19/05/2014

[UK Tour] Black and White Village Trail

(Pembridge)

Quando vamos de viagem para fora de Portugal e com os dias contados, principalmente depois de uma época ocupada na azáfama natural, ficamos com aquela sensação que temos de aproveitar até à última gota. Queremos acordar cedo, ver vários sítios diferentes, experimentar o máximo que conseguirmos e não perder pitada. E, no final de cada dia, planeamos antecipadamente todos os detalhes para o destino seguinte, mesmo se tivermos os olhos cansados de tanto ver mapas. E desta vez não foi excepção.

No dia 3 da nossa viagem, acordámos mais cansados do que tínhamos saído do Porto e o humor só piorou com o tempo fechado, escuro e quase chuvoso. Ainda assim, o plano era seguirmos toda a rota do mapa que havíamos visto de "Black and White Village Trail", das casas a preto e branco e das localidades sonhadoras.

(Leominster)

Começámos, então, por Leominster, a primeira das paragens e o ponto de partida. E, com o cansaço, veio também a desilusão. Uma coisa que ainda não vos contei da nossa experiência é que, normalmente, nas grandes cidades, os não-moradores têm de estacionar sempre em parques fora do centro. Ora, muitas vezes esses parques são longe, não têm indicações decentes a seguir e, por isso dão muito trabalho de encontrar. Ah, e são caros.

Depois de darmos voltas e voltas à procura do dito estacionamento na cidade de Leominster, cinzenta, escura, sombria, industrial e nada apetecível de explorar e descobrir, a vontade também já era pouca. Por isso, assim que encontrámos um café na única praça que valia a pena fotografar, entrámos e decidimos ficar por um pouco para estabelecermos novos destinos, redefinirmos prioridades e ajustar perspectivas. Nesse café, vimos também "portuguese tarts", ou os conhecidos pastéis de nata, que tinham aspecto de terem viajado de barco, carro, autocarro e avião, com um tempo tão ou mais triste e roufenho do que o frio daquele dia. Mas seja, são portugueses e têm de ser notados.

Depois de restabelecermos paciências e de vermos alguns lugares que não eram dignos de fotografias janotas, seguimos até Pembridge, um dos sítios que todos os guias reforçavam em visitar. E foi uma surpresa muito boa, pois encontrámos aquilo que tínhamos em mente quando nos decidimos por esta rota: casas bonitas, pessoas simpáticas, uma cabine vermelha em cada esquina, uma igreja por detrás do casario, um cenário idílico e tão propício aos melhores suspiros de inspiração.








Na verdade, estávamos há 3 dias a conduzir ao contrário, em estradas nada adequadas a andar (nem sequer um carro, quanto mais dois e em sentidos contrários!), sem sinalizações próprias e fartos de nos enganar, dar voltas ao bilhar grande e ter de regressar ao ponto de partida. Eram paisagens maravilhosas, mas, algures durante o terceiro dia percebemos que não estávamos a aproveitar como devíamos. Assim, depois de nos abastecermos de comida para a viagem, resolvemos deixar este trail para trás das costas e ir de encontro ao campo, aquilo que mais gostámos até então.

Uma vez de volta à estrada, a magia aconteceu. Queria fotografar os cavalos que havíamos acompanhado ao longo do caminho, mas que ainda não tinha tido oportunidade de parar e captar. Finalmente, num sítio do qual não me lembro do nome (desculpem-me!), vimos uns cavalos com as patas-de-pantufas e eu quase saltei do carro de emoção, enquanto parávamos do outro lado da rua duma das muitas quintas que ladeavam as estradas. Comecei a tirar fotografias à distância, quando ouvi a voz da senhora que estava ao lado deles e que gritava:

"Wait for me there!" / "Espera por mim aí!"

A minha mentalidade portuguesa estava a todo o vapor e quase que me enganava para desatar a fugir dali, pois pensei imediatamente que ela me iria pedir dinheiro em troca, ou algo pior. No entanto, a simpatia da senhora foi apenas para chegar bem perto com a égua Reina (espanhol para rainha) e para eu poder tirar fotografias melhores, enquanto a acarinhava e recompensava com pedaços de cenoura. Fiquei embevecida com tamanho carinho, vindo de uma pessoa que nem me conhecia e que me fez pensar que quem diz que os ingleses são antipáticos está muito enganado!



A meio da tarde e apesar da generosidade nos ter enchido de felicidade, a disposição que tínhamos era de acabar o dia mais cedo, ir para o B&B que tínhamos escolhido e descansar. Mas tentámos contrariar isso e, numa das estradas em que seguíamos, encontrámos uma quinta com vacas e a vontade de as fotografar voltou. Quando entrei, todas fugiram assim que me viram. Depois, lenta e calmamente, foram-se aproximando, sempre com o olhar atento, carregado e intenso, mesmo dirigido a mim. Posso dizer-vos que foi dos momentos mais bonitos e imponentes que já vivi, duma forma tão intensa e única, que quase me encheu de medo. E o respeito era palpável.



O resto do dia foi uma nódoa. Estávamos cansados e queríamos evitar isso a todo o custo, mas acho que esse desvio só nos desgastou ainda mais, tanto que, agora que estive a ver as fotografias deste dia, percebo que não tenho mais nenhumas deste final de tarde. Jantámos num pub manhoso em Ross-on-Wye às 17h, servido por uma senhora que tinha o nariz pontiagudo, os olhos vincados, o cabelo colado à cabeça, vestia-se de preto e mancava, reforçando-nos a ideia de que as bruxas existem. [Mas era muito simpática!] E, depois disto tudo, retirámo-nos aos aposentos e dormimos sem horas decididas. Para nada.




Desenganem-se aqueles que pensam que não gostámos deste dia. É que ele veio ensinar-nos que férias também são descanso e que aproveitar o tempo não significa ver mais coisas, mas sim dar-lhes espaço para que façam sentido para nós. E nunca demos tanto valor ao desligar.

5 comentários:

  1. Desligar, cada vez mais, precisa-se.
    Quase que consigo respirar o ar que estas fotografias transmitem :) Cheira a fresco, húmido e verde^^

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  2. Gosto muito das tuas fotografias, Raquel. Ou muito me engano ou ainda vou criar um algum no pinterest só para ti :)

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  3. <3 Gosto muito de todas as fotografias, para não variar.
    Mas gosto ainda mais do teu relato... Porque viajar também é crescer, e crescer é fazer opções :)

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  4. É uma oportunidade fantástica de, a partir de fotografias e relato tão reais, querer parar e resolver aproveitar o tempo para conhecer. Excelentes enquadramentos :)

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  5. pronto. acho mesmo que tenho que me mudar para aqui .. que sítio lindo, e aquele verde?
    asério, obrigado por partilhares estes lugares mágicos. fico mesmo com vontade de fazer a mala e viajar.

    E *clap clap clap* estas fotografias estão incríveis!

    beijinho grande <3

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