24/03/2014

[desculpas para escrever] Conselho

Muitas vezes me deram conselhos. Já tive conselhos com cara amarrada, conselhos brilhantes de tanto chorar, conselhos que não importam seguir, conselhos que são de uma vida inteira. Há conselhos que nos tocam duma maneira particular, como se precisássemos mesmo de ouvir aquelas palavras naquela altura, como se fosse destinado que a pele ficasse na ponta dos pés. Tinha de ser assim.

Nem sempre me lembro dos conselhos que me deram. Penso que isso tem a ver com o facto de haver conselhos maus e de eu decidir apagar esses permanentemente, que não sou nem quero ser pessoa de guardar ressentimentos. Assim, com um estalar de dedos, faço com que eles desapareçam. Os conselhos bons incorporo na minha vida e, por isso, às vezes esqueço-me de lhes dar caras, de saber convenientemente a quem pertenceram pela primeira vez, antes de me apropriar deles definitivamente.

Apenas recordo um último conselho que tive. Foi há duas semanas, já eu tinha a tarefa árdua de escrever sobre conselhos, e fui visitar o blog de uma amiga, uma daquelas que eu não conheço pessoalmente, mas que facilmente seria amiga de todos os dias. É também uma das amigas que escreve comigo todas as semanas, arranjando desculpas para escrever. A Carla, autora do “Um Atraso de Vida”, é das minhas pessoas favoritas e, no blog dela, dizia a propósito de ter lido um livro que lhe foi importante:

Nem sempre devemos mexer no passado.

Algo que me ficou gravado como:

Nem sempre devemos voltar ao sítio onde fomos felizes.

Logo sorri. E disse: 

Tomara eu ter lido este teu texto antes de me aventurar a fazer o mesmo e ler um livro do passado, o que mais mexeu comigo em todos os sentidos. Não o teria feito. 

O meu livro é da adolescência, Lunário de Al Berto. Tinha 13 ou 14 anos quando o li, já não me lembro bem que idade tinha, mas recordo que estava calor. Tinha ido passar o dia à casa de família da minha melhor amiga, uma casa que tinha uma piscina acabada de construir e que era o sítio dos nossos planos para aquele dia. Eu levei o livro por descargo de consciência ou para me “armar em adulta que ia ler um livro pseudo-intelectual”, não sei. Estava naquela idade parva de me querer afirmar.

Comecei a ler o livro no quarto de vestir, um quarto de paredes frias de pedra e que tinha quatro camas e uma janela escavada na parede, uma que não era assim tão grande, mas que dava para me sentar. Ali estava eu sentada, enquanto esperava a minha amiga e a prima dela para irmos para o sol e me entretinha com as primeiras linhas. E logo o livro me sugou o dia inteiro. 

Retrata a vida de Al Berto, sendo, por isso, praticamente autobiográfico. É um livro sobre drogas, prostituição, sexo, abusos, corpos, desejos, caminhar na corda bamba e saltar. É um livro que desafia qualquer adolescente a rir, a chorar, a rir e a chorar ao mesmo tempo e sem ordenação específica, por isso foi tão importante para mim. Na altura atraiu-me pela capa, a cara talhada dele a olhar para mim. Tinha a mania de comprar os livros pelas capas. Li-o de uma assentada, numa tarde só, sem respirar. Faltavam poucas páginas quando pensei em fechá-lo e guardá-lo para outra altura, mas a curiosidade de ler o resto não me sossegou e não resisti. E chorei muito quando ele acabou.

Uns anos mais tarde quis voltar a esse momento e tentei lê-lo novamente. Fiz como faço sempre que leio um livro que gosto e sublinhei as partes que gostava mais, para que as incorporasse em mim. Apercebi-me que tinha criado o culto por este livro, mas também pela escrita obscura de Al Berto, por aquilo que ele tinha para contar pelas suas palavras que desejava que fossem minhas. Mas a verdade é que não consegui sentir a intensidade que queria, por isso desisti passado umas páginas. 

O mesmo aconteceu com outras coisas na minha vida, com viagens, com lugares e até com pessoas. Tentei que ganhassem protagonismo, sem me aperceber que já detinham esse lugar, ou quis regressar a sentimentos conhecidos, quis reviver importâncias. Voltei a sítios onde fui feliz e não fui tão feliz. Quis voltar atrás e tive desilusões, porque me iludi antecipadamente. Porque os momentos realmente especiais têm lugares e horas marcadas para se tornarem importantes. Porque é necessário estar no mesmo sentido para fazer sentido. E isso nunca mais me vou esquecer.

2 comentários:

  1. Fantástico Raquel!
    É isso mesmo .. quando queremos reviver momentos/lugares que nos marcaram ...nunca mais sentimos o mesmo!
    O ambiente é outro, nós estamos diferentes, as emoções são outras, as companhias que temos são outros, etc.. etc..
    Por isso gosto tanto de viver intensamente o presente e se possível ..a projectar bons futuros.
    A propósito... hoje sonhei contigo e foi um sonho muito bom, alegre cheio de emoções felizes!
    Sonhei que estavas a seguir um conselho da mãe e os resultados eram fantásticos!
    Acordei super feliz e contente por ti!

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  2. Excelente!
    Sim sou eu o babado.
    Muito bem escrito sem dúvida mas ainda melhor porque está descrito.
    Aquele que acho ser um conselho que me tem ajudado é que "se conselhos fossem bons não se davam, vendiam-se" :).
    Quanto ao que li só mesmo EXCELENTE!
    Que orgulho filhota

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