30/09/2013

A Música: Changes

Aviso: este post é um desabafo


Ufff. Odeio justificações. Ou antes, odeio ter de me justificar.

Todos nós temos aquelas pessoas que nos sujeitam a ataques de desculpas, esclarecimentos e afins, que, na maior parte das vezes, nos fazem até duvidar de nós próprios. Principalmente quem lida com as áreas mais artísticas, por fazer algo que é "diferente", fora do que é costume. Temos sempre uma avó preocupada, um tio que não entende o que fazemos, uma madrinha que condena o caminho que escolhemos para nós. E passamos a vida inteira a tentar explicar os detalhes e a valorizar algo que eles não dão valor. Nenhum. Provavelmente nem nunca vão dar.

É certo que não optei pela estrada mais fácil, mas antes por uma cheia de atalhos e carregada de obstáculos, buracos e desafios. A verdade é que andei anos a obedecer às regras e normais sociais todas, e fiz o caminho dito "normal": tirei o curso em Psicologia, fui até ao fim, tirei uma Pós-Graduação e faz em Dezembro 6 anos que não parei de lutar. Percebi com o tempo que tudo isto é injusto, já que não tenho trabalho se não for "conhecida", e só serei "conhecida" se trabalhar. Com 30 anos, vejo-me num lugar que nunca pensei estar, desempregada e sem espaço para fazer aquilo para o qual me formei. E sei que sou só mais uma.

Se estou feliz com este facto? Nem por isso. Eu não segui a Psicologia porque me obrigaram, mas porque queria mesmo ser psicóloga. Queria trabalhar com crianças e com as artes como terapias. Queria e ainda quero! Mas as conjunturas fizeram-se sentir e nunca encontrei a minha parte. Nem a trabalhar com outros, nem por mim mesma, em vários sítios diferentes. Sim, tive e continuo a ter muitas facilidades. O meu pai tem um consultório com a porta aberta para quando eu quiser, mas a questão não é mesmo querer, é poder. Mais uma vez, ninguém me "conhece" e são poucos os que me procuram.


Depois de muitas desilusões, criei este blog, e com ele aprendi muitas outras coisas diferentes. Nestes últimos meses tenho percebido muitas outras partes de mim, que me preenchem tanto ou mais que a Psicologia. Escrever tem sido uma verdadeira terapia para mim, e ver que as pessoas gostam daquilo que escrevo tem sido ainda melhor. Mais do que uma vertente criativa e artística que sinto necessidade de estar constantemente a justificar, aqui tenho-me sentido útil e feliz, pela primeira vez em muito tempo. E não seria esse o objectivo esperado? Mesmo que as perspectivas não sejam muito boas para o futuro?

Novamente, insisto em discordar. Actualmente conheço muito poucas pessoas que consigam olhar para o futuro com esperança. É o país, é a política, a austeridade, a crise, os trabalhos mal pagos e a instabilidade em cada passo. Se tivesse um emprego seguro daqueles para a vida (que penso já não existirem), talvez estivesse no mesmo barco. Hoje, escrevo num blog (para muitos sem qualquer sentido) e tenho muitos projectos, mesmo com pouco dinheiro. Tento não pensar muito no futuro para não viver com a negatividade, e viver mais o prazer que me dá escrever. Apenas escrever. Tento ser positiva e agradecer aquilo que tenho, que tenho a certeza que é muito.

Por tudo isto, sei que quem me quer bem fica preocupado. Sei disso e estou atenta, mas gostava que se tranquilizassem um pouco. Entendam que esta opção não é só de coração, mas da razão, daquilo que sei que é possível. Não pus de lado a Psicologia, mas quero dar uma oportunidade àquilo que está à minha frente, a chamar por mim com todas as suas forças. Acreditem naquilo que sou capaz de alcançar e de vencer, pois eu confio em mim mesma. De olhos fechados. 



Changes, lá vem meu trêm
Vem meu trêm
Sei que tá na hora e eu vou me dar bem
Sempre em frente, nunca pra trás

Agora, deixem-me respirar, por favor. Não me obriguem a estar sempre a justificar-me, que é coisa que não gosto mesmo nada.

11 comentários:

  1. Olá Raquel.
    Já há algum tempo que sigo aquilo que vais colocando via FB.
    Na sexta-feira coloquei tb um post, que de alguma forma acaba por se tocar com este teu.
    Somos tantos não é, estranhamente a viver realidades tão parecidas.
    É seguir não é? A acreditar e desesperar e acreditar logo a seguir.
    um abraço
    Ana

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  2. Somos mais que muitos e querem-nos por em caixinhas. Não entendem o que fazemos, para que servimos e se não temos um rótulo como é que nos vão encaixar à sua volta?
    Não temos um emprego das nove às cinco nem um destino mas que se somos felizes pelo caminho? Lá isso somos. <3

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  3. Ana: é mesmo seguir e esperar que, um dia, a coisa se componha para aqueles que vivem tão perto de nós, para que acreditem em nós também. Um abraço apertado e vai continuando a acreditar :) E a aparecer, que assim sinto-me mais do que só eu*

    Fred, meu querido e grande senhor: obrigada* não há rótulos que definam a ajuda que me tens dado todos os dias para acreditar mais em mim*

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  4. Acho que fazes muito bem :) às vezes queria ter força suficiente para deixar aquilo que não me faz sentir bem e não ter que me preocupar com justificações... apesar de exercer a minha profissão, não gosto do sítio onde a exerço, mas isto está mau e tal, e coiso...e ando assim, a arrastar-me...à espera que as mudanças surjam, enfim! Desculpa o desabafo ;) boa sorte para ti e faz aquilo que te deixa mais feliz!

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  5. Ju, os desabafos são mesmo para sair, senão ficam só a abafar ;) Obrigada pela força e cá estaremos para os próximos capítulos!

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  6. Joana Chimpa disse... (n queria ser apenas anónimo)

    Bons olhos te sintam, amiga! Deixo-te um mimo com iluminação, para iluminar o teu caminho! Força e simplesmente deixa fluir!
    É importante as pessoas deixarem de interferir, julgar, and so on!Mas também é essencial não lhes permitirmos essa interferência! Se assim for (e sim, é um processo difícil) tudo voltará ao seu lugar.
    Tenho esclarecido algumas inquietações através de livros de um colega teu (sim, o senhor é psicólogo) o Dr. Wayne W. Dyer! Apenas uma sugestão pela paz!

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  7. Minha Chimpinha maravilhosa! Por cá não há inquietações, apenas felicidade em seguir os passos certos na altura certa :) Obrigada pela força e vai aparecendo mais*

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  8. Minha querida ... viva à gente sem rótulos, fora das caixas, que não tem medo de arriscar e que, acima de tudo, transborda criatividade e originalidade!! É o que precisamos, o que o país precisa... gente que consiga olhar sobre perspectivas diferentes para o mundo, gente capaz de criar soluções alternativas... gente que não viva escrava de normas e que envelheça cheia de histórias e desafios ultrapassados :)

    Um abraço da
    Joana Pereira

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  9. Obrigada Joaninha querida! :) Um viva para nós, então! :)

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  10. Boas, Raquel.
    Admiro a forma verdadeira e sem pretensões como venho vendo que escreve.
    Conseguiu, pela sua vivência, descrever muitos de nós que, nada alheios aos sentimentos de quem nos segue, fugimos, por ventura, aos caminhos fidelizados pelos outros.
    Não conheço definição irrefutável para viver, contudo, viver exige escolhas felizes. Agradáveis para nós, serão, decerto, a escolha certa. Mesmo quando não escolhemos.

    Continuação de bons projectos.

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  11. Boa tarde! :)
    Obrigada pelo interesse e pelas palavras sinceras e tão bem descritas. Por cá vamos andando e esperando que as "escolhas" sejam as melhores.
    Até breve!

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