26/03/2014

Remédios Caseiros: a Diana Carapuço



Há algo na Diana que nos atrai imediatamente e que nos dá vontade de conhecer mais. É aquele olhar intrigante, de quem sabe um segredo, mas que não quer contar. Depois, a voz tímida e doce, capaz de derreter qualquer coração.

Com 34 anos, Diana é a fotógrafa que adora gatos. É menina-da-avó paterna, a mesma que lhe acompanhou os passos e que ainda hoje a inspira a ser mais e melhor, uma mulher de coragem que se divorciou nos anos 70 e, com 40 anos, abriu uma loja de noivas, onde desenhava os vestidos. Herdou o sentido de humor e a apetência para o desenho também do pai e tem as mulheres da sua vida como fonte maior de inspiração, de coragem e determinação, pois nunca se acomodaram com aquilo que tinham e tentaram sempre ser melhores, principalmente a sua mãe, de quem fala com muito orgulho.

Nasceu e viveu em Matosinhos, mas sempre quis vir para o centro do Porto e, hoje em dia, vive num apartamento com histórias maravilhosas e com uma vista invejável, mesmo na Praça da Liberdade e no coração da cidade. Aliás, é esta a cidade que também vive nas suas inspirações para fotografar, a sua luz, tão única e diferente, especialmente de Inverno.

Mas a fotografia não foi a primeira das suas paixões. Quando era muito pequena e na altura do seu primeiro computador, sonhou em ser engenheira de electrotecnia e entender como é que as máquinas funcionavam. Mais tarde, quis ser astronauta e conhecer o espaço, mas desistiu dessa ideia depois de ver uma enorme quantidade de desastres, que facilmente lhe deram a realidade que precisava para voltar a pôr os pés no chão, para voltar à terra. E depois lembra-se de, com cerca de 6 anos, ver o pavilhão desportivo à frente da sua casa que tinha "um nome de arquitecto" e pensou:

"Se aquele senhor tem um pavilhão com o nome dele, então quero ser arquitecta."

E assim foi, muito simples e concisa como se mostra, seguindo o seu caminho natural até o curso de Arquitectura na Universidade Lusíada, no Porto. Porém, depois de uns anos a tentar lutar por aquele lugar, percebeu que aqueles moldes não se enquadravam na sua forma de pensar e sentir o Mundo e, não querendo perder mais tempo com algo que não a apaixonava totalmente, não chegou a terminar o curso.



Naquela altura, quando desistiu da Arquitectura, sentiu-se como uma "ovelha negra", como alguém que não tinha rumo predefinido, sem objectivos e sem direcção certeira. Assim andou à deriva, investindo apenas naquilo que a fazia feliz e nas artes que elegeu como importâncias. Começou a dedicar mais tempo à música que produzia, à guitarra baixo que a acompanhava de forma "caseira", nas bandas que tinha com os amigos e até pensou em aplicar-se isso a tempo inteiro, mas percebeu a dificuldade que isso acartava, por isso descartou essa possibilidade. Fez pins de merchandising para bandas e empregou-se também na pintura e no desenho, fazendo algumas exposições e tentando sempre mostrar aquilo que elaborava.

Em tudo o que fazia, havia sempre algo que a complementava: a sua máquina fotográfica, que carregava consigo para onde quer que fosse. Percebendo isso, decidiu enveredar num curso de fotografia analógica na Macrozoom (hoje com direcção da Oficina da Imagem) e, em 2005, começou a dedicar-se a esta área de corpo e alma, revelando que pensa ter encontrado a sua verdadeira paixão e o seu lugar. Confessa que tem a fotografia analógica o seu amor maior, pois pensa mais cuidadosamente e vive mais aquilo que está a fazer, mas usa primordialmente a digital, já que entende o seu carácter mais imediato.

Como inspirações, refere Anton Corbijn (das conhecidas capas de Depeche Mode) como sua influência primária, aquele estilo preto&branco com cheirinho a film noir, com muito grão e muito intenso. Actualmente, gosta muito do trabalho de retratos de Annie Leibovitz, apesar de reconhecer que não tem rigorosamente nada a ver com aquilo que elabora, já que gosta de fotografar pessoas no seu habitat natural e prefere que não existam poses ou definições prévias. Já fotografou vários concertos e declara que é algo que gosta muito, pois condiz com duas das suas paixões: a fotografia e a música.

"Nem posso dizer que trabalho, porque faço o que gosto", refere ela. Actualmente, Diana Carapuço (ou Diana Rui) tem um site onde mostra aquilo que faz, aquilo que mais a define. É também fotógrafa do Airbnb, um outro site que permite aos utilizadores/hóspedes viajarem para casas de outras pessoas/anfitriões e conecta pessoas que têm espaços disponíveis com outras que estão à procura de um lugar para ficar, uma troca de experiências sem fim. Com o seu trabalho, Diana visita e fotografa casas de pessoas diferentes, conhece sítios por dentro que já a faziam desejar por fora e que viviam no seu imaginário. É isso que gosta mais neste seu ofício, o facto de conseguir combinar a arquitectura e a fotografia, os seus fascínios num só suspiro.

Sempre se deu mais às artes, as protagonistas da sua vida, por achar que podem não dar retrocesso financeiro, mas que se acompanham de uma realização pessoal como nenhuma outra área é capaz de traduzir. Ao mesmo tempo, quem se dedica às artes é capaz de inspirar outras pessoas a fazerem coisas, a criarem e a serem produtivas e isso é uma das coisas que mais gosta. Procura sempre algo que a inspire e motive, por isso é que escolheu a fotografia e também por isso é que agora procura trabalhos que a satisfaçam sempre naquilo que gosta, tentando que seja algo que a recompense monetariamente, mas que também acredite nisso com todas as suas forças.

Como valores principais que a motivam, a Diana elege a honestidade e a verdade, a vontade das pessoas de serem elas mesmas, sem medos. É uma pessoa muito pacífica, paciente e doce, atraída principalmente pelo sentido de humor e a boa disposição de quem a rodeia. É a maria-rapaz que gostava de jogar à bola, andar de bicicleta e subir às árvores, contrariando as vontades de quem a queria quieta. Hoje confessa que, se pudesse, era assim que vivia os seus dias, numa casa no campo e com os seus animais.

Da doçura da voz, conseguimos ver toda a sua história e a meiguice com que alberga aqueles de quem gosta. Mas há mais sobre ela, muito mais do que estas linhas podem transmitir e, por isso, vou contar-vos o segredo que a Diana guarda: é a determinação que designa nas mulheres da sua família que se consegue ver no brilho dos seus olhos. E isso basta.

1 comentário:

  1. Obrigado, Raquel, Não me canso de lhe agradecer a partilha de vidas. Sempre que leio as palavras que escolhe para mostrar o seu olhar sobre cada um dos rostos que compõem os seus Remédios, fico feliz no final :)
    Admiro e tenho o maior respeito por pessoas que, como a Diana, preferem a verdade, seja qual for, à vontade alheia.

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