18/12/2013

Remédios Caseiros: a Tânia Santos

É engraçado como a vida tem sempre a maneira mais interessante de nos surpreender.

Conheci a Tânia no mais belo dos acasos e sem querer, na festa mais popular da nossa cidade (sobre a qual escrevi e mostrei as fotos do Fred aqui) e houve qualquer coisa que aconteceu imediatamente, como uma maneira simples do subconsciente de dizer que esta era uma daquelas de manter por perto. Meses depois, aqui vos conto um pouco da narrativa da Tânia, uma mulher cuja história mostra tantas similaridades com a minha que chega a arrepiar.

Os quase 32 anos da Tânia demonstram-se numa imensidão de coisas que sempre teve para fazer, dividindo a sua atenção para vários assuntos ao mesmo tempo. Na altura em que fez os testes da sua orientação vocacional, tudo indicava para que seguisse Artes, embora tivesse notas muito boas as Humanidades das Letras e da Filosofia, à linguagem das histórias. Achou que era responsável seguir a área das Ciências além das suas vocações originais e assim escolheu Psicologia, surpreendendo tudo e todos, inclusive a si mesma.

Entrou, então, no curso de Psicologia no Instituto Superior da Maia e, apesar de ser aquilo que desejava no momento, recusou aquele ambiente que não gostava, as praxes detestadas e as pessoas desinteressantes, pelo menos a seu ver. Nunca deixou de investir noutros assuntos, pois queria ter dinheiro para as suas coisas e os seus vícios e, desta forma, sempre trabalhou durante os tempos da faculdade, dando-se com pessoas muito diferentes daquele meio. Ainda que durante todo aquele percurso achasse que ia ter emprego na área, aquela formação não lhe encheu as medidas na totalidade e começava a abater-se algo sobre si.

Com o tempo, apercebeu-se que "as pessoas são chatas" e que a incomodava ter de "levar sempre com os problemas dos outros", por isso interessou-se pela Psicologia Infantil e pela atracção que tinha pela franqueza, pureza e simplicidade das crianças [apesar dos seus problemas terem quase sempre a ver com os pais]. Compreendeu também que dificilmente teria trabalho além dos Centros de Estudo e foi aí que decidiu criar o seu próprio emprego, um portal para famílias com crianças, o Castelo Andante. Este site tinha uma variedade de assuntos baseados nos conhecimentos da Tânia, como uma área exclusivamente para crianças, com jogos desenhados e elaborados por ela, artigos científicos escolhidos por ela e oferta de serviços de Psicologia, Terapia da Fala, Terapia Ocupacional, Educação Especial e Babysitting, com a colaboração de outros profissionais relevantes. Desta forma, tentava vender os seus serviços e os dos seus cúmplices a colégios, centros de estudo e a todos os que estivessem interessados, criando uma data de seguidores das suas temáticas.

Aquele foi um site que criou sozinha e, depois dum ano de investimento intensivo, começou a ficar cansada por perceber que era uma aplicação sem fim e sem retorno. Ao mesmo tempo, candidatou-se a inúmeros concursos públicos e enviou currículos sem desistir, pois não se reconhecia capaz de exercer Psicologia sozinha e queria algo por conta de outrem. Hoje, ao olhar para trás, confessa que o portal Castelo Andante podia ter tido sucesso pela enorme quantidade de seguidores que tinha, mesmo quando no ano passado decidiu apagar a página, mas a realidade é que não conseguiu dedicar-se com toda a sua atenção e o seu tempo porque tinha de dividir-se para se reinventar, para se tornar mais produtiva.

Sempre foi exímia em experimentar aquilo que tinha de novo no âmbito dos trabalhos manuais e a mãe ainda conserva essas suas delícias. Da mesma forma, foi essa a estrada escolhida naquela época, inaugurando-se no Artesanato Urbano, a fazer peças de bijuteria de autor com materiais reciclados, aproveitados e outros que tais. Esta foi uma surpresa que começou a dar resultados e prazeres, pois gostava muito daquilo que fazia e tinha muito sucesso, ganhando mais (inclusivamente dinheiro) com o que elaborava manualmente e a estar presente nas chamadas "feiras de rua", contrariando algumas opiniões algo depreciativas dos seus colegas de Psicologia, que menosprezavam aquilo que havia escolhido.

Quis o acaso que ela tivesse a sorte de conhecer mulheres inspiradoras, como a Inês Magalhães do Mercado Porto Belo, a Joana Dixo do Dixo's Oporto Hostel, a Marina Costa dinamizadora do quarteirão das artes e a própria mãe apoiante de todos os seus sonhos, que a motivaram a que tivesse vontades puramente suas. Comprou um livro que a ensinava "Como criar o seu próprio negócio" e, embora só tivesse lido até metade, encontrou logo as suas respostas e aquilo que necessitava para construir algo seu. Depois, em conversa com o namorado Miguel, os amigos Francisco e Áurea (do remédio aqui), resolveram seguir com a ideia da CRU e a ligação da loja colaborativa com um espaço de co-work, onde os artistas pudessem trabalhar fora de casa, num ambiente saudável e cúmplice. E, numa altura em que o sítio que tinha idealizado para aquele projecto vagou repentinamente e se fundou a conjuntura perfeita para que arriscassem, parecia que as estrelas se alinhavam e assim determinaram o avanço, o mergulho impulsivo, mas muito sentido.


Há 2 anos atrás nascia a CRU, onde actualmente a Tânia passa a maior parte dos seus dias e durante o próximo ano se dedicará a 100%, um espaço em que as relações de amizade são primordiais e com peças de autor que contam histórias, as mesmas narrativas dos artistas que representam. Assim é também quem as vende e as exibe por lá, valorizando e respeitando cada peça, seja joalharia, vestuário ou decoração, explicando cada detalhe que as define. Mais do que isso, na CRU ensinam que as pessoas são mais fortes quando estão unidas e é isso que batalham com toda a confiança.

A Tânia não é uma pessoa de grandes quereres e sempre se contentou com pouco. Para ela, tudo fica tranquilo com um caril caseiro, na companhia do seu namorado, com a maior das simplicidades. Assim é a minha querida Tânia, como uma doce contadora das mais lindas histórias, aquela inspiração de ar fresco logo pela manhã e que nos dá vontade de continuar a lutar.

1 comentário:

  1. Fico sempre muito feliz por puder conhecer pessoas, através das suas palavras. Não as conhecendo, parece-me, sempre, que as suas palavras lhes encaixam na perfeição.
    É a prova de que, remédios há, que nos são indispensáveis em doses contadas pelas relações. Continue :)

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