03/12/2013

Remédios Caseiros: a Eduarda Pinto


Há certos tesouros que têm a marca do tempo e que, só por causa disso, nos são mais especiais. É o caso da Duda, uma apaixonada pelo simbolismo das coisas.

Com 24 anos, ainda adora comemorar o seu aniversário, que revela ser por mais duma semana. É a altura em que se sente verdadeiramente única, mimada, notável e particular e, por isso, deixa-se levar por essas emoções boas. Profissionalmente e apesar de não ser a sua área, neste momento está a gerir uma história de família, o Piquenique na Fundação Escultor José Rodrigues. Esta foi a resposta necessária para um projecto de Cake Design da irmã Andreia (com o Remédio Caseiro aqui), que exigia um espaço físico para continuar o crescimento e é assim que passa os seus dias, com o maior dos carinhos e das determinações.

No entanto, esta não é a sua paixão de raiz primária. Ainda que não tivesse ninguém na família com interesse pelas áreas audiovisuais, sempre foi muito habituada ao cuidado com a imagem e andava constantemente com uma câmara na mão, vendo muito cinema em casa e fotografando tudo o que observava. Nas férias, disparava para todo o lado com a sua máquina analógica, tentando captar cada momento, mesmo que mal. Mais tarde e com o surgimento da facilidade digital, fotografava ainda mais, até conseguir encontrar aquilo que mais gostava de representar visualmente.


Foi na tão emblemática Escola Artística de Soares dos Reis que a Duda começou a tecer o seu caminho e onde passou os anos mais felizes da sua vida, especializando-se na fotografia que lhe enche as medidas. Descobriu o seu gosto pela fotografia de autor e por todo aquele ambiente, sabendo que tinha de criar algo próprio para demonstrar aquilo que era e sentia.

Depois, surpreendeu toda a gente escolhendo o Cinema, pois queria conhecer outros interesses e aplicar a sua fotografia àquela área, resolvendo sair do seu amado Porto à procura de outros desafios. Assim, seguiu até ao curso de Cinema da Universidade da Beira Interior e viveu o extremismo da Covilhã, no calor, no frio e no deserto de coisas a acontecer. Com o tempo, ganhou gosto por outras importâncias como a direcção artística dos cenários e a realização, por lhe permitir a construção das histórias que imagina.

De volta ao Porto, a cidade que vai de encontro à sua maneira de ver a vida e aos seus gostos, reflecte com exactidão as paixões que herdou da mãe pelo cinema de terror e suspense. Relembra os tempos da infância, quando passava noites no sofá a ver esses filmes e, ainda que às vezes não percebesse nada e chorasse copiosamente, é essa a sensação de mau estar e arrepio na espinha que recorda com carinho, por ser aquilo que mais gostava, na sua mistura com o medo e o fascínio. Com o projecto denominado de Mise-en-scéne (e que foi aqui representado no conto Eunice - parte I, II, III, IV e V), finalmente concretizou aquilo que havia idealizado há tanto tempo e transmitir essa atmosfera que a seduz, tendo a certeza que é esse o ambiente que quer continuar a reproduzir, é essa a sua ideia principal, o que mais a inspira.

Hoje, mesmo não tendo imaginado este caminho e a dedicação diária ao Piquenique, percebeu que os tempos lhe mudaram as vontades e que teria de se adaptar às necessidades essenciais. Assim, tenta conciliar o tempo livre que tem para fazer aquilo que gosta e empregar-se na fotografia e no cinema. Mais recentemente, criou o Oh, vai-me à loja em busca dum novo desafio, não propriamente para crianças, mas para pessoas que, tal como a Duda, se fascinam com este universo das memórias em forma de coisas antigas. Assim, traz de volta os brinquedos que fizeram parte da infância, os objectos das avós e as coisas dos baús, empoeiradas, antigas e com mofo, indo ao encontro, mais uma vez, daquilo que a representa na sua totalidade. Porém, entende que, por vezes, não tem tempo para tudo e assim percebeu que tudo se faz com calma, que tudo vai acontecendo sem pressas.


Quem não a conhece pode pensar que ela é estranha ou sombria, na vontade permanente de fazer visitas aos pesadelos. Longe disso. A Duda é das pessoas mais dedicadas que existem, esquecendo-se de tudo o resto quando é para trabalhar. É também muito exigente com quem se envolve a este nível, referindo que compreende que seja uma pessoa difícil de colaborar. No entanto, posso garantir não há entusiasmo que lhe escape e é um prazer estar perto dela, pois inspira quem a rodeia a fazer sempre mais e melhor.

Como um daqueles tesouros que tanto guarda com uma enormidade de significados, a Duda é o exemplo de alguém q faz aquilo que é na verdade, representando exactamente aquilo que a move. E não há nada melhor do que seguir assim.

P.S. Vejam também a página de Behancé dela, aqui.

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