10/10/2013

Eunice (pt.IV)


(fotografia de Eduarda Pinto)

A vida foi-se compondo lenta e pausadamente, um pé de cada vez.

O mundo foi voltando às suas obrigações e Eunice apenas se reservou ao direito de se manter calada durante aquele tempo de luto. Excluiu todas as opiniões que diziam que devia ir ao médico, que não era normal não falar, que não devia afastar assim a sua família da morte prematura, mas o facto acabou por ganhar a posição de mito. O nome de Afonso foi sendo apagado com os tempos, como uma história com laivos de imaginação e que nunca tinha acontecido a não ser nas suas mais secretas fantasias. Aprendeu a negá-lo, usando o preto como a sua cor de eleição, como se vivesse com a dor do lado de fora do corpo. As visitas de Júlio ao seu quarto foram terminantemente proibidas, assim como os olhares de luxúria contida que por vezes sentia por parte dele, e que penalizava com um gelo enorme nas palavras, fazendo-o sentir-se um pervertido que não tinha conserto. 

Eunice foi deixando cair mais o seu olhar para a sua filha Teresa, cada vez mais parecida consigo. Aos poucos, foi admitindo sorrisos quando via os pequenos caprichos de Teresa, para quem desejava que cumprisse tudo aquilo que nunca foi capaz de terminar. Durante cerca de dois anos e todas as semanas, reunia o pouco que restava do que conseguia surripiar às contas da casa para agregar ao seu esconderijo, dentro da fronha cinzenta, debaixo do seu colchão. Muitas vezes, eram apenas duas moedas pequenas e já gastas, mas era o seu tesouro que desejava aplicar nos estudos que ansiava para Teresa, muito longe daquele fim do mundo. Ainda assim, era demasiado dura com ela, nunca lhe dando aquele carinho que ela requisitava, sentando-se numa atitude de crueldade e malícia.

Com 16 anos, Teresa estava já habituada à sua existência de princesa única e havia adquirido uma excessiva preocupação com as suas posses, poupando até ao último detalhe e adaptando-se a uma subsistência demasiado saudável. Era agora uma mulher com feições generosas que nunca descuidava as tarefas e o trabalho do campo, com as mãos calejadas iguais às do seu pai, feias, grandes e sempre sujas. Ainda assim, inquietava Júlio com os seus sonhos grandes de cidade, de mudanças imponentes e que envolviam o coração de Eunice de esperança feliz. Acabava por fazer as vontades do homem da sua vida, ficando fechada em casa a maior parte do tempo que tinha livre, fantasiando com o príncipe que a iria arrancar daquele marasmo.

Teresa fugiu de casa no último dia das celebrações da castanha, muito populares naquela zona, cinco dias depois de Carlos lhe ter arrebatado o coração. Sabia que nenhum dos seus pais iria perceber as suas vontades súbitas de casar com aquele homem que ainda nem sequer conheciam, e aceitou a loucura da paixão como sua companheira neste devaneio. Na verdade, o silêncio era mais fácil. Da mesma forma, não conseguia suportar a tristeza que a sua casa conhecia, o enorme sentimento de melancolia e que a afogava num lugar obscuro e sombrio. Não queria ser a mulher revoltada que a sua mãe se havia tornado, ou reflectir a tristeza profunda que o seu pai exibia.

Quando percebeu que Teresa tinha fugido, Eunice gastou o nome da sua filha no vento, gritando a bandeiras despregadas durante a noite toda. Não queria nem podia acreditar que ela tivesse tido a coragem que lhe faltava para mudar de vida, algo que sempre sonhou para si. Lembrou-se imediatamente no dinheiro que havia guardado durante todo este tempo e no desperdício que tinha sido toda a sua economia, toda a sua devoção para que ela fosse mais do que ela mesma. Não queria acreditar. De certo modo, este foi um golpe bem mais duro do que a morte do seu primogénito, pois naquela altura estava a entregar-se a uma vida que não era a sua, e a ser apenas mãe, esposa e mulher aplicada. Não queria mesmo acreditar que a sorte tinha agido duma forma tão madrasta por meio da sua filha. Simplesmente não queria acreditar.

Por sua vez, Júlio fitava incrédulo o quarto de Teresa, que continuava com um bilhete de despedida em cima da cama, que se recusou sequer a tocar. Muniu-se do seu ar mais gravoso e jurou que ia dar-lhe o corretivo que sempre se negou, por não acreditar na força como educação. Era desta que ia aprender que não se deve desrespeitar os mais velhos e que nada se resolve com ausência. Arfava enfurecido, prometendo tareias infindáveis quando ela voltasse.

Meses mais tarde, foi uma carta de Teresa que encontrou aquele casal destroçado. Júlio queimou-a antes sequer de Eunice poder chegar até ela, dizendo que não queria saber das suas desculpas esfarrapadas e dos pareceres estapafúrdios que pudessem conter aquelas letras. Culpava Eunice pelas ideias de grandeza da filha. Na verdade, culpava a sua mulher por tudo de mal que aquela família tinha passado, pela infelicidade que carregava, pela desgraça que lhe era inerente. Tinha a sensação de que aquela mulher tinha sido o seu azar.

2 comentários:

  1. Para não me repetir, até porque, sinceramente, tenho gostado, fica um obrigado pela partilha. :)

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  2. Real Desprovido: hoje já aí está a última parte do conto. Obrigada pelas palavras de carinho!

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