19/03/2014

#125 . Pai



O meu pai é de sorriso fácil e facilmente contagia todos ao seu redor, com a sua gargalhada sonora. O meu pai é simpático e reconhece todas as caras que conhece, que são muitas e confundem-lhe os nomes que teima em não se lembrar.

O meu pai é português, mas viveu sete anos no Brasil e fica sempre com um sotaque adocicado quando fala com um brasileiro. No Brasil, o meu pai foi pai de santo. O meu pai é o segundo de seis filhos, mas o primeiro homem, por isso os meus tios vêem-no como segundo pai. O meu pai teve a infância cortada a meio e teve de crescer mais cedo do que as outras pessoas, porque foi obrigado a sobreviver no Brasil e a cuidar dos cinco irmãos. O meu pai foi o único dos irmãos que tirou um curso superior e, quando chegou do Brasil teve de repetir a maior parte das cadeiras de Medicina, porque não lhe davam equivalência. O meu pai trabalhou muitos dias e noites, dedicou-se a estudar e, hoje em dia, é médico.

O meu pai carrega consigo as histórias mais impressionantes e inspiradoras, e às vezes chora quando se lembra delas. O meu pai também chora com as histórias de outras pessoas igualmente inspiradoras. O meu pai emociona-se com a mesma facilidade com que sorri. O meu pai sempre ajudou aqueles que se chegavam perto dele e muitas vezes teve de aprender a ser menos ingénuo a ferro e fogo. O meu pai sofreu na pele algumas coisas que podia ter evitado, mas nunca deixou de acreditar no bem das pessoas. O meu pai é a personificação da solidariedade, algo que aprendeu como quem respira.


O meu pai esteve no seminário durante uns meses quando tinha dezasseis anos, mas desistiu porque não queria ser padre, mas sim papa. O meu pai sempre teve sonhos muito altos e nunca deixou de sonhar. O meu pai sempre acompanhou o seu pai nos fados e tem uma voz que exibe com orgulho. O meu pai canta em qualquer lado e fica muito orgulhoso quando lhe pedem para ele cantar. O meu pai também ficou muito babado quando soube que eu cantava e conta isso a toda a gente, mesmo se não é oportuno e me envergonha. Mas é o pai mais babado de todos.

O meu pai conheceu a minha mãe dias depois de voltar do Brasil. O meu pai apaixonou-se completamente e ainda hoje é assim, muito embora os tempos sejam diferentes. O meu pai adora estar no centro das atenções, mas facilmente as cede, porque tem muito orgulho da minha mãe e dá-lhe o protagonismo sem pensar duas vezes.

O meu pai é o eterno Peter Pan e tem em si uma criança que nunca morre. E foi o meu pai que me pegou pela mão e ensinou o caminho para ser assim, pequenita com sonhos de grande. O meu pai é o meu exemplo, aquilo que sempre quero seguir e nunca esquecer.

O meu pai é das emoções em carne viva, das intensidades fora dos limites, do preto ou branco, do tudo ou nada. O meu pai não sabe viver a meio termo, porque só sabe ser total naquilo que acredita, mesmo que esteja errado. O meu pai é teimoso e resmungão, mas também determinante e decisivo, detentor de grandes saberes e conclusões. O meu pai ferve em pouca água, mas também tem o mais doce dos corações.

No dia em que eu nasci, o meu pai chorou muito e, durante muito tempo, chorou sempre que viu um parto natural, principalmente quando acompanhava alguém da família na sua qualidade de médico. Assim como posso apostar que chora agora. Quando era pequena, o meu pai dizia sempre que tinha "inveja" da minha mãe, porque ela tinha o meu amor garantido, já que me tinha carregado durante nove meses na barriga. O meu pai fez tudo por tudo que me conquistar o amor e foi presente em todos os aspectos da minha vida, para nunca deixar de ser indispensável. O meu pai ganhou todas as batalhas e é um verdadeiro "pai-mãe".

Feliz dia, meu pai. Amo-te muito. (e esta música é para ti)

15 comentários:

  1. Sim choro porque tenho em ti o meu melhor presente. A vida e Deus entregou-te, acredito que foi uma vez mais, à minha/nossa vivência.
    Sou Peter Pan porque continuo vivendo neste mundo com a criança que amo eternamente - Tu eterna bebocas. Claro que estas lindas palavras são escritas pelo teu enorme coração mas dá prazer senti-las como senti. Agradeço a Deus esta nova oportunidade. Beijos tesourinho

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  2. Filhota! Que lindo! Estou sem palavras mas muito orgulhosa da filha maravilhosa que temos!
    Um beijão paixão :)

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  3. Que linda declaração de amor!sejam felizes!

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  4. Que texto tão inspirador!

    - Ontem descobri este blog, e tão apaixonante foi, que hoje, sorrio ao pensar que já o li.
    Pareceu um livro, daqueles que nos apaixonamos desde a primeira linha e passamos a noite acordados, desejando que a manha não chegue para podermos ler só mais uma página. E só mais uma, e mais outra. Página a página, linha a linha, palavra a palavra, saboreamos o livro como se fosse o último da nossa vida. Este blog, foi como um livro que li, mas com uma vantagem, estava acompanhado por apaixonantes imagens.

    Parabéns.

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  5. Uau, Hugo! Obrigada! :)
    É muito bom saber que existe gente desse lado, que me lê e que me conhece as entrelinhas!
    Muito obrigada também pela paciência de me ler, de fio a pavio. E pelo comentário tão generoso! :)

    Um beijo e continuaremos por cá :)

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  6. Parabéns, Raquel! É generoso partilhar connosco o intervalo de uma parte relevante e sem tamanho para si. Só quem vive sem pensar, só quem vive para gostar e receber igual, consegue descrever o amor assim. Depois, é o intervalo protagonizado por uma vida carregada. Obrigado.

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  7. Querida Raquel,

    Muito lindo o que escreveste e com uma sensibilidade incrível, tive a mesma reação que tu tiveste ao escrever e é sempre bom recordar o passado pelo ponto de vista dos outros...
    Um grande beijo do tio.

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  8. Ah grande Raquel!...grande "cólidade" na prosa e na sensibilidade. Que melhor dia do pai poderá querer o Rui?...saber que nas vezes em que te segurou pela mão ,pegou em ti ao colo e te deixou descobrir o teu caminho tu chegaste até aí...E pensar eu que na última vez que te vi, tinhas deixado as fraldas há pouco...
    Beijo para as meninas e abraço para o Pai Rui, com saudades dos primos do Ribatejo...

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  9. Raquelita, adorei tudo o que escreveste sobre o teu pai. Tens a quem sair ! Parabéns, Raquelita. Beijinho

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  10. Obrigada primo Miguel! Sabia-te nestas andanças dos blogs e é um prazer ter-te aqui pelo meu :)

    Obrigada também querida Eldita! :) Um beijo

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  11. Cada palavra é um carinho e um elogio. que bonito texto, raquel :)

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