08/10/2013

Eunice (pt.II)


(fotografia de Eduarda Pinto)

Apenas uns meses depois de terem chegado e precisamente na mesma altura em que Olímpia partiu para estudar num colégio interno e religioso, Eunice foi prometida para casar com Júlio pelos tios, que julgavam ser a salvação para a fortuna familiar.

Ele era o filho pródigo e aquele que iria receber todos os valores do testamento da família Morais, a mais conhecida e conceituada naquelas bandas, pelo alto espólio que garantiam. Para Eunice, Júlio nem sabia articular bem as palavras e, ao contrário dela, falava baixo e retraía-se perante tanta expansão por parte dela. Além disso, era nove anos mais velho do que ela e tinha outros interesses que envolviam a agricultura e as experimentações com as sementes, o cuidar das suas abelhas para que continuasse a fazer o melhor mel da região. Sempre que se lembra dele, é como aquele rapaz alto, com o cabelo espigado e parco, os olhos fundos e o nariz vincado, com a expressão de susto no rosto, que a intrigava profundamente. Júlio aplicava-se noutras coisas, mas nunca deixava de sentir um enorme amor por ela, que sabia não ser correspondido.

Por outro lado, Eunice tinha herdado as cores e sabores garridos, próprios da cultura apimentada. Ria-se muito, e sempre muito alto. Tinha prazer em ser espalhafatosa e muito vaidosa, ainda que não pensasse muito nas atenções que atraía. Deixava-se ser e sentir com a naturalidade que cuidava. Não tinha amigos naquelas paragens, pois todos a achavam demais. Era até um pouco egoísta com as suas ambições, maiores do que o seu corpo, a sua família e o sítio onde habitava. A Ti Isabel achava que ela era apenas uma garota mimada, cheia de vícios, manias e de “não me toques”, e que tinha de aprender a ser uma mulher, a assumir aquilo que os seus pais tinham pensado para ela. Devia seguir o que era suposto e que era apenas para o seu bem, para uma segurança que achava determinantemente necessária.

Casou-se num daqueles dias em que o calor aperta a pele, em que o vento simplesmente não passa. Tinha dezoito anos e muitos quereres para si. Reconhecia um amargo de cicuta na boca e sabia ser um momento decisivo para o futuro que tinha imaginado, os seus sonhos definitivamente envenenados. Sentia o relógio a bater nos segundos vagarosos, como se o tempo não acontecesse. Queria desatar a correr como as heroínas dos livros de amor que lia às escondidas, mas o dever de obedecer e acompanhar os desejos dos seus pais mantinha-se com um peso inevitável, como pregos a prenderem-na naquela igreja. Da mesma forma, das poucas vezes que captou os olhos de Júlio percebeu que lhe tinha de dar uma chance, uma hipótese para que ele pudesse convencê-la a sentir algo diferente por ele e a ser feliz, mesmo que conformada. Teve pena dele.

A primeira noite de ambos não aconteceu depois do casamento, mas sim só uns meses depois, em que Eunice deixou finalmente que Júlio pacientemente lhe tocasse onde ele desejava. Desde que se mudou para aquela casa que construiu o seu cantinho especial no quarto de hóspedes, que tinha os seus livros e anseios guardados, assim como a cama onde dormia todas as noites, separada do seu marido. Tinha também uma janela que estava sempre aberta à noite, para que pudesse falar com a lua e as estrelas, as suas melhores amigas e conselheiras. A sentença ocorreu durante um jantar, rigorosamente oito meses e vinte e três dias depois de se terem casado, que Eunice decidiu ceder aos gestos calados de súplica de Júlio, um homem paciente como muitos poucos teriam sido na sua situação. Eunice comunicou-lhe que naquela noite, exatamente às nove horas e quinze minutos, estaria disponível para o receber na sua cama, com a condição de ser com as luzes apagadas e a janela fechada, para que não houvesse qualquer testemunha. Conseguia perceber o carinho nos jeitos do seu amante, a vontade para que também estivesse a realizar excitações secretas, a respiração ofegante e o crescente peso que o seu corpo deixava contra o seu. Foi ali que Júlio ganhou as rédeas do seu lugar de homem e marido, tomando o controlo do corpo da sua Eunice, daquela que erroneamente pensava que iria ser sempre sua. Depois do momento de êxtase, só a compaixão que sentia por aquele homem que estava deitado a seu lado é que podia suportar a impressão de submissão que Eunice ouvia gritar na sua alma, e esperou apenas ouvir a respiração pesada de Júlio para se escapar do quarto e fechar-se num banho que durou até de manhã.

6 comentários:

  1. Mantêm-se a elegância e a descrição certas.
    É agradável poder ler e deixar-nos ir pelas palavras e projectar a história.
    Hoje, ler-se sobre outros tempos, tem um fascínio que cativa.
    :)

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  2. A mim fez-me lindamente pensar nesses tempos dos meus bisavós, ainda que as lágrimas saíssem às largas quando pensava na dor que ambos sentiam.
    Obrigada pela força!*

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  3. Tinha de haver Morais ao barulho, pronto! ;)

    Volto a referir que as tuas descrições, ora mais especificas ora mais gerais, são simplesmente deliciosas.

    Estou a gostar da Eunice, gosto pois!

    ...com licença...part III
    *

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