17/02/2014

O meu primeiro dia de escola


(uma fotografia que desencantei do final do meu terceiro ano na escola - conseguem encontrar-me?)


[Há umas semanas atrás, em conversa com a Ana do blog Pedagogia do Terror, apercebi-me da simplicidade e da importância que têm as histórias que residem na nossa memória. Assim, decidimos pegar em alguns temas e escrever umas linhas.]

Lembro-me perfeitamente que chorei copiosamente. Passo a explicar: era (e sou) uma menina do papá e, contrariamente aos outros miúdos, passava muito pouco tempo na pré-primária e chorei igualmente quando uma vez tive de ficar lá durante a tarde, porque não podia ir para casa com a Gina, a minha empregada doméstica que era como se fosse uma irmã mais velha. Os meus pais sempre insistiram para que tivéssemos uma empregada doméstica porque ambos trabalhavam fora e queriam que eu fosse acompanhada desde pequena, e a Gina era aquela pessoa que esteve lá desde que eu era pequena (ou éramos), que me acompanhou o crescimento, que me forçou a gostar de cenoura cozida (ainda não gosto) e foi também aquela que me fez inaugurar os vestidos de menina das alianças para o casamento dela, quando finalmente nos deixou.

É engraçado como me lembro dela com a memória a cores, das férias que eu ia passar a casa dos pais dela na Régua, quando andei de burro pela primeira vez. Ou quando tínhamos os nossos risos incontroláveis sobre tudo e mais alguma coisa, quando ela era adolescente e eu era tão criança. Ou quando eu fui operada de urgência ao apêndice que me podia matar, só porque tínhamos comido uma maionese estragada na salada de atum das quintas-feiras e eu era pequena demais para me recuperar sozinha. Não me recordo do momento em que ela entrou lá em casa, mas lembro-me principalmente do dia em que chorei a sua ausência, como se ela sempre tivesse feito parte de mim. Agora que olho para trás, percebo a gravidade da situação: era mesmo muito palerma, demasiado mimada. Mas gostava muito da Gina.

O primeiro dia de escola foi quando tive de deixar a minha amiga em casa e passar muito tempo sozinha e, por isso, chorei. Sempre fui muito chorona, acho que tenho o canal lacrimal ligado ao coração e choro sempre que discuto com alguém, que me zango, me chateio ou me magoo. Enfim, sou chorona. Mas, nessa altura, não chorava com som. A minha mãe costumava dizer que eu parecia estranha e que as minhas lágrimas pareciam querer saltar dos meus olhos, sem o murmúrio do lamento associado. [e pregava-me muitas partidas para me ver a chorar] Ainda assim, chorava por tudo e por nada. Foi assim também que reagi no meu primeiro dia de escola, quando tive de deixar a minha amiga em casa e passar muito tempo sozinha, o dia em que as pernas tremiam mais do que seria suposto. Andei por aquele corredor branco com a mão dada ao meu pai, apertando-a mais um bocadinho por cada passo que nos aproximássemos da minha sala, que ficava ao fundo do corredor. Tinha medo da responsabilidade que tinha de ter a partir daquele momento, respeitava terminantemente aqueles que me eram maiores e sabia que tinha de ficar quieta, parada e atenta durante muitas horas. De certa maneira, havia parte da minha inocência que se perdia naquele momento e, também por isso, chorei. Chorei muito, com as lágrimas a saltar dos olhos, sem som.

Mas depois encontrei a Alice, a professora mais querida que eu podia ter. E seria uma paixão que nunca mais pararia de descrever. [uma história que fica para depois]

5 comentários:

  1. ah, o primeiro dia de escola...
    eu tive uma experiência muito diferente da tua, mas as minhas circunstâncias eram também muito diferentes: andei no colégio desde os 4 meses (!). Cresci rodeada de dezenas de crianças, dos 0 aos 6 anos. Podes imaginar como estranhei ver colegas de escola a chorar no primeiro dia de aulas. Não compreendia o problema. Eu só queria conhecer toda a gente!
    por outro lado, não tive uma pessoa como a tua Gina :) nem um primo mais velho, sequer.

    Gostei muito da história. e imagino as lágrimas felizes que correram ao recordá-la :)

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  2. Ahahah! Por acaso não chorei a lembrar-me dela ;)

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  3. Sempre serás a filhota do pai. Sim, também tenho as ligações que escreves. Lembro-me deste e de todos os momentos que enriquecem a minha memória e onde estás quase sempre presente. Amo-te como te amei sempre filha linda. Beijos do pai e tenho a certeza que a Gina irá adorar ler isto.

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  4. Claro que te reconheço estás igualzinha :P és a 3ª lá de cima!

    Eu estava tão nervosa no meu primeiro dia de escola, achei aquilo tão horrível, mas acho que não chorei..para mim o pior foi sempre a pressão dos professores e dos testes, até vomitava..sofri um bocado lol, mas pronto... no recreio era uma doida :P *

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  5. Só as memórias mais felizes e ternas, nos seguram as palavras certas para descrever o que vem fazendo o nosso percurso. E as pessoas são o que importam, na verdade. Tenho as mais divertidas e felizes lembranças do meu tempo de escola. Da professora também, que reencontrei, precisamente, esta manhã. E me recorda como se fosse o pequenino da altura :)

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