11/09/2013

Remédios Caseiros: o Rui Duarte

A vida tem a capacidade engraçada de nos pôr no caminho as pessoas certeiras, mesmo na altura exacta. É o caso do Rui, o menino grande.

Nascido e criado no Porto, foi sempre por estas bandas que trabalhou. É o filho mais velho do mais velho dos filhos e, por isso, teve a oportunidade de conviver com os tios mais novos e persistir a vontade de ser sempre criança, sendo um perfeito adepto da saudável Síndrome de Peter Pan. Assim, revela-se um "idiota com quase 40 anos" e, apesar de ainda estar nos 36, sabe que assim será para sempre, com a alma de garoto.

A Psicologia que lhe ocorreu foi um "acontecimento mal programado", já que a sua opção seguia pelo acesso dos seus tios enfermeiros. Achava-se um indivíduo sem hábitos e, por isso, a ideia do trabalho em turnos e da lida diária com pessoas muito distintas era algo que o atraía profundamente. Inscreveu-se, então, em Enfermagem, em Técnico de Radiologia, e a Psicologia foi uma opção sem pensar muito. Hoje, declara que as coisas que lhe acontecem na vida raramente são objecto de grande programação, e foi um acaso que o levou a fazer o curso superior de Psicologia no Instituto Superior da Maia. Com o tempo, começou a achar piada a estes temas e confessa mesmo que tem um certo jeito para determinados assuntos na sua área.


O Rui não recusa os episódios que lhe sugerem e arregaça as mangas face aos obstáculos e desafios. Gosta de conhecer pessoas e experimentar coisas diferentes e refere que, se isso correr mal, tem sempre o benefício de aprender com a experiência. Assim, decidiu ir para a Universidade de Lyon tirar um mestrado em Psicopatologia e Psicologia Clínica, num dos últimos bastiões europeus da Psicanálise e sem saber muito de francês. Para ele, nunca foi um obstáculo, mas sim um repto, uma provocação para que conseguisse, algo que acabou por conquistar.

Depois, foi trabalhar para um gabinete de apoio psicopedagógico até ele falir e no seu percurso profissional fez coisas tão variadas como pertencer durante 2 anos à direcção do Sindicato Nacional dos Psicólogos, cargo que lhe causava alguma atribulação principalmente consigo mesmo, já que é algo "adverso a politiquices". Actualmente, é coordenador técnico há 12 anos da Associação Portuguesa de Pais e Amigos do Cidadão Deficiente Mental do Porto, fazendo a gestão duma equipa multidisciplinar, concorrendo sempre com outros interesses, motivo pelo qual acha que continua nessa instituição. Neste momento, a Associação é mais pequena do que noutros tempos, tanto nas instalações como relativamente a recursos, reflexo da situação do país em que vivemos. Ainda assim, a evolução é notória até a nível de terminologia, visto que hoje em dia já não se fala em deficiência mental, mas intelectual, mudando a visão basilar dos intervenientes nestes campos.

A Psicologia Clínica está na sua eleição, sem sombra de dúvida, e especificou-se na área das deficiências, numa exigência constante que lhe transmite algum cansaço, pela presença mental e emocional que necessita de ter. Lida dia após dia com questões complicadas como a dificuldade, a pobreza, a doença e a deficiência, assuntos que o obrigaram a parar e pensar conscientemente na realidade que o rodeia.


Conta ainda que, com uma profissão directamente ligada ao trabalho com pessoas e com o seu âmago, acaba por ter de fazer uma colagem emocional e uma adaptação ao indivíduo à sua frente, mas também uma tarefa de empreendimento das próprias emoções, sentimentos e até cognições. Não sente ser uma personagem, embora tivesse de criar esse alguém quando começou a trabalhar, sendo agora uma parte da sua personalidade. Desta forma, é mais difícil de dissociar o Rui psicólogo do Rui no âmbito pessoal e social, e a profissão da particularidade ou daquilo que lhe é exclusivo e restrito. Da mesma maneira, tem aquela característica especial de perceber as pessoas, sendo bastante solicitado pela família e amigos como elemento mediador, porto seguro de partilhas e desgostos. É o defeito da sua profissão.

Os seus interesses estão em mutação eterna, pois quer conhecer tudo ao mesmo tempo, tendo sempre uma imensidão de coisas para fazer. Vive intensamente as suas relações e tem sorte de amar a sua melhor amiga, facilitando a partilha de disposições e entusiasmo. O seu hobby principal é andar de mota, pela liberdade associada, mas também gosta da sua banda desenhada, de escrever para alguns blogs e de dar formação. Tem dois filhos, um com 7 e outro com 15, que lhe ocupam muito tempo, mas que preenchem também grande parte do seu coração.


Os valores que defende não são únicos, mas a constelação de todos eles torna-o singular e individualizado. Preserva com segurança a honestidade pela qual se gosta de reger, característica que agarra acima de tudo. Depois, resguarda a fidelidade, a amizade, a partilha e a sua solidariedade, que às vezes é um pouco mal interpretada por não ser tão generalizada, mas sempre com conhecimento de causa. Não acredita em política, acredita em pessoas, respeitando e apreciando a individualidade de cada um, e dando-se bem com qualquer tipo de indivíduos, do mais rico ao mais pobre. Por fim, concentra-se especialmente na relação com a mulher que ama e no elo desta com os seus filhos, algo que ainda está em desenvolvimento, mas que lhe dá muito orgulho, assistindo com prazer ao estreitamento de laços e estabelecimento de ligações, à estruturação da sua família.

Por tudo isto e mais alguns segredos, o Rui é um Homem com H maiúsculo, com sonhos de grande e uma alma de miúdo. É isso que nos torna tão similares, pela facilidade com que consegue ser simples e pela honestidade que carrega no que pratica e é. O Rui tem ainda uma característica muito própria e que o torna ainda mais especial de encontrar no caminho: remata a vida com o Amor que aprendeu e é grato por cada momento que vive, nessa maneira genuína de ser.

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