09/10/2013

Eunice (pt.III)



(fotografia de Eduarda Pinto)

Eunice tinha vinte anos quando nasceu Afonso, o primeiro filho.

Nunca sentiu aquela enorme vontade para ser mãe, mas apaixonou-se logo quando o ouviu chorar pela primeira vez. Afonso não era um bebé particularmente bonito, mas, para ela, era o mais perfeito que já tinha visto e dedicava-lhe todo o seu tempo e amor. Júlio viu ali nascer a mãe que sempre quis para os seus filhos e, longe de ter ciúmes do seu filho, cada vez amava mais aquela mulher, consentindo alguns sorrisos mais inesperados e que muito surpreendiam Eunice. Também por isso, Eunice começou a aceitar Júlio na sua cama com mais frequência e, em dois anos, estava grávida novamente.

Ao contrário do irmão, Teresa nasceu com uma saúde e vontade de viver duma leoa, contendo todas as vontades da mãe, a persistência e a teimosia nos gestos. Afonso era frágil e débil, sempre com um olhar perdido ou longínquo, triste e distante, alegrando-se apenas quando Eunice o abraçava, com a devoção e o cuidado que só uma mãe sabe ter. Teresa era mais desligada desses amores, sendo mais prática e despachada, e tendo uma curiosidade imensa pelas coisas que o pai fazia, seguindo-o quando ele não via até ao andar de cima, para o ouvir a falar com as suas abelhas. Talvez por essa razão, Eunice não se sentiu tão necessária na educação da sua filha, sabendo que ela conseguiria atingir os seus objetivos sozinha e continuando a aplicar todo o seu melhor tempo a Afonso.

Ainda que o quisesse negar a pessoas da família, nomeadamente à sua irmã Olímpia que dizia que Afonso estava possuído por algum espírito maligno, Eunice sabia que o seu filho não era normal. Era um rapaz quieto e sombrio, que se isolava no seu mundo de personagens estranhos e imaginários, em que todos o vigiavam e guiavam. Naquela altura, ninguém sabia o que ele tinha, se era uma doença ou condição para a vida, se tomava qualquer coisa ou se passava com o tempo. Para todos, ele era um “menino da mamã”, mimado e sensível, um esquisito, principalmente para a gente da aldeia. O facto é que a sua personalidade se ia agravando com os anos, até que Eunice se apercebeu que com seis anos já ele tinha alucinações com coisas que via ou ouvia. Observava-o com o coração nas mãos, enquanto ele falava sozinho com os seus amigos invisíveis, que tinham ideias absurdas e opiniões obscuras, e que eram a razão para se tornar agressivo ou hostil quando algo não lhe agradava. Com um olhar atento, e preocupada com o seu futuro naquele lugar ermo e solitário, implorava a Júlio para que se saíssem dali, com vista numa melhor resolução para Afonso, ou pelo menos assim pensava. Júlio fechava-se cada vez mais na sua concha, remetendo-se ao silêncio que tanto havia reclamado para si, sofrendo uma dor calada por nunca se esquecer que era isso que mais o afastava da sua estimada Eunice.

Tudo aconteceu numa quinta-feira dita normal, em que Júlio costumava ir até à feira de Albergaria vender o seu tão reconhecido mel, na companhia da filha conversadora Teresa que com doze anos ainda se entretinha a descobrir aquele seu pai tão carinhoso, através das mil perguntas que fazia sobre a família distante e a mais próxima, sobre as viagens que tinha feito e os planos que tinha para a sua sorte. Estávamos no final do mês de Junho, a entrar num Verão pouco quente, num dia que nada fazia prever a fatalidade. Eunice tinha ido aos correios mandar uma encomenda para a irmã Olímpia que não vivia sem as cartas e os desenhos dos seus sobrinhos, e demorou-se mais do que pensava por causa da Ti Arminda, que gostava muito de falar sobre as maldades da vida. Eram onze horas e dezasseis minutos quando sentiu um arrepio frio na espinha, como um prenúncio que algo que irremediavelmente atroz tinha acontecido. Correu mais do que as suas pernas alguma vez tinham suportado, com o vento a romper-lhe os cabelos longos e as lágrimas a deslizarem pelo rosto recortado pelo horror, numa distância que lhe pareceu interminável até chegar a casa e se deparar com o inevitável: o seu filho estava morto, preso no candeeiro do teto da sala por um lençol atado ao pescoço.

Surpreendentemente, Eunice não chorou. Teve a coragem para tirar o seu filho daquela posição ingrata e de o lavar, vestir e colocar apresentável. Depois, sentou-se à porta de casa durante três horas e quarenta e sete minutos à espera de Júlio, para lhe contar o que se tinha sucedido, duma forma tranquila e concisa, sem reparar que Teresa corria desvairada para se certificar que a sua mãe falava a sério. Júlio perdeu o controlo dos seus olhos e libertou a amargura que sentia, enquanto Teresa o abraçava lacrimosa e surpreendida pela compostura que a situação exibia. Por sua vez, Eunice vestiu o primeiro vestido preto que alguma vez usou, ficando em silêncio durante uns longos e pesarosos trinta e quatro dias.

7 comentários:

  1. agora é que reparei, a imagem está brutal!

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  2. A história é forte, mas prometo que vai valer a pena cada palavra, Ju!
    Quanto à imagem, é da querida Eduarda para uma outra intenção, mas até parece que foi pensada de propósito ;)

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  3. Comecei a sentir arrepios logo ao princípio, e...
    ai... :'|

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  4. Cada parte que vou lendo, vou assistindo à sustentação da história. A imaginação e os pormenores levam-nos a querer saber mais.
    :)

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