19/11/2013

Remédios Caseiros: o Francisco Coelho

O Chico é daquelas pessoas que até pode passar despercebido à primeira vista, mas, depois de ultrapassarmos as primeiras palavras, é capaz de nos conquistar duma forma imediata.

A ideia que tinha da vida com 18 anos era bem diferente daquela que tem hoje. Actualmente com 35 anos, apercebeu-se que tudo acontece com tempo, mais tarde do que aquilo que imaginava. É arquitecto, mas não se define só com esse factor, dedicando-se a muitas outras áreas que lhe enchem as medidas.

O interesse pelo seu ofício surgiu-lhe muito cedo, pois sempre teve desembaraço na hora de desenhar e no tratamento das artes plásticas. Por outro lado, era diferente dos outros miúdos, já que se fascinava facilmente com os edifícios, com as linhas e construções. Na altura, chegou a fazer um curso de desenho na Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, mas as médias tão altas impediram-no de seguir aquele caminho. Era um jovem com notas razoáveis, mas com muita vontade para viver a vida com alguma liberdade, por isso entrou no curso de Arquitectura da Universidade Lusíada e aí traçou o seu percurso académico.

Da mesma forma, começou a coleccionar música desde os 9/10 anos. Esse foi um hábito que adquiriu do pai, que também se deslocava a lojas de música específicas à procura dos seus gostos e para que tivesse maneira de os guardar. Assim, os prazeres musicais do Chico foram evoluindo, até que se encontrou com a música electrónica, o jazz, o funk e o soul, com um amor repentino e uma predilecção inflamada. Ficou de tal forma deslumbrado com aquilo que ouvia, que teve vontade de mostrar às outras pessoas as suas descobertas e aquilo que mais lhe aguçava o apetite e, por isso, foi a altura em que iniciou a sua actividade de DJ.

Naquela época, ser DJ era algo muito limitado e havia poucos clubes onde o podia fazer. Através duma amiga, começou a desvendar os seus interesses musicais num café no Porto, levando todo o equipamento consigo, assim como aquilo que aprendia sozinho e através de amigos. Há mais de 10 anos que o faz, sempre com a vontade de transmitir e dar a conhecer aquilo que o apaixona, nunca saindo do estatuto de passatempo, mas com algumas etapas importantes já alcançadas, nomeadamente no programa de rádio de Nu Jazz Soul e na dupla 808 (aqui), entre muitos outros projectos aos quais tem dado os ares da sua graça. 

No entanto, o principal é e será sempre a arquitectura. Na altura em que acabou o curso, foi trabalhar com Francisco Guedes, arquitecto que guarda como uma das suas maiores influências. Depois de 2 anos e de ter preenchido os requisitos mínimos para a entrada na Ordem dos Arquitectos, foi Londres que lhe apareceu nos planos e uma aventura garantida nas novas oportunidades. Foi assim que decidiu correr o risco e ficou cerca de 2 anos e meio na empresa RTKL (aqui), uma peripécia que lhe abriu horizontes e lhe proporcionou coisas inesperadas, numa cidade onde tudo se passava, onde tudo era movimento frenético.

Acabou por regressar de Londres apenas porque ficou desempregado e não queria perder-se nos tempos até conseguir voltar para a sua área. Uma vez de volta ao Porto, montou escritório com um grande amigo arquitecto com quem tirou o curso e lá continuou a luta durante 3 anos, nunca parados. Começou também a fazer visitas guiadas à Casa da Música, um trabalho muito interessante e onde testa as suas capacidades de contacto com o público, de adequar o que diz e a quem o diz. Na arquitectura, tentou esgotar as suas possibilidades em todos os aspectos e abriu também um espaço diferente para combater mentalidades, o espaço entrelinhas (aqui), onde se combina o gabinete de arquitectura, uma loja de objectos de design e uma galeria de arte, mesmo no centro do bairro das Artes do Porto. 

Notou, porém, que é muito difícil manter a dinâmica num país onde não consegue crescer, principalmente por estar estacionado e não avançar na sua área profissional. Desta forma, em Fevereiro deste ano resolveu sair deste caminho e dedicar-se ao negócio da família, uma fábrica de produtos de pele para marcas, onde havia a vontade de constituição duma marca própria de mobiliário com partes forradas a pele. Com o interesse de alguns clientes noutras partes do mundo, esta marca ainda sem nome irá também investir na construção de acessórios de moda (e outros que tais) em pele e, por isso, o Chico prevê que, em breve, será algo que irá ocupar o seu tempo inteiro.

Ainda assim, hoje continua a manobrar os seus momentos entre os discos e músicas como DJ, as visitas guiadas à Casa da Música que lhe dão tanto prazer e o novo projecto que tem entre mãos, ainda tendo tempo para cozinhar os seus pratos maravilhosos e cuidados. O Chico não gosta de se acomodar e, desta forma, tenta ser sempre melhor em tudo o que faz. O facto de ser tão flexível e fazer tantas coisas diferentes tem uma relação directa com as suas paixões e confessa que, desde que goste daquilo que faz, vai conseguir sempre atingir um patamar satisfatório para si, aplicando-se com maior persistência. 

Percebe que, para poder investir na arquitectura, terá de sair do país para conseguir a abrir portas, mas isso não o assusta. É assim que leva a vida, um dia de cada vez, ensinando quem o rodeia a ter esta liberdade e tranquilidade, mas a fazer tudo certo, com um sorriso no rosto e a dedicação no olhar. É assim o meu amigo Chico, um rapaz calmo e comedido, sempre no canto dele e que pode até não chamar muito a atenção inicialmente, mas que é capaz de nos conquistar com as suas melhores palavras. 

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