07/08/2013

Remédios Caseiros: Ao meu avô poeta

Esta semana os Remédios são um pouco diferentes, mas reflectem os sinais dos últimos tempos, que me tenho dedicado tanto à escrita.

Este mês decidi também aderir a um convite feito pela minha amiga Inês (ver o remédio dela aqui), que me incitou a que escrevesse uma história diferente todos os dias de Agosto. Não tem sido fácil, mas ando mesmo a tentar escrever todos os dias, o que se tem revelado um regime de remédio caseiro para mim. Assim, e como acho que as saudades não são sempre tristes, deixo-vos com um texto que escrevi neste Agosto tão produtivo:

"Lembro-me sempre de ti no meu dia de anos. Gostava de poder voltar atrás para acordar com o carteiro a entregar-me o teu telegrama:

Parabéns querida neta
Vejo-te logo à noite no sítio de sempre
Beijos do avô poeta
Renato

Naqueles tempos, já os telegramas não eram muito habituais, mas tinha a plena consciência que fazias questão que assim fosse. Começava o dia a sentir-me especial e passava as horas a saber-me ainda mais única. Lentamente corria a preparação para o nosso encontro especial, o jantar no topo do Porto, a olhar para tudo e todos. Levavas-me sempre ao mesmo restaurante, ainda que as finanças não te fossem facilitadas, e lá todos te cumprimentavam e serviam com distinção, algo a que estavas habituado.

Eu sei que as pessoas não te tinham num sítio bonito. Sei igualmente que eras conhecido pelas coisas menos boas que te definiam enquanto marido e pai ausente. Eras boémio, gostavas da vida da noite e dominavas o mundo das casas de fado, onde te perdias durante longas horas. Ainda hoje encontramos pessoas que nos contam desse teu passado e como eras o centro dos acontecimentos, das risadas, das cantorias e das boas conversas, mesmo que isso te afastasse permanentemente da vida dos teus seis filhos. Sei que foste o motivo de grandes rancores, mas também de grandes paixões, como só tu eras capaz de provocar com a tua malandrice à flor da pele.

Mas comigo não era bem assim. Eu era a tua neta mais velha e durante muitos anos percebia essa singularidade. Quando te apercebeste que, assim como tu, eu também escrevia, fizeste questão de me mimar e incutir esses gostos felizes. Todos os anos um autor novo, um livro de sonetos, uma leitura obrigatória. E o nosso jantar, onde me sentia tão especial com o meu vestido particularmente escolhido, lá em cima nos céus. 

Sempre te vi como um visionário, um trovador de sonhos, e, como todos os poetas verdadeiros, nasceste para uma vida solitária. Não sei se te querias redimir, mas a verdade é que sempre fui muito mimada e quase não podia imaginar que eras a mesma pessoa que me falavam. Eras o meu avô querido, aquele que me inspirava a investir na imaginação e roubava sempre o meu melhor sorriso, o incomparável e só guardado para nós. Comigo, lutavas para contrariar a tua tendência de retiro e tentavas ser o meu exemplo, transmitir-me a tua arte, com o carinho que só um avô sabe ter. Comigo, eras uma pessoa melhor do que os outros pensavam ou contavam, eras o incentivo para melhorar e ser cada vez mais sensata. Deixavas as tuas histórias à porta e eras só o meu avô.

Obrigada. Saudades."

7 comentários:

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    1. Obrigada mami!! Prometo que vou pôr mais coisas em breve, não só sobre a família :)

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  2. Que presente meu amor lindo. Sim este é o meu pai e teu avô que também aprendi a respeitar na sua singularidade. Depois disto de certeza há poema novo no cosmos... Beijos filha linda

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    1. Obrigada papá! Sei que ele também sorri algures*

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  3. Engraçado como por um ponto, passam infinitas linhas... Escreves muito bem minha querida sobrinha!

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    1. Obrigada tio querido! Fui herdar isto do nosso lado*

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  4. Muito bom, "Habemmus Escritora" continua pois escreves na perfeição Mil Beijocas
    do Padrinho.

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