10/07/2014

Macacos no Sótão: a Alice e o Bubas

É uma das gatas mais desejadas da Internet portuense, mas tem um irmão emprestado que é igualmente giro, apesar de não se mostrar tão orgulhoso e fácil. Falo-vos, claro, da Alice e do Bubas, os gatos da minha amiga Raquel, vizinhos do meu coração.
A Raquel é daqueles casos típicos de alguém que não gostava de gatos. Ou antes, achava-os fofinhos, mas tinha-lhes respeito, pois o contacto com eles era nulo. Por isso dizia ser uma pessoa de cães e só gostava desse tipo de companhia, chegando até a ter uma cadelita quando era pequena, a mesma que prendeu todos os seus amores.

Já estava na Universidade quando decidiu contrariar a vontade dos seus pais, que não queriam mais ter animais em casa, porque lhes amarrava a liberdade e depois era um desgosto quando decidiam partir. De ideias fixas, a Raquel resolveu-se: queria voltar a ter um animal em casa. Na época, tinha um namorado que adorava gatos e que queria oferecer-lhe um no Natal para a mãe não recusar. Afinal, se era uma prenda de alguém, não podia dizer que não. A mãe, ao saber destas combinações e querendo ser ela a protagonista das importâncias na vida da filha, quis ser ela a dar-lhe o gato, a escolhê-lo e a concretizar esse desejo.


É assim que aparece o Bubas que, como muitos outros, foi encontrado numa caixa à porta de uma clínica veterinária. A mãe da Raquel acabou por escolhê-lo no meio dos seus irmãos pois era o que tinha o olhar mais terno e meigo, o que mais lhe falava ao coração. No entanto, uma vez chegada a casa, ele revelou ser um verdadeiro terror, um destruidor de lares que roía tudo e era a razão dos medos da Raquel. De noite, quando se levantava para ir à casa de banho, tinha de levar um borrifador de água, que era a única coisa que afastava o Bubas de trepar até à sua cabeça. Toda a gente tinha medo dele.

Com o tempo, a Raquel foi-se afeiçoando àquela companhia felina, a mais fiel de todas. Durante a semana, ia com ele até Aveiro para a vida universitária e, no fim-de-semana, voltava a casa a Oliveira de Azeméis. Foi assim que aprendeu a viver com o seu Bubas, ou o Preto, como carinhosamente lhe chama. E, lentamente, ele foi ficando mais calmo, mais tranquilo, mais senhor.


Numa altura em que teve de mudar de casa e viver com pessoas que não conhecia, teve receio que o seu Preto não se habituasse e decidiu deixá-lo apenas em casa dos pais, em Oliveira de Azeméis, apesar de lhe sentir muito a falta. Assim, foi lá que o Bubas viveu a maior parte da vida dele, chegando a captar as atenções também do pai da Raquel, que se apegou totalmente a ele. Mas era o gato dela, o mesmo que mostrava todo o seu carinho e afeição, o mesmo que ficou com pedras nos rins quando ela foi fazer estágio académico em Barcelona, o mesmo que ficava feliz quando ela estava por perto.

A vida tem maneiras estranhas de se fazer sentir e, embora a Raquel quisesse trazer o Bubas para o Porto, não havia condições para o fazer e acabou por deixá-lo ficar na casa dos pais. Por seu lado, os pais decidiram seguir outros caminhos e separaram-se, ainda que continuassem a viver na mesma casa. Desta forma, o gato Preto sentiu muito essa mudança, já que a casa passou de um ambiente normal para um de stress e bastante hostil, em que os pais evitavam partilhar dos mesmos espaços, nunca estavam em casa e ele sentia essa tristeza. Começou, então, a arrancar pêlo, numa condição que os veterinários chamaram de Depressão.



Em Outubro de 2012, o Bubas veio finalmente para a casa onde vive agora, para o Porto e para perto da sua Raquel. Ainda que não tenha perdido o vício de arrancar o pêlo, mesmo depois de tomar calmantes e antidepressivos, o Preto está muito mais feliz e tranquilo, mais calmo, sereno e seguro. Encontrou a sua paz.
Além de tudo isto, mais recentemente a Raquel descobriu da pior maneira que o seu Bubas é epiléptico. Num espaço de dois dias, teve dois ataques assustadores, em que rodopiava no chão, ia contra tudo, espumava-se todo, ficava com os músculos presos e sem conseguir andar, e ainda faz xixi, experiências traumatizantes para ambos. É um daqueles feitos que não se explicam, pois normalmente estes ataques aparecem quando os animais ainda são novos e o Bubas demonstrou tinha já 8 anos. Nestes casos, normalmente os donos decidem abater o animal, pois não conseguem lidar com estas emoções todas em conjunto, com esta tensão difícil de suportar. Mas a Raquel nem conseguiu pensar dessa forma. Assim como o Bubas se apegou a ela, também ela não consegue estar sem o seu Preto.



Para além de querer um segundo gato, um bebé, esse foi um dos motivos para querer trazer a Alice para este meio, para fazer companhia ao seu Bubas, para que ele fosse mais independente e feliz. Teve a sorte de encontrar a meiguice em forma de gata, que chateia o seu irmão para brincar, mas que depois o enche de beijinhos e carinhos. Do alto da sua terceira idade, o próprio Bubas também já gosta dela e, apesar de a achar uma chata, já aprecia a sua companhia. Por isso os receios iniciais da Raquel já foram dissipados e já podem estar sozinhos em casa.


A Alice, de temperamento fácil e gira-como-tudo, chegou a casa com vontade de mandar em tudo. Trepava também pelas pernas da sua mãe, arranhava-a e gostava de ter todas as atenções. Felizmente, aprendeu que também já aprendeu a conviver e agora senta-se ao seu lado no chão a pedir festas e revela um dos comportamentos mais ternos e queridos que já vi. Envolve-se nos mimos da Raquel, dá pelo nome, deixa-se estar no colo e é um doce. E assim os três vivem, então, um momento muito doce, em que um gato grande (muito grande e gordo, diga-se) se apaixona por uma pequena doçura.



Dizem que os animais são o nosso espelho e eu acredito. Quem conhece a Raquel sabe: ela é meiga, doce e linda como a sua Alice, fiel e sincera como o seu Bubas. Quem conhece a Raquel sabe também que tem nela uma amiga para sempre, uma daquelas que não queremos largar. É na delicadeza que se mostra importante, na serenidade que se encontra e é essa segurança que transmite àqueles que a rodeiam. E nisso, não há que enganar, é para guardar sempre, junto do coração.

9 comentários:

  1. Gosto tanto de ler as minhas histórias pelas tuas palavras :)

    Obrigada, obrigada, obrigada por teres cá vindo perder tempo a ouvir-me e a fotografar os meus meninos. Estou babada com as fotografias :)

    <3

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  2. Tão lindo tudo! O preto faz lembrar um gato que tive... saudades! :D

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  3. Eu também tive uma gata preta como o Bubas, a Clow que arrancava pêlo, também diziam que era de stress (mas não se percebia qual stress...um dia fomos de férias e ela ficou no gatil. Já lá tinha estado e, como tinha voltado cheia de pulgas, a minha mãe pediu para lhe darem banho e tirarem as pulgas antes de a irmos buscar. E voltou lavada, sem pulgas...e sem arrancar nem mais um pêlo. E chegou a ter stresses depois disso, a amiga dela, a Tiggy, morreu e ela ficou cheia de saudades (até chorou), teve que aturar um bebé doido, o Crispi, depois ficaram os melhores amigos. :) Mas ficou peludinha sempre!
    Adorei as fotografias que sigo no instagram e o texto! Eu rendi-me agora aos cães! :D

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  4. Que lindo! Obrigada também pelo testemunho!

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  5. Muito bem dito, e que bom que é conhecer um pouquinho mais da Raquel :-)

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  6. E eu como admiradora confessa de animais, gatos muito em particular, sempre com amigos felinos por perto derreto-me muito com estas histórias tão bem contadas. Adorei conhecer o Preto e a Alice e claro a Raquel. <3

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  7. Que grande retrato e relato, Raquel. Agradam-me sempre as vivências em que os animais tomam papel de destaque. E, não tenho dúvidas, os animais são muito daquilo de quem lhes cuida e protege. Acredito nisso, pelo menos. Por fim, conhecer histórias felizes, como esta, ajudam a provar isso mesmo. Um beijo :)

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