28/06/2014

Dos sorrisos inteiros

[todas as fotografias foram tiradas durante o lançamento do 12 em Lisboa. Esta é da Inês]

Aviso: este post é um desabafo longo, mas prometo que vale a pena. É um acrescento que tem a ver com o texto da minha amiga, a Marta, íntegra no seu Dolce Far Niente

De cada vez que me dizem que eu sou inspiradora por arriscar nos meus sonhos, principalmente nesta época do livro 12, fico muito feliz, claro, pois é muito bom saber que carrego motivos para que as pessoas sejam mais plenas consigo mesmas. A verdade é que acho que faço apenas a minha parte.

Longe vão os tempos em que julgava que ia ser eterna, pois acho que, muito sinceramente, nem nunca soube viver assim. Mas, como qualquer pessoa, vivia cheia de medos. Cheia de sonhos e cheia de medos.

Foi preciso correr-me tudo mal na vida para perceber que tinha de mudar. Digo isto muitas vezes, mas acho que nunca o expliquei correctamente. Na altura em que fiquei desempregada, o chão fugiu-me dos pés. Trabalhava essencialmente com os meus pais, as pessoas a quem devo tudo o que sou e aquilo que alcancei e que me ajudaram a criar um caminho na Psicologia, a área que escolhi estudar e que nunca me deu tréguas.

Inês Marcelo]

Sim, os meus pais ajudavam-me, mas nunca abusaram daquilo que tinham debaixo do seu poder, nunca me mimaram ao ponto de não saber valorizar o que tinha. Acima de tudo, sei que sou (era?) boa naquilo que fazia, que sou profissional, dedicada, lutadora e genuinamente boa psicóloga mas, muito infelizmente, não havia portas que se abrissem para mim. Não me rendi. Fiz uma Pós-Graduação em Lisboa numa área diferente, nas minhas Terapias Expressivas e nunca desisti, mesmo se levei com muitos nãos nos CVs que enviava e fiz muitas entrevistas que não deram em nada. A resposta era sempre a mesma:

"O seu currículo é muito bom, mas..." 

Simplesmente não havia espaço para mim. Por isso comecei a trabalhar na clínica do meu pai, a fazer algumas consultas que ajudavam a pagar o mínimo, vivia com eles e recebia uma boa mesada, tal e qual como quando tinha 15 anos. Ao mesmo tempo, comecei a fazer voluntariado com grupos de Terapias Expressivas e ia dando também algumas formações e palestras, para conseguir atirar para muitos lados até atingir um alvo. Fiz coisas que me orgulho muito nesses ofícios, criei amizades, conhecimentos e diferença na vida de algumas pessoas. Sabia perfeitamente que era mesmo boa naquilo que fazia. É que, mesmo sendo voluntário, não deixava de ser trabalho, duro e valente. E, quando percebi que não havia mais terra a lavrar, decidi seguir outro caminho.


Joana e Leone - we are Love addicts]

Entretanto conheci o Pedro, começámos a namorar, decidimos ir viver juntos e continuava tudo mais ou menos na mesma, numa clara redução de consultas, de pacientes, de tempos e até na mesada. Era insustentável e eu sabia disso. Na altura do desemprego, o meu pai, sabendo que tinha de me despedir pois não tinha trabalho que me justificasse, ficou tão triste como nunca o vi. Sei que ele tinha a ideia de que tinha a obrigação de me ajudar, pois, afinal de contas, eu era a filha que ainda dependia deles. Completamente errado, eu sei e até disfuncional, já que nunca conseguiria aprender se não estivesse sozinha.

Quando me vi desempregada depois de 2 meses de me casar, confesso, fiquei completamente perdida. Não sabia o que fazer, pois, mesmo sabendo que era boa naquilo que fazia, não existiam oportunidades, não havia, de facto, espaço para mim. Bati a várias portas, nenhuma se abria. E, por isso, fechei-me em casa a tentar perceber qual seria o próximo passo.

Foi então que conheci o Fred. O Fred tem menos 6 anos do que eu (diferença que nunca senti) e, já naquela altura, fazia tanta coisa que até me espantava. Tinha acabado de se mudar para o Porto depois da faculdade e começava a traçar o caminho dele, apesar de já ser o homem das mil funções: fotografava, fazia vídeo e Design Gráfico numa empresa, onde lentamente mostrava que era especial. Tinha olho, sabia ver. Meses depois, percebeu que tinha de saltar mais alto do que aquelas paredes e arriscou em seguir sozinho. Dizia (e ainda diz) muitas vezes:

"Dinheiro não é problema"

Porque aquilo que as outras pessoas vêm como limitação, ele vê como desafio e nunca deixou que isso lhe prendesse os movimentos. A propósito, é isso que mais gosto nele e é isso que ele me ensina todos os dias. Ele inspirou-me a não desistir nunca, nem se tivesse de fazer outra coisa, de vasculhar noutros lugares.



Começámos como amigos e, nas conversas diárias, fizemo-nos irmãos. No primeiro workshop do We Blog You, ele convenceu-me a ir (nunca me esqueço que foi a Ana a grande culpada, que me ofereceu o curso e que confiou em mim mais do que eu mesma) e foi aí que fiquei com aquela ideia de ter algo plenamente meu, um espaço que mostrasse aquilo que sou, além da psicologia, porque eu era muito mais do que isso.

Mais tarde, comecei o blog, iniciei-me nesta vida de escrever todos os dias e, com o tempo, percebi que tinha uma paixão para a vida. Apresentei os meus amigos, evoluí nas fotografias, falei de música como o som do meu próprio coração. E o resto da história vocês, que me acompanham há algum tempo, já conhecem, de cor e salteado.

Joana e Leone - we are Love addicts]

Não sei se foi a idade que me ensinou a ver com clareza aquilo que sou na realidade. Sei que foi o tempo, que duma forma difícil e que nem sempre falo, me mostrou que só seria um sorriso verdadeiro se fosse inteiro. Com o tempo, (re)aprendi a arriscar. Com o tempo, levei os meus sonhos e permiti-me concretizá-los. Com o tempo, compreendi que só sou verdadeiramente feliz se o fizer de coração cheio e só será assim se saltar sem rede, se me deixar ir com a força de vontade que me caracteriza, que ganhei também dos meus pais. Essa é a maior herança que poderei ter, a melhor mesada que ganhei e que será para sempre. E, com tempo, aprendi que a vida só vale a pena se viver sem travões.

12 comentários:

  1. Adorei o texto e as fotos! Estás muito gira e com uma expressão mesmo engraçada :) parabéns e continua a lutar e a escrever assim!
    Beijinho

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  2. Vim aqui parar à pouco tempo, não sabia que somos colegas. Uma vez tive uma pequena discussão com uma professora que, ao falar sobre o desemprego na psicologia, dizia que quem era realmente bom conseguia. Eu dizia-lhe que não. Que quem é bom tem mais probabilidade de conseguir mas que há circunstâncias da vida, factores de sorte que também contribuem. Hoje, cerca de 10 anos depois dessa conversa, continuo a achar o mesmo. Tenho a sorte (e o mérito) de trabalhar naquilo que escolhi mas jamais pensarei que quem é bom consegue fazer aquilo para o qual estudou. Conheço demasiadas pessoas boas no que fazem e que não têm lugar naquilo que pretendiam. Ainda bem que um novo caminho se vislumbrou.

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  3. É isso, nem sempre quem é realmente bom consegue. Eu sei que ainda sou, apenas o concentrei noutras coisas. E sou muito feliz com as minhas escolhas :)

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  4. O teu sorriso é de facto inteiro.
    É-te tão natural no rosto... mas transborda no olhar.
    Sei do que falo, pois tive o privilégio de também o partilhares comigo nesse dia na LX.

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  5. Obrigada querida. Não há nada que não consigamos fazer :)

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  6. e não é que a vida tem muito mais piada assim? ;)
    <3

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  7. Obrigada por nos confiares a tua história. Fico feliz por encontrares o teu verdadeiro sorriso e com mais esperança de um dia encontrar o meu :) Beijinho e um xi-coração dos grandes <3

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  8. O que acontece muito é que as pessoas não aceitam a mudança por causa do medo, estudam certo curso e depois mudar de area é um grande filme de terror, é importante olharmos para dentro de nós e perceber o que realmente nos faz feliz e qual o caminho a tomar. Fizeste-o muito bem e espero que te sintas orgulhosa de ti propria :) Escreves e manifestaste tão bem!

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  9. Fico-me pelo obrigado!
    Por me reconhecer em alguns aspectos, muito mais, pela partilha da franqueza das tuas palavras e pela certeza das mesmas em cada fotografia.
    Continuação! :)

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  10. Obrigada por abrires assim o teu coração e afinal seres a luz ao fundo do túnel que achava definitivamente fundida. E com um sorriso desses, é fácil gostar de ti! Beijinhos e muita sorte!

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  11. Obrigada a todos, sem excepção. Abrir o coração assim é fácil :)

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  12. Só mais um comentário :)), (agora que cheguei ao fim):
    Eunice, Gertrudes, Alice. Os preferidos!
    Páginas de pernas para o ar, mas não o trocava por nenhum outro. É único.

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