26/02/2014

Quem sai aos seus

(Uma fotografia dos meus pais no dia em que comemoraram os 25 anos de casados, há quase 7 anos)

AVISO: este post é apenas - e só - uma opinião. Não estou a tentar ferir susceptibilidades de ninguém nem criticar quem toma determinadas opções. Antes de tentarem prever seja o que for, leiam tudo até ao fim, que isto deu trabalho a escrever e a opinar. Obrigada :)

Hoje, depois de ver um vídeo de duas pessoas de quem gosto muito (que prefiro deixar só para mim) e que tratam os filhos por "você", decidi fazer uma pergunta no facebook: 

"tratar os filhos por você não é demasiado distante?"

Era uma pergunta sincera, pois queria entender todos os lados das respostas. Percebi imediatamente que estava a abrir "a caixa de Pandora", a falar num assunto tabu e que não ia sair com as mãos limpas, já que muitos dos meus queridos amigos tratam os filhos desta maneira, abertamente e sem sequer pensar duas vezes. Mas é algo que me incomoda (e parece que não sou a única), é um assunto que me faz um pouco de urticária, por ter esta "mania" de acreditar na força que as palavras têm e "você" me parecer demasiado formal e cerimonioso para tratar alguém que queremos perto. 

Para mim, é extremamente difícil decidir qual dos lados está melhor. Eu estou ali no meio, com um nome pomposo e opções bairristas, tão naturais como penso ser. Prefiro a sardinha assada no pão e os bailes da paróquia com os quais cresci, e, por isso, faz-me confusão essa política de cortesia, tão solene e distante como nem sequer penso na minha família. Por aqui, é tudo "tu cá, tu lá", com o samba no pé e a vontade de ter todas as pessoas de quem gosto o mais perto possível. Não trato os meus pais por "você" nem sou assim tratada e, com isto, não estou a dizer que é melhor assim, só digo que é assim que prefiro, foi assim que fui educada e deduzo que seja igual para aqueles que foram educados de forma diferente, assim como alguns dos meus amigos. Mas o "você" continua-me a fazer confusão, principalmente quando as crianças são muito pequenas e nem sequer entendem essa valorização... Para mim, não condiz.

Há, no entanto, pessoas que defendem que será assim a melhor opção, já que este termo assegura o respeito entre gerações. Quanto a isso, temo em discordar, pois não creio que o respeito tenha algo a ver com isso. Conheço pessoas que tratam os pais por "você" e o respeito está posto de parte, assim como também já vi o contrário a acontecer. O que questiono não é a maneira como se tratam os pais, os avós ou seja quem de maior for, mas a maneira como os filhos são tratados. E sei de pessoas que cresceram neste meio e que conservam os maneirismos. É, portanto, algo que está presente em determinadas famílias, é um hábito recorrente e é perpetuado porque assim o desejam. E, relativamente a isso, não há mais nada a acrescentar - cada um faz como quer e segue o caminho que lhe faz mais sentido.

E agora, uma história caseira. O meu pai, ainda hoje e depois de quase 32 anos de casamento com a minha mãe, continua a tratá-la por "você". O curioso disto tudo é que não há distância ou cordialidade, mas foi fruto do acaso, já que os meus pais conheceram-se 3 dias depois do meu pai ter voltado do Brasil para Portugal, onde viveu durante 7 anos e arrecadou recursos estilísticos na maneira de falar. E assim é até hoje, onde acho que, além do hábito, mora também algum carinho neste "você".

Que opiniões há desse lado?

13 comentários:

  1. Não tenho nada contra quem trata os outros por você, filhos ou pais. A mim incomoda-me pois seria criar um distanciamento (na minha opinião) demasiado grande. Sou como tu, gosto do 'tu cá, tu lá' que me aquece o coração. E não acho que o tratar por tu seja menos respeitoso que tratar por você. Uso-o com pessoas de quem me sinto mais distante, mas nunca como forma de tratar mais respeitosamente.

    Beijinho enorme*

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  2. primeiro, tenho que comentar a fotografia. és a junção perfeita dos dois, dá perfeitamente para identificar os traços que levaste emprestados :)

    segundo, gostei muito deste texto e é definitivamente um assunto tabu. já tive várias discussões com amigos sobre isto e, para mim, o 'você' cria distância, confesso que até acho algo snobe e faz-me muita impressão ver pais a tratar crianças pequeninas por 'você', parece que não há pertença, não há ligação.

    E as pessoas que o utilizam nunca me souberam bem explicar o motivo de se tratarem por você, limitando-se a afirmar que é uma questão de respeito.

    Já escrevi muito e não deixou de ser um assunto tabu.


    Beijo grande, com saudade.

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  3. Obrigada às duas pela opinião. Assunto aceso, este! :)

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  4. confesso que é assunto que me baralha um bocado.
    Sempre fui tratada por tu por parte dos meus pais e sempre os tratei por tu. Já com outros familiares a situação já não é tão linear - por exemplo com a minha avó tanto a trato por tu como por você.

    Faz-me um pouco de impressão ver crianças a serem tratadas por você, acho que cria distanciamentos entre as pessoas. Respeito é uma atitude e até uma maneira de estar na vida (na minha opinião), a maneira de se dirigir aos mais velhos pode fazer parte dessa dita atitude mas não é tudo. Se o único respeito que se têm aos pais ou aos mais velhos é trata-los por você então isso não é respeito, é um mero formalismo.
    É claro que isto tudo depende da edução das pessoas, e o que muitos pais se esquecem é que a edução começa do berço e vem de casa, mas isso já é outro assunto que também dá muito pano para mangas.

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  5. para mim, o você apenas surge em situações formais. tenho tendência para o "tutoyer" (porque não temos verbo para isto?).
    já recebi reacções de estranheza por tratar os meus avós por tu, por exemplo. vêm com o argumento do respeito pelos mais velhos. eu prefiro o argumento da familiaridade, a mesma que também tenho com os meus amigos.

    quanto a tratar os pequenotes por você... ou "o menino"... ok, a reacção de estranheza já vem da minha parte (!)

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  6. Realmente é interessante este assunto e pelas opiniões que já li tem alguma pertinência. Sim eu tenho este tratar de carinho com a nossa Belila. Fruto de 7 anos de Brasil mas sem dúvida que agora é mesmo apenas carinho. Faz-me lembrar que muitas vezes trato a minha mãe por Dona Amélia. Sim exactamente como escrevi Dona. Para mim uma das mulheres de verdade como canta a canção. Em tempos ela perguntou-me porque o fazia e porquê não tratá-la por mãe? Aí apercebi-me que mesmo sendo um gesto de carinho mais do que de respeito não era isso que ela entendia. Passei a usar os dois :). Beijos filhota e você seja tu :)

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  7. és parecida com o teu pai :)

    Bela altura em que decidiste falar deste assunto, pois estou a fazer babysitting e adivinha só? tenho que tratar os miúdos por você, no início fazia-me uma confusão tremenda, parecia que estava a gozar com os miúdos, mas agora já estou mais que habituada.

    Eu fui educada para tratar por 'você' pessoas mais velhas, pessoas que não conheço, pessoas que me são distantes e assim sendo, entre filhos e pais tratarem-se por 'você' é para mim só ridículo. A verdade é que também nunca perguntei a essas pessoas o porquê de o fazerem, se me derem uma resposta fundamentada e plausível talvez comece a olhar para o assunto de outra forma, até lá, acho que é uma moda de gente chique nada mais que isso. Não me venham falar cá de respeito, por amor de deus. O meu pai quando me irrita eu digo "mas estás parvo ou quê?" e sou incapaz de lhe faltar ao respeito.

    Uma vez vi um espectáculo do Eduardo Lima e ele fez uma piada com isso, disse que uma vez viu uma mãe a tratar o filho por 'você' e ele disse "ah. Não se conhecem? Deixem-me apresentar-vos". *

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  8. A minha avó que nasceu em 1932 tratava os pais dela por tu. Eu sempre a tratei por tu, assim como aos meus pais e à família mais próxima.

    A mim o que me faz confusão é ouvir uma criança de 4 anos virar-se para outra e dizer: Ó Maria, venha-me apanhar!

    Enfim, desde que estejam todos felizes com as formas de tratamento, isso é o mais importante.

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  9. Acho que e uma forma de se evidenciarem perante os outros como: nós somos diferentes, somos finos, percebe? ridículo!

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  10. Olá Raquel,

    Sem dúvida que esta discussão é interessante.

    Como deves imaginar, vivendo eu agora no Rio de Janeiro, os meus diálogos estão recheados de "vocês". E bem que foi difícil ao inicio! Tal como em Madrid também foi difícil distribuir o "tu" no ambiente profissional, por exemplo.

    Mas em Portugal a questão é diferente na minha opinião. Sobre o que observo no dia-a-dia, o "você" é muitas vezes utilizado no meio de famílias cuja importância do status social existe, e nesse caso a utilização do "você" pode ser ou não entre todos: pais, filhos e irmãos. Mas o "você" também é muito utilizado entre familias cujo conservadorismo e até a prática da religião (nesta caso católica) é muito evidente (ex. em meios rurais é muito habitual os filhos jamais tratarem os pais por "tu"), sem qualquer associação a status social ou coisa do gênero.

    Obviamente que estas são as minhas observações e com certeza existirão outras situações.

    Mas, por estas constatações e pela minha educação sou muito apologista da utilização do "tu". Salvo no relacionamento com pessoas bem mais velhas, onde uso sempre o "você". Com isto não creio que respeite mais ou menos. Simplesmente expresso-me e relaciono-me naturalmente melhor assim.

    Gostaria só de acrescentar, que em pequena cheguei a casa a tratar os meus pais pelo nome. A minha Mãe odiou e a mudança não perdurou.

    Concluíndo, também interessa sempre indagar sobre a forma como as pessoas gostam de ser tratadas, porque não sendo nada exagerado, como Excelentíssima Senhora Dona Paula Bobone- como certa vez vi descrito num artigo de boas maneiras, esta pode ser uma forma de mostrar respeito e carinho, se for o caso.

    Beijos Raquel

    (Cada vez vou ficando com mais saudades tuas. Olha irmos beber um copo e falarmos sobre tudo isto e mais alguma coisa!!)

    Sofia

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  11. Obrigada a todos pelas opiniões! Certamente isto daria uma bela discussão :)

    Sofia, minha linda Sofia: se não vivesses tão longe, raptava-te para esta tarde. Gosto muito de ti :)*

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  12. Aqui é tu cá tu lá, estamos bem assim, não condeno os outros assim como espero que não me entendam mal.

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  13. eu cá não associo respeito a tratar alguém por você. nem cordialidade, nem cortesia. vejo muita gente tratar os outros por você sem qualquer respeito, cortesia ou educação. tal como tratar por tu não significa desrespeitar ninguém. trato o meu filho por tu e ele a mim. tal como sempre foi na minha família. até na geração dos meus avós. e curiosamente o meu filho é o único na sala dele a despedir-se dos colegas. curiosamente sempre que se levanta da mesa pergunta-me primeiro e pede com licença. curiosamente usa o obrigado e o por favor constantemente. e sabe pedir desculpa quando deve. e tem 3 anos. a boa educação e o respeito está nos valores que se passam. não numa palavra.

    excelente post e excelente foto. :)

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