24/07/2013

Remédios Caseiros: a Andreia Pinto

O sorriso da Andreia condiz com a sua personalidade fresca e cheia de cor.

A sua voz lembra o cuidado duma mãe, sempre preocupada com os seus filhotes. Com 29 anos, as quase 3 décadas fazem-na sentir o peso da responsabilidade e dos sonhos que julgava para si quando era criança: ter filhos e uma família estável, assim como a casa que gostaria. A vida trocou-lhe as voltas, assim como a tantos outros jovens neste país e nesta época conturbada, e hoje dedica-se a outras artes.

Conheci-a no curso de Psicologia, que tirámos juntas no Instituto Superior da Maia. Sempre me chamou a atenção o seu estilo desigual (e que hoje está tão na berra), muito diferente daquele que existia na generalidade das pessoas que frequentavam a nossa faculdade. A Psicologia saltou para o topo dos seus interesses pela ideia lírica que tinha, uma fixação em perceber como as pessoas funcionavam, e, naquela altura, achava que não havia mais nada que quisesse fazer. Ainda assim, o género mais formatado que a sua ciência adoptou, bem como a extensão para os profissionais deste ramo, não fazem sentido para ela, e a desilusão assentou-lhe como uma luva.

Depois do curso, foi ter com uma amiga à Índia, onde passou 2 meses bem recheados. Quando voltou, tinha uma urgência em ganhar dinheiro para o seu sustento e ingressou no telemarketing da ZON, pensando que seria passageiro, só até conseguir algo na sua área. O facto é que acabou por ir ficando, ultrapassando a esperança média de vida de permanência naquele lugar, presentemente já com 5 anos de casa. É o trabalho que lhe custa mais a fazer, mas também é o que lhe paga as contas e a mantém segura.

Em 2008, o desemprego da mãe da Andreia apanhou-a de surpresa numa altura em que os compromissos se acotovelavam e as obrigações monetárias batiam à porta, duma forma inadiável. As duas filhas tinham saído de casa, o marido trabalhava fora e era muito nova para a reforma e velha demais para se empregar. A solução para a mãe de Andreia foi investir nos salgadinhos e sobremesas para as festas com a ajuda da filha mais velha, e foi um pedido especial que fez com que Andreia fizesse o seu primeiro bolo de aniversário. Foi então que nasceu o "Era uma vez um bolo...", a compra dos primeiros materiais e livros, que inicialmente lhe guiavam os passos, e aguçavam a vontade de fazer algo mais com aquela paixão acabada de nascer.

O perfeccionismo da Andreia foi o seu maior aliado, não desistindo enquanto os seus bolos não estivessem como idealizava. Desta maneira, decidiu procurar técnicas para ser mais rápida e eficaz, e encontrou uma formação básica para principiantes na Escola de Hotelaria do Porto. Foi um curso que a deixou um pouco desapontada pela falta de informação e por culpa dela mesma, pois não devia ter escolhido um nível tão básico numa fase em que já conhecia o seu ofício. Mais tarde, e porque a instrução nesta área é bastante cara, conheceu a Istofaz-se (site aqui), uma escola com profissionais excelentes e dedicados, e com quem fez um Master em Cake Design, uma formação intensiva e rica em conhecimentos na sua especialidade, a pasta de açúcar e a modelagem.


Através dos bolos conseguiu um emprego no território da Psicologia, quando uma cliente sua lhe fez a proposta de trabalhar na Escola Profissional da Pedra. Ali aprendeu a ter mais atenção àquilo que vestia e à sua postura, pelo facto de lidar com adolescentes e saber que precisa de criar uma certa distância e lugar de relevância para os jovens. Porém, revela que é o Cake Design que lhe dá mais gozo e que era isso que gostava de fazer mais afincadamente no futuro.

Em Outubro do ano passado, o Piquenique ganhou vida, um projecto de almoços, lanches e alguns jantares (por marcação) na Fundação Escultor José Rodrigues, bem no centro do Porto. Apesar de ser uma ideia sustentada mais pela mãe e irmã, a cozinha serve também para construir as suas delícias e continuar com as vontades iniciais. Além disso, fazem tudo com o carinho caseiro, numa cooperação familiar: nos bolos, a mãe faz as massas e os recheios que são decorados pela Andreia, e fotografados pela irmã. Hoje, já passaram pela televisão e têm artigos no Jornal de Notícias e na Revista Visão, entre outros, ainda que saibam que a página que têm no Facebook é a melhor aliada na divulgação deste trabalho.

Entre muitos risos, ela conta que esta paixão pelos doces pode ter nascido consigo, já que a sua mãe estava a fazer um bolo quando lhe rebentaram as águas, para a Andreia nascer pouco depois. O seu gosto pelas artes e trabalhos manuais sempre esteve presente e muito protuberante, mas decidiu não seguir por este caminho por não querer "ser pintora nem professora". Algures no seu secundário descobriu que era daltónica, através dum exame feito durante uma aula de biologia e isso deixou-a destroçada, pelo seu fascínio pelas cores e pelas suas combinações, e compreendeu que as vê, mas apenas num tom diferente e alterado. Aprendeu a viver com esse factor, referindo que apenas tem dificuldade quando lhe pedem coisas muito específicas nos seus bolos, pedindo ajuda à mãe e irmã.

Minuciosa com os pequenos detalhes, muitas vezes cria discussões por desmanchar algo que aparentemente estava bem a olho nu. Perfeccionista como ela só, a Andreia gosta de alimentar a parte estética e de ser igualmente atenciosa, gentil, terna e doce, como aquelas gulodices que tão bem confecciona. Conheçam-na assim, com o seu sorriso mostrando a sua verdadeira personalidade, o carisma com que veste a sua vida, a alegria das suas cores.

P.S. É muito difícil de traduzir sabores em palavras. Desta forma, convido-vos a irem até ao Piquenique e a experimentarem os encantos da Andreia, a Cake Designer.

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