falarem mal do Mundo apenas por falar, sabendo que não existe mudança desta maneira. Inserida no SOS Racismo desde 1997, foi esta a actividade cívica e política que decidiu manter, numa luta não só a favor de pessoas que estão em minoria, mas contra todas as formas de discriminação, sejam de género ou relacionadas com a homofobia. Assim, dedicam-se a diversos feitos para sensibilizar a sociedade contra o racismo, nas escolas e através de debates, com vista em ganhar visibilidade e reconhecimento na sociedade, respondendo também pontualmente a denúncias, sejam elas de racismo de imprensa (etnias cada vez mais importantes se forem assaltantes ou traficantes) ou casos subtis (negar renda de pessoas de culturas diferentes). Neste momento, não têm tido grandes movimentos extremistas, apesar da crise ser "uma boa altura para culpar a imigração", por isso estão sempre bem atentos.

Sempre foi uma apaixonada pela organização da escola, pelo cheiro dos livros e pelo conhecimento que eles traziam. Uma vez em Timor e duma forma informal, pediu livros a amigos para montar uma biblioteca, que a surpreenderam com um donativo de cerca de 12000 exemplares, uma verdadeira onda de humildade e solidariedade. Chegada de fresco a Portugal e inebriada com esta experiência, dispôs-se a fazer um Mestrado em Promoção da Leitura em Bibliotecas Escolares na Universidade de Aveiro, plano esse que está em segundo pela agitação que a vida lhe trouxe e também pela percepção que para ser Professora Bibliotecária teria de pertencer ao quadro, coisa que não é e tem a certeza que nunca será.

Por outro lado, também gostava de ocupar-se mais com exercícios abrangentes à comunidade no Projeto Catapulta, como os pais ou outros familiares dos adolescentes que apoia, mas argumenta que isso apenas é possível com as Tecnologias de Informação, onde ensina algumas bases mais práticas para o quotidiano. Revela a dificuldade de trabalhar com esta população, principalmente pelas ideias erradas e preconceituosas que a maioria das pessoas têm de "os pobres são rijos" e que aguentam tudo, duma forma diferente, justificando que a realidade é bem diferente: os "pobres" deprimem e tomam medicação, com a agravante de terem muito mais maleitas do que a chamada classe média, pois não se alimentam convenientemente, não são acompanhados por médicos, não compreendem indicações que lhes são dadas e ainda lidam com os mais variados problemas familiares (drogas e outras dependências). Desta forma, diz ela, "temos uma camada brutal da população parcialmente inutilizada para o trabalho, a vida e a felicidade em geral", exigindo muito do seu tempo e paciência para fazer de ombro amigo para estas pessoas que encontra diariamente, sendo uma tarefa interessante, mas também frustrante e extenuante.

Actualmente, sente-se limitada pelos lados que tem o seu país. Acredita piamente que já foi uma pessoa mais apaixonada, mais empreendedora e inspiradora, e que está confinada até em considerar possibilidades. Se o resultado é o mesmo, ela sente-se diferente na sua luta, incapaz na transmissão dos seus valores para os outros, reflexo da sociedade que nos leva a ser mais individualistas e centrados em nós mesmos.

O segredo é lutar contra esta vontade de estar sentado no sofá a dizer mal do Mundo e ser-se mais activo, assim como ela nos ensina a ser, como boa professora que é, inspiradora como ela só. Como um bom livro que nos envolve e nos orienta para o caminho certo a seguir, assim é a Joana, uma rapariga que conheci há tantos anos e que o tempo se encarregou da distância, mas que nunca esqueci.

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