16/07/2013

Remédios Caseiros: o Rui Batista

A inveja é uma coisa muito feia, ou assim sempre me ensinaram os meus pais. A verdade é que, se há pessoa que invejo no Mundo, essa pessoa é mesmo o Rui.

Desta vez, sou eu que protagonizo o nervosismo, por ir falar com um jornalista, um mestre nas palavras escritas. Eu sei que nada disso é assim. Na realidade, o Rui é das pessoas mais simples e acessíveis que conheço, e isso facilita a naturalidade que a conversa tende a representar.

O Rui nasceu em Fafe, exactamente no mesmo quarto e na mesma cama que a mãe, na casa do seu avô. Era desta maneira que faziam questão na sua altura, há 42 anos atrás. Depois do primeiro ano de vida, que passou pelo Porto, viveu em Guimarães e foi lá que, combatendo a falta de vontade de estudar, ingressou no curso técnico-profissional de Secretariado. Embora fosse bom a Matemática, queria aprender Alemão e Estenografia, mais uma oportunidade de impressionar as miúdas. Não queria ir para o Ensino Superior, mas a curiosidade para experimentar os seus conhecimentos no primeiro ano das Provas Gerais de Acesso ganhou, tendo como resultado a 2ª nota mais alta do concelho de Guimarães e subindo para o topo da tabela na sua escola.

Com a sua capacidade auditiva danificada, tem dificuldade em distinguir ou ouvir alguns sons situados no 3º nível de frequência auditiva e isso justifica a sua distracção ou o facto de não ligar a coisas simples que acontecem à sua volta. Da mesma forma, naquela altura com 18 anos, não gostava de Letras e por isso fugiu para o curso de Línguas e Secretariado do Instituto Superior de Contabilidade e Administração do Porto, cedo percebendo que essa era a cidade que iria escolher como sua.

Finalizado o curso, ficou 1 ano a responder a anúncios para entrevistas de emprego. Revelou-se uma tarefa mais difícil do que o seu currículo previa, pelo interesse que demonstrava nos ofícios mais associativos. Uma vez no ISCAP tinha pertencido à Associação de Estudos, à Comissão de Curso, ao Conselho Directivo como aluno, ao Conselho Pedagógico, à Assembleia de Representantes e ao Grupo de Dança, escapando-se apenas do órgão científico, pois era só para professores. Apesar da experiência e da desenvoltura que sabia ter, admirou-se pela falta de respostas.

Assim, ao final dum ano que sentiu demasiado longo, pegou nas Páginas Amarelas e decidiu procurar sítios onde gostaria de trabalhar. Entre risos, hoje recorda a primeira vez que entrou na Agência Lusa com a sua gravata importante e que todos estranharam, sem saber bem onde estava e candidatando-se a um posto nos serviços administrativos. A sorte operou a seu favor, já que o seu chefe, vendo que tinha no seu currículo que gostava de desporto o convidou para executar tarefas de colaborador como jornalista e assim ficou. Meses mais tarde angariou o projecto de escrever sobre o Futebol Clube do Porto e o Mourinho, e a passagem do tempo só o engrandeceu, sendo o primeiro naquele mundo a ir aos Jogos Olímpicos em Pequim. 

Revela-se um verdadeiro "adorador de donzelas, apreciador de sorrisos e olhares", um sedutor nato. Hoje, ocupa o posto de Jornalista da Agência Lusa, sendo especializado na área do Desporto. Fez este mês 20 anos que ocupa a posição que tanto o orgulha e espera que assim continue, defendendo que a Lusa é a forma de representar o seu país, a informação e divulgação a nível nacional, a voz de zonas mais rurais e do interior, que muitos procuram como refúgio na época de crise que atravessamos. Refere que tem também a sorte de trabalhar com pessoas muito inteligentes e com um excelente sentido de humor, algo que o agrada pela sua atitude inevitavelmente positiva. 

Confessa que passa, como toda a gente, períodos de saturação pelo seu trabalho, mas que tem a vantagem de lidar com temas que o fazem viajar muito, ajudando a passar o ano. Foi assim que descobriu o que realmente gosta de fazer e chega a estar cerca de 12 semanas por ano fora de Portugal, entre férias e labuta, visitando muitos sorrisos e conversas, em sítios em que não há terapias ou preocupações sem sentido, apenas aquilo que realmente importa. Contrariamente àquilo que a maior parte das pessoas pensa, o Rui trabalha muito quando viaja, tendo aqui os serviços mais exaustivos e aproveitando-se das viagens que faz pelo expediente alongando o seu regresso, não gastando muito dinheiro e passeando por outros ambientes. Prescindiu da televisão em casa por achar que adormece pessoas e vontades, que lhes molda o cérebro para coisas que não precisam de verdade.


"Na vida é tudo uma questão de prioridades e de atitude."

Longe vão as palavras quando falo com o Rui. Duma forma muito original, ele consegue transportar-me para todos os sítios que já visitou, que em números isso se traduz para uns muito difusos "oitenta e tais", mas que na realidade se define nuns meros oitenta e dois países. Não gosta de ficar parado num sítio apenas a descansar; sai da rotina, mas prefere sentir-se desafiado. Começou a escrever blogs das suas aventuras depois de um incentivo de um amigo, falando de si mesmo como se estivesse de fora, numa informação não tratada, sem correcção e com erros. É a sua forma de relatar o que se passa, sem preocupações se está bem construído ou repete palavras: está de férias.

Apesar disso, o feedback que teve foi excelente, notando ali uma forma mais fácil de actualizar as pessoas que queriam saber dos seus caminhos, mas também uma lembrança permanente para a sua memória fraca. Mais recentemente, decidiu concentrar toda a informação dos seus vários blogs num único site (aqui), demonstrando a sua forma de ver os sítios, mas também exteriorizando aspectos bastante pessoais, podendo ser apenas através duma frase ou duma música. Além disso, pontualmente escreve crónicas sobre as suas viagens para o P3 (ver último exemplar aqui).

Interpreta o papel de Tesoureiro na Cooperativa Social do Povo Portuense, morada desta nossa conversa e que muito preenche os seus tempos e aspirações. Começou finalmente a escrever histórias para compilar e juntar num livro que pensa editar até ao final do ano, com narrativas dos vários cantos do planeta, em viagem, em fronteiras, mas, principalmente, das pessoas que conheceu e que tanto o inspiraram. Sente o reconhecimento nas coisas sinceras, nos comentários de indivíduos que, assim como eu, conseguem sonhar com aquilo que descreve. O sorriso malandro que ostenta conta o humor que usa como arma, referindo, convicto, que é o indivíduo com maior capacidade de se rir de si mesmo. 

Um dia sabe o que quer fazer: correr o mundo de mochila às costas e continuar a contar histórias, a sua e a dos outros. Não é exigente nem liga a bens materiais. A vida ensinou-o bem. Gostava apenas de passar temporadas em sítios diferentes, sabendo que terá de passar pela sua casa, que considera ser algures na América do Sul, mas não querendo ficar estático apenas num sítio só. Garante que a vida é mais fácil de aguentar e seguir com sonhos, objectivos e metas bem definidas, e sabe que os problemas maiores surgem quando se anda perdido a vaguear, dando desculpas para não arriscar e deixar de tentar.

Para o Rui, o segredo é ser-se pragmático. Só isso pode revelar a importância que damos às coisas e a forma como elas nos afectam. O motivo pelo qual mais o invejo não é por conseguir viajar tanto, mas pela simplicidade com que encara a vida, não perdendo tempo com coisas que não lhe fazem diferença, com a sua cabeça fria e inteligência emocional apurada. É que ele é mesmo assim, simples como as pessoas realmente importantes, não precisando de ilusões para parecer mais do que é. É assim. Simples.

Boa sorte em tudo, meu querido amigo!

16 comentários:

  1. Batista!!!! Conheço-te há tantos anos e não sabia porque eras distraído!! eheheh
    Adorei este post!! Parabéns Raquel pelo texto!O único ser que conheço que realmente nasceu e vive livre! :)


    www.hiimab.com

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    1. Obrigada! :) é o nosso "born freee" de excelência :)

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    2. Helenaaaaaaa... Grazzie pelas tuas simpáticas palavras :) E por saber que me "entendes". Um brinde aos excelentes momentos e o desejo de te ter de volta a Portugal para os celebrarmos! Bjkssssss...

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  2. Adorei o seu post, Raquel! Fiquei comovida, cheia de orgulho e consegui, veja lá!, conhecer melhor o meu sobrinho através dos seu olhos. O Rui é uma pessoa encantadora que merece muito ser feliz! E busca a felicidade, perseguindo os seus sonhos, sendo autêntico e permanecendo fiel à sua essência.
    Parabéns pelo texto!
    Lina

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    1. Muito obrigada! É um prazer escrever sobre pessoas fantásticas :)

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    2. Linaaaa... queres deixar-me "sem jeito"?? lol É por conhecer e ter crescido com gente FANTÁSTICA, culta, evoluída e apaixonada pela vida como tu (e todo o nosso lado familiar transmontano) que aprendi a caminhar, lutar, persistir e a saber o que é realmente importante na vida... Bjks e abraço do tamanho da distância (fisica) que nos separa...

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  3. Interessante como pessoa e gostei do nome também porque será? :)

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  4. Minha cara, não a conheço, mas conheço o Rui, antes disso tudo, o pré-adolescente, a criança, o Ruizinho que andava sempre na ponta dos pés(era engraçado como ele começava a correr e fize-mo-lo muitas vezes em conjunto).
    Lembro-me da infância cheia de tropelias e asneiras feitas em conjunto e uns aos outros e ler o seu blogue (cortesia dum post da irmã do dito)fez-me sentir uma alegria, porque apesar de termos seguido caminhos distintos a nível profissional, tenho a certeza absoluta que a infância feliz e a educação que gentilmente nos foi cedida pelos nossos progenitores gerou seres que no fundo amam as mesmas coisas simples da vida....

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    1. Mário!! Que excelente surpresa :)) Aliás, este trabalho da Raquel, que muito me sensibilizou com o seu "interesse" pela pacata figura, não pára de me "assombrar", pelo alcance o mesmo e os imensos feedback's que tenho recebido (pessoalmente, fb, aqui...). Aqueles temos de infância foram realmente fantásticos, num local com gente tão, tão especial... E tu, Mário, foste um pioneiro quando, aos 18, encheste o peito e foste estudar para a antiga URSS. Foi com as tuas histórias (dos árabes, do amigo do Laos cujo pai criava elefentes, etc...) que comecei a sonhar com o Mundo. Et voilá, quem diria que era aqui que te contava isto :) Espero poder inaugurar uma exposição de texto/Foto/vídeo inicio de agosto no shopping de Guimarães sobre viagem à India e Nepal. Pode ser que seja desta que nos revemos, ao fim de tantos anos. Grande abraço e muito obrigado pelas tuas palavras!

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  5. Como a Raquel retratou bem o nosso globetrotter de serviço!
    Rui, um viajante que, generosamente, partilha suas pequenas grandes histórias, seus encontros inesperados e extraordinários e paisagens deslumbrantes! Por instantes estamos lá com ele, respirando aquele lugar...
    viajar...isso é o que se precisa para uma pessoa se encontrar.

    Obrigada Rui.
    e parabéns Raquel pelo texto fidedigno.

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    1. Obrigada Isabel! É uma honra escrever sobre uma pessoa tão querida :)

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  6. Rui, como eu adorooooo a tua simplicidade! Algures na America Latina, "habemos" de nos cruzar e apreciar a simplicidade ;) Até lá, podemos beber uns Gins ;)

    Parabéns Raquel pela sua descrição, que ao ler, estava sempre de sorriso aberto ;) Só não gostei da parte da palavra que não pronuncio, aquela que é um dos 7 pecados mortais! ;) mas entendo ;)

    A ti Rui, não te dou os parabéns, mas agradeço a Deus por ser uma privilegiada em conhecer pessoas como tu.... ;) Besosss ó distraido lol

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    1. Obrigada Mariana! Este "nosso" Rui é mesmo uma pessoa para nos deleitarmos!...*

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  7. Rui!!!!!
    Que prazer encontrar-te aqui ;-)
    Tanto que eu não sabia de ti!!

    Um abraço apertado
    Rosario (nninoca)

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