19/02/2014

Remédios Caseiros: o David Lopes






Há histórias que necessitam ser contadas, que exigem as suas palavras precisas e notórias de aplausos. A história do David é uma dessas, carregadas dos detalhes mais deliciosos, preparados para a melhor das inspirações.

O David nasceu há 30 anos na Lousã, em pleno coração do arvoredo e com as atenções focadas no bosque que o rodeava, no centro de formação florestal que é a casa de função dos seus pais, os mesmos que lhe transmitiram o entusiasmo e os gostos por estas lides. Actualmente vive em Faro e é o presidente da Floresta Unida, a cara desta organização que nos orienta o olhar para as demandas das nossas árvores, do verde que nos circunda e que funda e limita o ar que respiramos. Brinca com o facto de ter seguido o que lhe era natural e, com o sorriso que o determina, refere que, se tivesse nascido perto do aeroporto, teria um projecto com aviões.



Porém, foi um episódio menos feliz que deu ao David esta força de mudança e vontade de viver. Há 10 anos, tinha ele 20 e estava a estudar, fumava 4 maços de tabaco por dia, numa convicção permanente de que gostava daquele vício e não o queria deixar. No entanto, as sucessões da vida estragaram-lhe os planos e o David deu por si nas urgências de Pneumologia, com o susto das palavras duras da médica que o atendeu a ecoarem na sua cabeça:

"A próxima vez que cá entrar será num saco de plástico"

Foi duro, foi horrível, foi cruel. Mas também foi decisivo, uma terapia de choque que funcionou, pelo menos para si. Desta forma, resolveu deixar esse seu vício para trás das costas duma maneira definitiva e, mesmo tendo vontade de olhar para trás, nunca o fez. Quando lembrava aquilo que gostava em fumar, recuperava também aquilo que sentia sempre que subia um degrau, parecendo que levava 500kgs às costas e que não conseguia respirar, mesmo tendo 20 anos, fazendo desporto e um empenho de ferro. Era um ar que não conquistava para si e isso era o que mais o zangava.

Naquele momento em que decidiu deixar de fumar, soube também que teria de se ocupar com outras coisas para além dos estudos e do trabalho que exercia, tinha de se apropriar do seu tempo e exercitar a mente para não pensar no seu vício premente. Foi então que iniciou um blog baseado no projecto que chamou de Floresta Unida, um sítio onde escrevia principalmente coisas sobre si mesmo, a sua terapia, mas que evoluiu para algo ligado à sensibilização para a importância das árvores e da floresta, que chegou a envolver cerca de 980 blogs que funcionavam como se fosse um site em rede, consoante a área de actuação.

Pouco a pouco, todos os que o rodeavam foram perguntando por ele, como estava e o que andava a fazer. Ao descobrirem a capacidade produtiva e motivadora de David, começaram a fazer pressão para que contasse essa ideia a mais pessoas, para fazer conhecer o seu sonho. E, se inicialmente pensou que estavam loucos, que aquilo era apenas uma maneira de se ocupar e deixar de fumar, mais tarde percebeu que era uma ideia que tinha pernas para andar e crescer sozinha. Com a conquista do primeiro patrocínio do banco Barclays, através de uma carta que foi escolhida entre 3500 projectos a nível nacional, entendeu que o projecto que tinha em mãos não se designava só ao momento e a plantar árvores, mas tinha também espírito de continuidade, de protecção e reabilitação de árvores, sensibilização de importância e formação profissional. E assim fez o primeiro evento, com a surpresa na adesão de mais de 20 empresas, encontrando o seu caminho de vida, a sua missão.

10 anos depois, conta a história da Floresta Unida, que se constitui como organização sem fins lucrativos desde 2007. É uma narrativa baseada numa sucessão de conquistas, mas também derrotas, de altos e baixos que revela que sabe fazerem parte das suas escolhas. Optou por não ter apoios financeiros estatais, pois queria ser uma instituição que ia buscar aos privados para dar a todos nós, ao público que beneficia das suas mudanças. A dada altura, sofreu algum constrangimento de empresas maiores que o queriam calar e anular aquilo que construía, mas não deixou de lutar. Nestes 10 anos, criou algo para financiar áreas que nos amparam a todos e, se inicialmente se cingia apenas a ele, actualmente envolve um grupo imenso de voluntários sem os quais não era possível desenvolver este trabalho. A Floresta Unida reclama, então, um impacto a nível local, mas também global, na implementação de projectos florestais e na sua continuidade, na mudança de mentalidades e prestígios, na educação mais cuidada dos mais novos, para que os que nos seguem sejam capazes de valorizar aquilo que é realmente importante.

"Nunca tenho um dia igual ao outro", define ele, sem pretensões. Gostava de seguir o curso de Geografia e Ordenamento de Território, embora esteja a mil com todas as ocupações da sua organização. Conta com o apoio de várias instituições e confessa que o seu verdadeiro motivo está em fazer sentido público que, mesmo não dando lucro, garante outro tipo de proveito, um dedicado à sociedade, no destaque em mudar a qualidade da informação que se planta, mais positiva e sincera. E, para aqueles que se perguntam, hoje não fuma, não lhe faz confusão estar com pessoas que fumam e, por opção sua, não o faz nem a brincar.

Das inspirações que carrega, ressalta os seus pais, a sua companheira Arina Batalha, os seus amigos e os voluntários com quem trabalha diariamente. Desde pequeno que sempre sentiu necessidade de ser um homem de lutas, queria fazer algo pelo país e, hoje, garante que todos os dias sente que faz algo de útil e construtivo, cria novidade, cria vida. Vê a Floresta Unida como a sua fé mais profunda, não pensa nas suposições e limita-se a concretizar.

Percebeu, no entanto, que "nem sempre os bons valores fazem-nos boas pessoas". Deixou algumas pessoas de parte, para se dedicar ao seu bem maior e gostava de estar mais perto daqueles que ama, mas sabe que só assim consegue alcançar aquilo que determinou para si. E isso é a sua motivação para continuar.

Aqui está um pouco da história do David, uma narrativa que era capaz de encher as páginas de vários livros. O David veste a sua profissão e aquilo que representa, com paixão, coragem, ânimo e firmeza. É um homem com o carinho no coração, sempre pronto para ajudar, com a certeza nos seus passos, com uma força de viver maior do que as palavras são capazes de descrever. Mas, se olharmos nos seus olhos, encontramos quem ele é na verdade. E isso basta.

3 comentários:

  1. Que lindo Raquel! Acho que o nosso BOM amigo David...vai adorar este "remédio caseiro" porque ele É um verdadeiro remédio como grande exemplo de SER Humano. Beijossss

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  2. Fico feliz pelo David ter encontrado a força para ultrapassar palavras tão duras, tão novo, e ter investido o tempo que ganhou num projecto em prol de todos. Parabéns!

    e já tinha saudades deste remédios :)

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  3. Sim está muito bem descrito o nosso David. Ele é nosso porque optou por isso. Entregou-se, por completo, a um projecto a que também me orgulho de pertencer. Heis um grande exemplo de que, para mim, é mais importante ser um grande homem do que um homem grande (sim porque ele é enorme mesmo nos seus metros e sendo o nosso "general" ). Abraços para ele e para a escritora muitos parabéns.

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