07/04/2014

Escrever um livro (pt.II)


(Aviso: este post é um testamento, carregado de justificações para aqueles que esperam o meu primeiro livro. A parte I está aqui.)

Emoções em carne viva. É a primeira expressão que me ocorre quando penso em descrever o que é escrever um livro.

Aqui me confesso. No início, achei um pouco parvo quem me gabava a coragem de escrever um livro, apenas por achar que era o passo natural no caminho para concretizar um sonho. Não estava "a fazer nada de especial", limitava-me a mostrar-me num blog, a falar da minha vida, a descrever os meus passos, a contar os meus amigos. No fundo, sentia a necessidade de ganhar algum dinheiro com aquilo que, com o tempo, entendi que sabia fazer: escrever. Foi uma palermice que me levou a pensar que, se era capaz de escrever um conto, seria capaz de muito mais. E fui ingénua ao pensar que bastava a minha vontade.

Mas depois percebi. É essa loucura de viver as coisas à flor da pele, de temer aquilo que as pessoas acham sobre nós e de não saber o que esperar. Mais do que isso, para mim escrever um livro é:

- Levantar-me de manhã com forças e vontade de escrever histórias;
- Analisar, nas ideias que tenho, aquelas que merecem ser escritas;
- Começar com uma frase, apagar, voltar a escrever, voltar a apagar, passar para a próxima linha, voltar atrás porque "aquela é que devia ser a ideia inicial", escrever uma palavra ou uma frase e esperar até que ela me brilhe, receber uma mensagem dum amigo, responder-lhe, sentir-me mal por lhe ter respondido e não ter desenvolvido a minha ideia, voltar ao texto e não perceber onde estava, escrever outra frase, apagar tudo, começar de novo;
- De repente, perceber que são quatro da tarde e não almocei;
- Enquanto como qualquer coisa, leio textos enormes sobre como tornar histórias interessantes e fazer um bom livro;


- De repente, perceber que são seis da tarde e não escrevi nada de jeito;
- Atender a todas as ideias mirabolantes que me passam pela cabeça, sem olhar a regras ou determinações;
- Ver o marido chegar a casa depois de um dia de trabalho e sentir a pressa de escrever uma coisa qualquer, seja o que for, para que o meu dia não seja em vão;
- Fazer o jantar e estar com o marido, mesmo que por dentro a vontade seja voltar ao computador e escrever seja o que for;
- Ir até ao computador e perceber a mente em branco;
- Desistir, ir ver televisão e, finalmente, deitar-me;
- Ter imensas ideias sobre muitas personagens, mas decidir que elas têm de marcar hora para as escrever;
- Levantar-me a meio da noite com ideias geniais e que têm de ser escritas imediatamente, porque "já vamos em Dezembro e ainda nem sequer cheguei a meio do livro";
- Chorar ao mesmo tempo que escrevia histórias de pessoas que conheço e de outras que inventei;
- Arrepiar-me e sorrir muito com o final de uma história;
- Reduzir aquilo que quero dizer ao ponto de ficar com um ponto de um conto, não esquecendo a intensidade das narrativas;
- Adicionar a ideia de que os meus amigos (e pior, pessoas que mal me conhecem) me ajudaram com dinheiro para escrever este livro;
- Acrescentar a pressão de que existem pessoas que estão ansiosas por ler o que eu escrevi;
- Multiplicar isto por muitos dias, ou antes, por alguns meses.
(inserir aqui a conjuntura de doença crónica que me faz estar com dores nas articulações, principalmente nos momentos de mais stress e preocupação)

O facto é que isto é só o meu lado, ou antes, o meu lado de escritora. Mas há mais, muito mais além disso. No dia em que acabei de escrever, muito depois do prazo que inicialmente tinha dedicado para isso (queria acabar em final de Dezembro e acabei no dia 12 de Fevereiro), senti-me a melhor pessoa do Mundo. Tinha conseguido, finalmente tinha conseguido. E, mais uma vez, fui ingénua ao pensar assim.

Decidi juntar-me a amigos para fazer com que este processo fosse mais fácil para mim, para que pudesse trabalhar em conjunto com pessoas que admiro muito e que têm o dom de poder enaltecer o meu trabalho. Ter uma relação difícil com o dinheiro fez-me ver também que tenho uma relação difícil com as pessoas. Não sei o que pedir ou exigir, não sei se estou a ser injusta e não quero cobrar demasiado. Se, de certa forma, é mais fácil lidar com amigos, é mais difícil gerir as expectativas, porque tenho esta "mania" de querer que todos eles gostem daquilo que faço e de achar que isso é sinónimo de que eles gostam de mim. É injusto para mim e para eles, eu sei. Mais uma coisa que aprendi ao longo deste processo.

É, por isso, uma alegria imensa quando vejo que aquilo que pensei inicialmente está a ser cumprido, é uma emoção difícil de descrever com palavras quando vi os meus contos revistos e opinados pela Joana, o meu livro nas ilustrações da Mariana, no design do Fred, no prefácio da Inês e nos apontamentos do meu Pedro. É uma felicidade sem fim. Mas também são muitas noites mal dormidas, à espera de uma resposta positiva que demora a chegar. É a vontade de ter tudo isto nas minhas mãos, de mostrar ao Mundo, de saber o que as pessoas acham e perceber que isso leva o seu tempo, que ele é necessário e essencial, mas também muito sábio. É chorar muito, é perceber que a paciência está muito longe de mim e é não me conseguir contentar com as coisas mais pequenas. É achar que estou maluca quando descrevo isto tudo.

Escrever um livro é maravilhoso, uma concretização que vai além dos possíveis. Mas também dói como nunca antes pensei. Sim, dói-me, exactamente por ter de exigir, por ter de estar em cima, por não me conseguir desligar. Apetece fugir, desistir e não arriscar em mais nenhuma loucura. É uma tarefa que eu dou a cara, mas que exige o trabalho e a dedicação de muitas outras pessoas, aquelas que escolhi para fazerem parte deste processo e outras que se foram juntando ao caminho, nomeadamente o Alexandre, um amigo de há muito tempo e que me tem ensinado muito sobre livros. E, em conversa com uma outra amiga, ela disse-me que devia escrever um livro sobre o processo de escrever um livro. Não está nada mal pensado. 

Depois do testamento, perguntam vocês: então e vale a pena? Qual é a parte boa disto tudo? A minha resposta é simples: sim, sem dúvida nenhuma. É aquilo que sei fazer, aquilo que quero fazer, mesmo com todas as dúvidas e dores. E o resultado está quase aí, ao virar da esquina.

12 comentários:

  1. Estou à espera do resultado final :D Curiosa pra ler. Tens uma letra tão organizadinha ^^

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  2. Obrigada, Inês! :) E obrigada Catarina, também gosto muito da minha letra ;)

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  3. Já viste como escrever um livro, que tu achaste que seria o continuar de um processo natural que é o teu gosto pela escrita, te permitiu aprender tanto sobre ti própria? E não há nada que pague isso :) *

    PS- ansiosa por ter as minhas mãos num desses belos exemplares!

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  4. Criar um livro é como ter um filho e todas as mães que dizem que o parto não custa, estão a mentir.
    Eu tenho a sorte de fazer parte desta coisa bonita <3
    muito orgulho!

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  5. Depois deste testamento só me apetece é também eu agarrar na coragem e escrever algo. É que essas emoções todas valem bem a pena, desculpa lá!

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  6. Por momentos, enquanto lia este post, fiquei de tal forma envolvido que senti que estava a ler o livro. Devorei as linhas, como se cada linha fosse uma página. Saborei as palavras sabendo que por cada uma que lia, aproximava-se o fim do livro... ou do post...
    A última frase, foi como o terminar de um livro, em que fechamos a contracapa e encostamos ao peito. Por vários minutos sentimos as palavras a entranharem-se em nós. Tornando-nos um só. Neste caso, sabendo, que se irá repetir. Com um livro e real!

    Escrever um livro é de longe mais complexo de ter um filho! Quando vamos ter um filho sabemos que demora no máximo 9 meses para o ter nos braços. Está fora do nosso controlo o seu desenvolvimento, pelo que temos que esperar pacientemente e acreditar que tudo vai correr da melhor forma. A mãe natureza, encarrega-se de o desenvolver. Ao fim de 9 meses, recebemo-lo e tudo é uma novidade. O rosto, os olhos, as expressões. Nada daquilo teve uma intervenção directa nossa. Nada foi moldado para ser à nossa semelhança.
    Escrever um livro... é como se podessemos desenvolver um bébe. Escolher a cor dos olhos, do cabelo, o formato dos lábios... É ter o controlo completo de algo que por vezes desejávamos não ter. É ser responsáveis por todas as linhas. É colocar a nossa cara, a nossa imagem em todas as folhas. Aqui, não temos a mãe natureza a fazer o trabalho todo por nós. É uma realidade fria e dura. Mas no final, ao contrário de um filho, podemos com toda a garantia dizer. Este é a nossa cara!

    É um prazer ler, ler-te!

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  7. Estou emocionada com aquilo que me escreveram, obrigada. Não sei se estou a ficar maluca, mas sinto que sim, que este é um filho que eu moldei à minha imagem e semelhança. É uma realidade fria e dura, que custa a cada respiração. Mas tenho a certeza que valerá a pena :)

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  8. E não te esqueças, no final vais poder dizer "É a minha cara", ou neste caso concreto, "É a nossa cara". E isso vai ser um orgulho!

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  9. Minha querida, revi-me em cada palavra.
    Venha de lá esse livro, que quero lê-lo até ao tutano! :)

    Parabéns!!!

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  10. Eu quero tanto ler esse livro! Estar presente na apresentação. Receber orgulhosamente um autógrafo teu. E dar-te um abraço, daqueles fortes e apertados ;)

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  11. Tenho chorado muito e estou muito cansada, sinais mais do que suficientes para esse abraço merecido. Gosto muito de vocês! Obrigada :)

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