28/08/2013

Remédios Caseiros: a Aurea Praga

A calma que a Aurea reflecte com as suas palavras confunde-me estes dias de Verão. É que evoca mesmo um final de tarde no Inverno, em que escolhemos ler o nosso livro favorito e vamos até um lugar confortável, com os sentimentos à flor da pele.

O seu primeiro nome foi herdado da avó Aurea, embora confesse que tem "uma história demasiado grande para contar" através da escolha do apelido Praga. Ainda se está a adaptar aos seus recentes 40 anos, que sabe ser um posto diferente do que era em momentos passados, ter que ter uma casa própria e a sua vida mais definida e estabilizada. Mesmo assim, refere não sentir muito a idade, já que o tempo foi gentil para ela.

Nasceu no Funchal, Madeira, viveu até aos 6 anos no Rio de Janeiro, Brasil, voltando depois para a Madeira, e mais tarde, com 12 anos, foi para Viseu. Todas estas mudanças facilitaram-lhe as adaptações e afastaram o medo de perder as referências, apesar de ter perdido os amigos e as raízes, um sítio para onde voltar. Com 18 anos, elegeu o Porto como a sua cidade e é aqui que vive desde então, ainda que considere que o Mundo é a sua casa. Aprendeu a ligar-se às pessoas mais do que aos lugares e a sua família continua muito unida, mesmo que distante, e memorizou o caminho de volta para casa do pai, seja onde ele estiver. Contudo, compreendeu que em cada sítio diferente tinha a oportunidade de construir tudo de novo, e as circunstâncias tenras exigiam uma pessoa nova:

"Podes ser quem tu quiseres."

Com 18 anos, queria apenas sair de Viseu, experimentar ir para a faculdade longe de casa, gerir o seu rumo sem a ajuda dos pais. Com boas notas a tudo, podia ter ido para Medicina ou Direito como muitas pessoas quiseram propor, mas a sua paixão pelo desenho levou-a a escolher a Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, e o curso de Design de Comunicação por ser mais prático do que Pintura/Escultura, que lhe parecia demasiado vago. Descobriu, então, um gosto especial pela fotografia, principalmente a parte mais analógica de revelação e impressão, que aprendeu naqueles anos de estudo.

Trabalhou ainda durante uns anos como designer, mas o condicionamento às vontades dos clientes foi o que mais a desiludiu e chateou, desejando sempre uma actividade mais livre. Começou a dar aulas de desenho na Universidade do Autodidacta e Terceira Idade do Porto, ofício que mantém na actualidade e que lhe dá o espaço necessário para se dedicar a outros movimentos. Naquela altura, estava cansada do que tinha no Design de Comunicação e achava que não era bem aquilo que queria fazer, precisando de outras motivações. 

A ideia da Joalharia surgiu através dumas ilustrações que fez para a Conferência de Saramago, organizada por uma amiga, em que essas aguarelas recordavam uma peça em esmalte e lhe deu a vontade necessária para a elaborar. Declara também que esse conceito já andava a bailar na sua cabeça, quase sem dar conta e, de repente, fazia todo o sentido e todo a sua estrada a indicava para aquele lugar. Iniciou a sua busca por escolas, sediando-se na Engenho & Arte, com o objectivo de ver se as ideias eclodiam e se os materiais a chamavam. Num instante percebeu que o seu gosto estava naquele mundo, e passou para a Cindor, numa vertente mais técnica e específica para as suas demandas.

A sua loja no site Etsy apareceu como um teste numas férias, pois queria ocupar-se nesta área de verdade. Desta forma, leu bastante sobre vendas online e criou também o seu blog, dois meios de experimentação pura, onde consegue perceber a satisfação de quem a visita. Foi assim que começou a crescer e a perdurar na sua arte. A teoria impunha-se e, assim, ingressou numa Pós-Graduação de Design de Joalharia na Escola Superior de Artes e Design, onde se dedicou e aproveitou ao máximo no seu investimento. O facto de ser mais velha ajudou-a a valorizar a experiência e os entendimentos que conseguia obter, e seguiu no Mestrado nessa área para complementar a informação que agora era sua.

Como inspiração familiar, lembra a sua mãe que gostava de desenhar, mas que o apetite dos outros tempos não a deixou permanecer. Gosta de usar as suas ilustrações como insinuações propícias para elaborar as suas peças de joalharia, focando-se no conteúdo semântico de cada uma delas, na narrativa que contam e não só na parte visual. Deste modo, orienta-se pelas formas, cores e texturas, mas também temas e ambientes na interpretação das suas ilustrações, referindo que conta as suas histórias, o que acontece até chegar àquela peça e o que cada uma tem por trás de si mesma. Reconhece também que tudo o que a rodeia a sugestiona, seja um bom livro ou uma música, um filme ou uma pessoa próxima.

Os pais ensinaram-na desde cedo a pensar por ela, com a disciplina e a estrutura que glorifica, apesar de admitir ser um pouco caótica no seu trabalho. Revela que o seu maior prazer secreto é ler, facto que faz muito e duma forma diletante, tirando-a da realidade e acalmando-a. Com o passar dos momentos, a Aurea foi percebendo a grande importância da autenticidade e genuinidade, defendendo que o ponto de vista da própria pessoa é a melhor coisa que se pode ter, não só mostrando o que existe, mas como se vê aquilo que existe. Confia que nunca é tarde para seguir um novo caminho e quando acredita numa coisa, ninguém é capaz de lhe mover as ideias, ainda que admire conhecer pessoas que lhe façam perder os preconceitos que adquiriu com a vida. 

A Aurea abriga com cuidado e distinção a parte pessoal da sua parte profissional, mas é sincera, doce, emocional e amorosa com os seus amigos do coração. Hoje, integra também 1 das 4 partes da Cru, uma loja e espaço de cowork para gente criativa, onde tem o seu local de venda física. Para o futuro, espera contar apenas com a sua produção de joalharia, continuando a ser apaixonada por aquilo que faz, a emocionar-se com cada peça, vivendo-a com a intensidade que demonstra.

Com tudo isto, a Aurea faz lembrar o conforto do lar, aquela comida especial que a nossa mãe faz e que só nos lembra a intimidade sentimental e nostálgica, mas que sabe tão bem. É que não há nada que um bom aconchego não cure e que um agasalho não faça sentir bem, como um verdadeiro bálsamo para os dias menos bons, um consolo como forma especial de se ser feliz.

P.S. Vejam e concorram ao fantástico Giveaway que a Aurea está a fazer no seu blog (aqui) e na sua página do facebook (aqui), até ao final desta semana. Vale mesmo a pena!

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