21/05/2013

Remédios Caseiros: o Sérgio Valmont

Quem conhece o Sérgio sabe que é absolutamente impossível estar perto dele sem soltar uma gargalhada bem sonora.

Ele está sempre pronto com uma piada na ponta da língua, e é a resposta ideal para os dias em que estamos mais cinzentos. Com 31 anos, é um trabalhador independente, músico e técnico de som, orgulhoso da posição que representa, ainda que precária. Para ele, é um sistema justo, onde recebe consoante aquilo que trabalha, ainda que não tenha direito a regalias como subsídios ou baixas, mas onde, de certa maneira, se sente melhor com a sua consciência.

A música que faz tem sempre o seu cunho próprio e gosta de o fazer com amigos. Na verdade, trabalha muitas vezes com as mesmas pessoas em diferentes projectos e isso reflecte muito do que é, da generosidade que é capaz de transmitir. Dedica-se àquilo em que acredita de corpo e alma, abarcando tudo com o mesmo cuidado.

O Sérgio é baixista em várias bandas, não tendo nenhuma principal que o determine. Nos originais, constitui um elemento primordial nos originais de Rádio PandoraTemplários do Rock e colabora com a Orquestra de Baixos e Guitarras Eléctricas, uma iniciativa com apoio do Serviço Educativo da Casa da Música e que também lhe enche as medidas. Destaca o seu trabalho em Freud & Eu, pois foi com eles que cumpriu um dos objectivos de vida e tem um disco saído em 2010, esperando também por um EP dentro em breve.

Tem pena que as pessoas não procurem tanto a novidade dos projectos, pois "fazer coisas originais não é fácil": quem não conhece, simplesmente não vai, já que a maioria das pessoas só sai de casa para ver aquilo que já domina e entende, tendo por isso mais público a ver as suas bandas de covers do que com aquelas onde pratica a singularidade. Assim, faz parte de Black Coffee and the Soul Business Band (descrito aqui),  Lizard King, uma banda de tributo a The Doors e The Blues Cousins, com versões blues. No último ano, tem tido experiências em palcos maiores e aventuras fora do país, graças à colaboração com Quim Roscas e Zeca Estacionâncio, que decidiram ter uma banda para acompanhar espectáculos, herdando também um lugar nas apresentações de João Paulo Rodrigues, vulgo Quim Roscas.

Como técnico, faz principalmente apoio ao som ao vivo, não estando, por enquanto, associado ainda a nenhuma banda. Trabalha regularmente com algumas entidades, nomeadamente com a Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto e o seu auditório, a Porta Jazz e a promoção de músicos e concertos de jazz, e exerce actividades pontuais no Maus Hábitos e no Breyner 85, dois bares no centro do Porto.

Mas nem sempre quis estar ligado à música, contrariamente ao pensamento geral que pode surgir. "Desde pequeno que a minha ideia sempre foi ser cientista", admite com a maior sinceridade, e tinha um interesse particular pela física, não sabendo que o seu fascínio iria acabar quando se envolvesse realmente naquele mundo. Entrou para o curso de Física da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto e só quando começou a entrar no assunto a sério é que descobriu que aquela não era a sua praia. Tinha de ter uma dedicação extrema e não estava preparado para isso.

Os pais sempre insistiram para que tivesse os seus tempos pouco livres e mais ocupados, e que podia escolher entre a música ou o desporto. A sua breve história no pólo aquático só veio reforçar que não tinha jeito para aquelas actividades, e, com 10 anos, começou a ter aulas de guitarra na Valentim de Carvalho. O Escotismo (não me enganei a escrever, vejam aqui) também assumiu uma parte muito importante para a sua vida, não tanto pelos ideais do movimento, mas pelas amizades que criou, a facilidade em se envolver com as pessoas, a abertura a aventuras e histórias novas. Esta área só ficou posta de parte quando a música começou a interferir no tempo e os conflitos fizeram-no seguir aquilo que lhe dava mais prazer.

Depois, ainda na Valentim de Carvalho, começou a ter aulas de baixo com Rui Salgado, uma pessoa muito serena que valoriza bastante ainda hoje, pois lhe ensinou muito sobre música e o seu instrumento, mas também foi, de certa forma, o responsável pela introdução neste mundo. Como membro de substituição do seu professor, de ida sem volta para viver na Bélgica, integrou os extintos Sinai (hoje Freud & Eu), onde teve a oportunidade de conhecer pessoas, o início da sua excursão por estes meios e a altura em que teve de se aplicar à séria.

Preso no curso de Física que o estava a esgotar, foi depois de alguns anos que decidiu mudar o seu caminho. Descobriu por intermédio de amigos que existia um curso que lhe agradava mais e resolveu candidatar-se à licenciatura de Música, com a variante em Produção e Tecnologias da Música na Escola Superior de Música e Artes do Espectáculo, e encontrou um lugar onde se sentia confortável e onde aprendeu muito, não só sobre a vertente técnica da música e dos equipamentos, mas também sobre acústica, análise, história e ritmo musical. Compreendeu que ser produtor também é ser músico e labutar em estúdio é a fase final de embelezamento e criação.

Profissionalmente, passou pela loja Valentim de Carvalho, onde vendia discos ao público em geral, e pelo grupo NEXTV, onde funcionavam 3 canais de televisão: a Regiões TV, a MVM e o Canal Brasil.

O Sérgio não tolera atrasos e encara qualquer banda como um trabalho, tenha mais ou menos projecção, envolva mais ou menos dinheiro, com o perfeccionismo que lhe é inerente. Durante muito tempo, limitou-se a ouvir jazz e refere que se apercebeu mais tarde que estava a ser um pouco pedante, descurando géneros que poderiam ser igualmente interessantes, redescobrindo, então, o rock e começando a apreciar mais a fusão. Por outro lado, existem coisas que só começa a ouvir quando tem de as começar a tocar, como é o caso do soul, do funk e do blues. Longe da excitação de outros tempos, acha que é melhor músico agora que está mais sereno e mais estável, e aprecia até quando é convidado para concertos pontuais noutras bandas, por não ter de compor, apenas interpretar e transmitir.

Ele ensina que a comédia é apenas a tragédia adicionada ao tempo, e isso fá-lo rir das coisas mais improváveis e deixa os seus amigos com uma lição de vida, para que levem as coisas com calma. Muito há a dizer sobre o Sérgio, mas as palavras falham-me na descrição dum amigo tão querido. Embora ele não se aperceba, com o seu humor único e sincero ele inspira e ensina muitas coisas aos que o rodeiam, e nem nota o bem que faz às pessoas com a sua amizade incondicional, com o seu abraço seguro.

3 comentários:

  1. Weeeeeeeeeeeeeeeeeeee!!!! El Comandante !! :D


    Beijinho grandalhão *

    Ana Alvarez

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  2. Foi um "choque" para aquela classe de guitarra da Valentim de Carvalho, quando deixou as aulas do Professor Hugo e foi para as aulas de Baixo.

    A malta chegava a passar uns bons dias de concerto no Museu do Carro Eléctrico :)

    Mas tornou-se muito melhor músico do que qualquer um de nós, que aos poucos, por inerência de escolhas, faculdades e projectos, foi fazendo da música um hobbie cada vez mais hobbie.

    Um abraço,

    Armando Pereira

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  3. Acima de tudo gostei da descrição da sua paz interior que transmite com algo que acho super importante, ou seja, "aquele abraço"..... Parabéns mais uma vez uma escrita descrita

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