11/06/2013

Remédios Caseiros: o Carl Minnemann


O Carl é a imagem perfeita do que um verdadeiro mentor deve ter: assertivo, mas não austero; simpático, mas sem ser condescendente.

A sua voz profunda dá o mote para a conversa que se revela ser altamente melódica, entre risos e constatações bem interessantes. Com 35 anos, escolheu a música como habitação a tempo inteiro, dedicando-se também ao ensino como forma de se manter financeiramente estável, de sustentar o conforto que gosta e ao qual se habituou. Não vive "à grande", luta simplesmente pelo equilíbrio que aprecia.

Apesar da sua paixão assolapada por vários e distintos instrumentos, foi o contrabaixo que o prendeu. A sua casa sempre foi carregada de música por todos os recantos, já que o seu pai recorria a ela como forma de escape, e apesar nunca se ter profissionalizado, conseguia envolver qualquer um no seu fascínio, nos meandros do blues e do jazz. Ainda que o Carl nunca tivesse sentido a imposição de seguir os seus passos, foi o esquecimento dum amigo baixista do pai que lhe aguçou a curiosidade, e este revelou-se também o primeiro educador, ensinando-lhe as técnicas mais básicas e importantes para começar. Os seus ídolos eram os seus mestres e aprendeu a tocar principalmente com aquilo que ouvia, disciplinando o seu ouvido: "não sabia o que estava a fazer, mas tocava e achava que soava bem."

Depois, sentiu a necessidade do rigor e ingressou no Conservatório para oficializar a sua vontade, tendo 6 anos de aulas de contrabaixo na vertente clássica e com um professor que era severo e exigente, bom para espicaçar o seu rigor na execução e corrigir os detalhes, mas que nunca lhe dava esperança ou dizia que estava correcto, antipático na sua pedagogia.

Finalizado o secundário e sem saber bem para onde seguir, entrou no curso de Estudos Europeus na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, uma formação que tinha um pouco de tudo (Direito, Literatura...) e que acabou pela determinação de não deixar nada a meio, ainda que não tivesse feito nada nessa área. Exactamente no ano em que finalizou este seu percurso, inaugurou a rota pela Escola Superior de Música e Artes do Espectáculo, onde se pormenorizou no jazz que prefere.

Hoje em dia, ensina na Academia Breyner, na Academia Valentim de Carvalho e no Conservatório de Música da Jobra, onde incita os seus alunos a introduzirem-se no jazz, pela sua especificidade e complexidade, tanto teórica como prática, e que dá a possibilidade de os treinar duma forma assertiva. Reflecte que até há uns anos esta escola musical se representava por ir até um bar e ver outros músicos a tocar, uma tradição oral que hoje é muito diferente. Tenta combater os preconceitos que surgem relativamente ao estilo que ensina, defendendo que não se deve apontar dedos ao que não se conhece ou se domina, e busca induzir um hábito musical aos seus alunos, aquele associado ao mecânico que sabe sempre o que falha apenas pelo barulho do carro.

Por outro lado, não gosta de se definir em nenhum estilo, assumindo o risco que se corre quando se quer ser multifacetado, podendo não fazer tão bem tudo aquilo a que se dedica do que aqueles que procuram a exclusividade. Faz uma analogia entre as letras do alfabeto e as notas, dizendo que géneros diferentes são para ser respeitados e separados, e seria injusto da mesma maneira se dissesse que, por reconhecer o alfabeto, era capaz de falar línguas distintas. Aconselha os seus alunos a ouvir muita música e a perceber aspectos mais dinâmicos como o diálogo que existe entre os instrumentos, defendo a aprendizagem através do contacto permanente, do treino pela audição.

Como músico, destaca alguns projectos presentes ou passados que fizeram parte daquilo que é, como Kiko and the Jazz Refugees, Lucía Martinez Quarteto, Little Friend, Paulo Praça, SMaLL Trio, entre muitos outros, incluindo uns que estão em período de incubação. Tem a bravura de se dedicar verdadeiramente a tudo a que se propõe, uma coragem de leão. Revela-se um verdadeiro equilibrista a tentar conjugar todos os seus rumos, tentando maximizar o seu tempo para que tenha espaço para compor, ouvir música e estudar, para além dos ensaios que devem ser mais dirigidos. Confessa que imagina muitas vezes que está a tocar ainda na cama, e que por vezes compõe dessa forma.

Além do contrabaixo, dá uns passos despretensiosos na guitarra, gosta de tocar bateria, saxofone e trompete, e usa o piano para compor, tentando evoluir mais tecnicamente neste último para conseguir representar mais facilmente o que tem na cabeça. Não consegue deixar a sua paixão pelos instrumentos de parte e leva sempre um de férias para sustentar o seu vício físico de tocar:

"Trompete e ukelele cabem sempre na mala."  

Actualmente, está no primeiro ano do Mestrado em Ensino de Música na vertente de Jazz pela Universidade de Aveiro, um curso inovador por só existir a variante clássica até agora, e que lhe limita ainda mais os movimentos actuais, tendo de articular os seus tempos ao segundo. Ainda assim, não se imagina sem estas duas direcções da sua vida, divulgando que adora ser músico, mas também professor, ver a evolução que pode ajudar a provocar.

Todos nós temos aquela pessoa que foi especial para o nosso desenvolvimento, que nos deu o empurrão para o caminho certo e nos indicou o caminho com carisma e determinação. Era aquele amigo dos nossos pais que tanto admirávamos, o professor de português do 10º ano que nos fazia desejar que fôssemos já "grandes" para sermos amigos dele, aquela paixão platónica por ídolos que estão bem perto de nós, que nos são acessíveis e nos quais nos revemos. É assim o Carl: um mestre conselheiro que é vizinho das emoções, o mentor que nos guia no caminho certo, e no qual confiamos sem pestanejar.

Sem comentários:

Enviar um comentário