02/05/2014

Facilidades das Infelicidades

Hoje vi algo que me chocou profundamente: alguém a dar os pêsames a outra pessoa através do Facebook. E logo aqui me confesso que fiquei um pouco na dúvida se havia de abordar este tema, mas o assunto é tão actual (pelo menos para mim, que tenho andado a pensar muito nisso) que era impossível ignorar.
Gosto de dizer que o Facebook é um local de trabalho. É lá que partilho as coisas que faço aqui pelo blog, é lá que as pessoas conseguem aceder mais facilmente àquilo que eu faço e produzo. Mas não é bem assim, não é só isso. O Facebook é também o local onde encontramos as pessoas que gostamos, mantemos contacto com os amigos de todos os dias, marcamos cafés, jantares, encontros e outras coisas que tais, com uma facilidade que só nos é permitida através dali. E reencontramos amigos que já não víamos há muito tempo, que matamos as saudades numa conversa rápida, que visitamos o passado nas fotografias de infância, que voltamos às memórias da escola com um sorriso. Basta um like, um comentário, um grupo com um nome jeitoso, uma mensagem para alguém especial e está tudo feito. É simples, é acessível, é rápido e é prático.

Mas é também o local onde vemos aqueles que dizemos que são nossos amigos, mesmo se não os vemos há que anos e com os quais "temos que marcar um café", que fica sempre para depois. Mas é também o sítio onde vamos "cuscar a vida dos outros" e que a ideia de que ninguém sabe é reconfortante para nós. Mas é também o lugar onde só se pode falar de coisas bonitas e felizes, senão os outros vão sentir pena da nossa existência. Mas é também o local onde a facilidade abusa de ser fácil, e deixa-se trazer a independência de cada um e a indiferença de todos nós.

Todos os dias vemos vídeos e conhecemos histórias através do Facebook, histórias essas que nos fazem ver a vida com outros olhos, quando mais não seja naqueles dois segundos que nos lembramos delas, para depois voltarmos à nossa vida normal. Da mesma forma, ter Facebook obriga-nos a pensar naquilo que queremos ou não mostrar aos outros. Há coisas privadas e só nossas, há outras que sentimos vontade de mostrar. Eu nunca fui muito dessas balelas, até porque acredito que uma pessoa que está de bem consigo e com a vida deve ter discernimento e bom senso com aquilo que revela. Mas infelizmente aprendi que não é bem assim.

Depois de algumas calinadas e de sofrer na pele, percebi. Para mim, o mural do Facebook é uma espécie de palco onde somos ouvidos, aplaudidos, criticados e julgados, seja positiva ou negativamente. Não é a mesma coisa que andarmos na rua, não é a vida real, é uma exposição, uma facilidade para nos darmos a conhecer e, quando é usado correctamente, pode ser algo muito bom e a nosso favor. Assim, as coisas boas são para ser mostradas, festejadas, aclamadas, celebradas em praça pública. Por outro lado, as coisas más devem ficar apenas para quem as sabe guardar, para quem sabe cuidar de nós, já que não escolhemos a rua ou um palco para chorar as nossas mágoas e infelicidades, escolhemos o nosso canto, o nosso porto seguro. Fazem parte da nossa vida, mas só devem ter espaço no caminho dos amigos próximos, aqueles que sabem o caminho do nosso coração.

Desde antes das férias que ando às voltas com este assunto, por me sentir presa ao Mundo das redes sociais, apenas por lhes conhecer as facilidades de mostrar aquilo que quero que se saiba. Mas é bem mais complexo do que aquilo que parece, não é assim tão simples. Dá trabalho, dá que pensar, apenas para perceber que há coisas que não devem ser tratadas com tanta facilidade, como as condolências dadas desta forma. Acho muito pessoal para ser falado assim, acho demasiado para se partilhar assim. Acho que se ultrapassou a regra do bom senso, que se quebrou algo que não devia ser assim tão público. Tem que haver discernimento, peso e medida. Para se mostrar, não basta sentir.

O que acham vocês desse lado?

8 comentários:

  1. Eu tenho as minhas angústias e as minhas mágoas longe das redes sociais. Por vezes, posso partilhar um texto ou um vídeo em que revejo um pouco da minha situação. Chamemos-lhe um desabafo de forma indirecta. Tudo o resto reservo para as mensagens privadas e, sempre que possível, um café e um abraço. :)

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  2. Percebo o que escreves e é realmente o que dizes: dá que pensar.
    No entanto, eu não penso muito nisso. Não sei muito bem pq, acho que é de tar tão habituada a levar pancada. Não sei mesmo.

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  3. É preciso reflectir, guardar e seguir em frente. :)

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  4. O meu fb pessoal e apenas para publicar musicas, eventos e outras coisas que nem por isso sao pessoais. Qd preciso de desabafar ou algo nao corre bem uso as msgs privadas. O fb e um perigo para a nossa privacidade.
    ha cerca de 5 anos qd umas colegas descobriram que outra colega era gay pelos comentarios deixados sabe deus onde acordei para a vida e parei de falar da minha vida por la.
    as vezes sai me assim uma historia ou frase mas tudo serve para inspiracao.

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  5. As redes sociais são uma forma ainda muito recente de comunicação,é fácil ser-mos mal entendidos, e fazer o mesmo aos outros,mesmo sem querer,sem ter sequer consciência disso.Ainda há muito a aprender sobre esta comunicação virtual,que bem utilizada pode ser positiva e produtiva. também tenho pensado nisto.:)

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  6. Todo o facilitismo tem-me assustado um pouco. Também cometo erros, se bem que restrinjo o acesso quer à conta do Fb, quer do instagram.
    Só me resta dizer-te isto: gosto imenso do teu trabalho, e do que vais partilhando. E acredito que muitas vezes quem aponta o dedo, está no fundo a projetar o que sente em relação a si.

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  7. Oh, obrigada! A sério! E isso é importante de ouvir/ler :) um beijo grande

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  8. Partilho, da primeira à última linha, da tua opinião. Percebo, contudo, que a facilidade de ter tudo e todos à nossa volta, deturpe a essência da rede. Que não deixe clara e vicie, de algum jeito, a nossa postura e entendimento da mesma. Há nas redes sociais, como em tudo, um foro íntimo e de classificação pessoal. Quem gere terá, necessariamente, que medir. Sempre, mas sempre em consciência. Beijos :)

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