18/06/2013

Remédios Caseiros: Mariana, a Miserável




Detentora dum humor sórdido e autêntico, a Mariana é firmemente fiel às suas causas, duma forma cuidadosa e zelosa.

Queria ser florista porque "era pirosa e gostava de arranjos" e tinha contacto com uma florista no centro comercial da sua rua, achando que ia ser uma vida fácil, "rodeada de flores e fazer coisas bonitas para as pessoas darem a outras pessoas". Entre muitos risos, a conversa começa com uma música de fundo e que muito relata a característica miserável da Mariana:

"If you don't know me by now/You will never never never know me"...

Com 26 anos e oriunda de Leiria, cedo percebeu que queria enveredar pelo caminho das artes. Aprendeu a pintar com a avó, uma senhora que teve um mestre daqueles a sério nos seus tempos de Angola. Por sua vez, o seu marido já tinha tarefas de designer quando desenhava letras nos carros, apesar de não se chamar assim na altura, nem saber o que isso significava. Embora o pai da Mariana seja contabilista e um homem ligado aos números, sempre a cultivou relativamente a estes assuntos, levando-a a exposições de pintura e ilustração, e a mãe sempre a apoiou muito em tudo, era programadora cultural da Câmara de Leiria, estando mais ligada à música, responsável pelo início do Festival de Jazz de Leiria.

Acompanhando os passos daquilo que desejava e dos resultados dos testes psicotécnicos, decidiu ir para a Escola Superior de Artes de Design nas Caldas da Raínha e seguir o curso de Design Gráfico. No final desta formação, sentiu a necessidade de abrir asas e foi para Barcelona para um gabinete de design bem pequenino com uma bolsa de estágio para 6 meses. Acabou por se desiludir com aquilo que fazia, pela impossibilidade de fazer projectos grandes como aqueles que via nos livros e por ter de se limitar ao gosto estreito dos clientes que a procuravam. Também percebeu a realidade injusta que alguns dos seus colegas viviam, numa situação precária e sem grandes perspectivas para o futuro.



Foi a altura ideal para investir numa paixão sua, a ilustração, desenhando e fazendo algumas fanzines. Tinha um blog (aqui) e conhecia já algumas pessoas através dele, e foi então que começou a divulgar os seus desenhos naquele meio, eclodindo em alguns convites para fazer exposições. Limitava-se a fazer aquilo que gostava e não se preocupava se a convidassem para fazer algo mais; era mais livre e tranquila.

Uma vez de regresso a Portugal, teve de voltar a viver em casa do pai, algo que a angustiou depois da temporada em Barcelona em que sentiu o gosto da liberdade. Desta maneira, achou por bem ir para uma grande cidade para tentar a sua sorte noutros sentidos. Iniciou então o seu percurso na experimentadesign não como designer, mas como assistente de exposição e ficou em Lisboa durante uns meses. Este foi um trabalho que não lhe dava grande remuneração financeira, mas que gostou realmente de fazer e tinha a facilidade de ter por lá familiares que a libertavam de pagar alojamento.

Depois, conheceu um rapaz, e carregada de romantismo veio viver para o Porto no início de 2010, completamente às cegas e sem pretextos profissionais. O seu pai foi, mais uma vez, uma grande ajuda motivadora, na medida em que acreditou piamente que podia fazer algo nesta cidade, mas a verdade é que ainda esteve uns bons meses sem estar oficialmente a trabalhar. Com o tempo vieram os conhecimentos, as exposições e a entrada para a Ó! Galeria, que só lhe fez maravilhas.


Actualmente, a Mariana é ilustradora e é completamente apaixonada por aquilo que faz. Não planeou nem resolveu de repente, mas foi algo que surgiu aos poucos, com trabalhos de ilustração na faculdade e que a tinham safado a algumas cadeiras, começando então a ser conhecida como "a menina dos desenhos". Foi complicado até a família começar a acreditar no trabalho dela, pois confessa que não é algo que facilmente se entenda ou se goste, que se veja o valor; não é "fofinho".

Defende que não é apenas "uns riscos que faz ao telefone com uma amiga", mas que essa ideia ainda é muito generalizada e completamente distorcida da realidade. Tem um ofício direccionado para os graúdos, pela especificação na transmissão de algumas mensagens e leva muito a sério as suas ilustrações, exigindo uma valorização que não é dada quando lhe pedem algo de graça. Hoje em dia, recusa alguns planos de pessoas que acham que isto "não é um trabalho como os outros", que aceitava fazer no início para conhecerem o seu trabalho e divulgar a qualidade que lhe é inerente, mas que agora abdica, por achar que está a denegrir o que faz. É teimosa quanto à mudança de mentalidades, que julga ser absolutamente essencial, mas tem cada vez mais propostas para fazer participações novas, como exposições, ou em jornais ou revistas, entre outros.

São várias as plataformas que tem para difundir as diferentes informações, tentando manter o seu calendário sempre actualizado em todas elas. No blog deixa-se ser mais emotiva, no site tem o seu portefólio, no flickr dirige-se para um público mais virado para a fotografia e para além da ilustração. Também tem uma conta no behance e no tumblr, mas revela que o facebook é bastante importante para si, para as pessoas verem uma parte mais realista e pessoal de si mesma, a personalidade atrás da miserável. Da mesma forma, profissionalmente o facebook permite-lhe ser capaz de dar a cara pelos seus trabalhos, algo que é muito complicado para uma personalidade como a dela, que prefere estar reservada e sozinha, principalmente quando é para desenhar. Admite que é muito daquilo que faz e fica ofendida quando alguém não gosta, tendo a perfeita consciência de que é algo que tem de ultrapassar. Tem também a tese do seu Mestrado em Design Editorial pendente, já que o começou em 2010 com ideias de desenvolver mais a ilustração, mas que manifesta estar parada.


"Não consigo desenhar o que vejo. Só consigo desenhar o que imagino". Aliás, foi uma das coisas que mais a agrediu no 12º ano, quando uma professora a decidiu humilhar em frente aos seus colegas pela sua estranheza quando desenha. Na verdade, é esse o seu maior truque, pois ao representar as suas "coisas distorcidas" tenta aceitar o erro e valorizá-lo, numa investida para que as pessoas gostem dele e, ao mesmo tempo, da sua maneira de ver as coisas.

Miserável de seu nome, a Mariana tem sempre azar com tudo, é desastrada e não tem jeito nem para dançar, mesmo tendo dedicado 10 anos da sua vida ao ballet. É o humor que gosta de usar como a sua primeira pele, e ela é viciante por querer transformar tudo em algo positivo, rodeando toda a gente à sua volta com um sorriso permanente.

3 comentários: