11/10/2013

Eunice (pt.V e final)


(fotografia de Eduarda Pinto)

Uma noite, quatro meses e dezoito dias depois da sua filha ter partido, Júlio lembrou-se dos tempos prósperos em que achou que poderia sorrir com gosto, em que se deitava com a mulher que amava e escutava os seus filhos a brincar alegremente no pomar da quinta.

Imaginou dias bem mais brilhantes do que na verdade tinham sido, e o seu ódio por Eunice começou a falar mais alto. Batendo em todas as portas com vigor, foi encontrá-la desprevenida no seu quarto destrancado e rompeu para cima dela com todo o seu rancor. Sentia-se hirto, preso por um desejo há muito adormecido por si e rasgou-lhe as suas roupas negras, procurando o seu corpo que nunca tinha visto à luz do dia. Por um momento, parou-se a deliciá-lo com o olhar e a tocá-lo com as mãos, esquecendo o ódio que o vingava, até se aperceber novamente da sua febre e da pessoa além daquele corpo tentador, e invadiu-a a fundo, sem pensar demais, insistindo rapidamente até atingir a explosão de prazer. Eunice não gemeu nem implorou para que parasse, acreditando que se não se mexesse muito que a raiva de Júlio pararia rapidamente. Ainda assim, para si durou uma eternidade.

A vergonha invadiu o corpo gasto de Júlio, sabendo que vinha para ficar. Rapidamente, ele juntou todas as suas roupas e fugiu do quarto de Eunice, que jazia ali na cama, com um grito calado na garganta e as lágrimas confinadas nos olhos. Júlio foi isolar-se com as suas abelhas e Eunice olhou novamente para tudo aquilo que tinha conseguido juntar nos últimos tempos, e começou a delinear um caminho novo para a sua história.

Nos dias seguintes, Eunice agiu com naturalidade. Fez tudo como era comum: era a sua maneira de se separar amigavelmente de Júlio, com quem nunca mais falaria. Não o culpava de maneira nenhuma, pois sabia que tinha sido a única vez que Júlio lhe tinha mostrado a verdade daquilo que sentia, e para ela aquele evento tinha sido um impulso para que fizesse o que realmente queria: partir, sair dali para nunca mais voltar. Por seu lado, Júlio nunca cruzava o seu olhar com o dela, não conseguindo suportar o constrangimento que vivia dentro dele e nem se apercebendo nos planos da pessoa que estava mesmo ali ao lado. Muito mais tarde, recordou estes momentos e sentiu-lhes a falta, pois gostava de se ter despedido da sua mulher.

Eunice abandonou aquela casa num dia como outro qualquer, sem qualquer significado histórico para ela e depois de adiantar as refeições para a semana de Júlio. Admitia que tinha carinho por aquele homem e a pena que possuía por ele era enorme, por saber que ele havia desperdiçado toda a sua vida dedicando-se a ela, mas a verdade é que tinha escondido a sua ambição tempo demais. Partiu, com uma pequena mala onde pôs o seu dinheiro e algumas roupas práticas e não chegou a olhar para trás uma única vez.

Não tinha grandes planos, apenas queria chegar a uma cidade que fosse grande o suficiente para os seus sonhos. Queria ver pessoas, conhecer vidas e finalmente seguir o trilho sincero da sua alma. Uma vez no Porto, percebeu que tinha muito mais dinheiro do que pensava. Os seus pais tinham morrido há uns anos e, apesar de nunca ter tido receio de trabalhar, sabia duma herança com a qual podia sobreviver em conjunto com a sua irmã que, sabendo do seu desatino, a procurou para lhe dominar os pensamentos insanos. Eunice aceitou Olímpia com a tranquilidade que lhe era habitual desde que se tinha mudado para a cidade que lhe tinha devolvido o seu espírito, e lentamente foi ganhando as suas cores, bordando e pregando algumas contas e tecidos brilhantes nas roupas amargas, construindo a sua felicidade calma num mundo que sentia ser verdadeiramente o seu.

Eunice reencontrou Teresa anos depois de se terem visto pela última vez, já esta tinha voltado de África. Apaixonou-se perdidamente pela mais velha das suas três netas, a Sara das feições doces, altas e claras como a avó. Foi a ela que dedicou os últimos anos da sua vida, sendo a sua mãe, amiga e confidente, apoiando-a em todos os seus passos, até nas atitudes destemidas. Rebolou no chão em brincadeiras com netas e bisnetos, foi protagonista de gargalhadas e histórias divertidas, onde punha sempre o seu cunho de grande mulher, a sua lição de vida. Para profundo espanto de Teresa, que tinha a sua mãe num local distante e calado do seu coração, Eunice vivia de alegria em punho e a certeza no olhar, inspirando todas as mulheres da sua família.

No instante em que o seu coração finalmente parou, Eunice constatou que tinha tudo aquilo que sempre sonhara para si. Olhava para a sua família como o seu bem mais precioso e aceitava até as críticas constantes de Olímpia, que sabia existirem por gostar muito de si. Naqueles instantes anunciadores, recordou Júlio e o seu ar tímido, e abraçou o seu filho Afonso pela última vez.

Oitenta e cinco anos passados, Eunice vestia diariamente o seu sorriso mais convincente. Não gostava de se ver com as rugas que percebia no espelho, mas percebia que elas traziam todos os detalhes da sua história.

6 comentários:

  1. Parabéns!
    Gostei da primeira à última parte. Da história base, da emoção e descrições que vão pautando e sustentando o desenrolar do conto.
    O final, provavelmente, o que Eunice merecia.
    Obrigado, uma vez mais, pela partilha.
    Continuação de uma escrita inteligente
    :)

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  2. Obrigada Real Desprovido! :)
    Cá continuaremos :)

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  3. Raquel, gostei mesmo muito. Se esta é a tua primeira obra, só posso esperar que venham muitas outras... <3 Obrigada!

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