03/07/2014

Terapias Expressivas: Lançar Âncoras

Quando estava na adolescência, ainda perdida sobre o que havia de seguir, muitos me diziam que ia dar uma óptima psicóloga. Falava bem com os meus amigos, ouvia ainda melhor os problemas. Acima de tudo, teimo em ver o que há de bom nas pessoas, a acreditar naquilo que regulam para si mesmas. Não são mais do que simples escolhas de cada um, mas sei que vivem das associações que fazem dentro de si, daquilo que o caminho os ensinou a seguir.

Da minha própria experiência, gosto de pensar que a Psicologia é feita dessas associações, da nossa forma de relacionarmos estímulos e lhes darmos significados. Não é de hoje. A área da Programação Neurolinguística (PNL) já falava exactamente nisso, no impacto que as palavras (linguística) têm na nossa mente (neuro), que nos determinam para a acção (programação). Na PNL, estas associação denominam-se como âncoras e são a maneira de organizarmos o nosso cérebro com noções daquilo que nos rodeia. Assim ganhamos sentido, assim nos definimos.

Os objectos, as pessoas e os acontecimentos da nossa realidade não têm conotação nenhuma por si mesmos e são condicionados pela nossa experiência e conhecimento, havendo, por isso, várias maneiras de lidar com diferentes problemas. Isso só depende de cada um, da sua narrativa, do seu traçado. 

De facto, na Psicologia e na tão reconhecida experiência do cão de Pavlov, uma simples associação de estímulos pode modificar um sistema fisiológico. Da mesma forma, uma música pode fazer-nos sentir tão bem e outra mesmo mal, porque nos leva a um lugar emocional. Às vezes, até as letras dessas músicas são irrelevantes, pois nas que são puramente instrumentais acontece o mesmo. No inconsciente, ligamos essas músicas a momentos, filmes, emoções, sítios e pessoas, exactamente como ocorre com a companhia na experiência de Pavlov. 

Os estímulos (música - sensação) são agregados, fazem parte de um todo e não podem ser isolados, são partes que não podem ser erradicadas, ligações que não podem ser quebradas. Foi a forma mais eficaz, eficiente e económica do cérebro armazenar as memórias, como se fosse um "erro de organização". Assim, cada memória é uma agregação de várias memórias, de vários inputs e estados internos. Cada memória apresenta uma forma única de ouvir, ver, cheirar, tocar e saborear algo muito específico, com emoções e sensações muito particulares. E por isso é que conseguimos lembrar melhor algumas coisas do que outras.

Posto isto, as associações/âncoras são completamente inconscientes e podem ser origem de alguns medos. Um momento de dor física ou psicológica pode associar a dor a esses estímulos e, por isso, podemos ter medo de ver, ouvir, cheirar, tocar ou saborear algo que estava presente, como por exemplo o pavor de uma cor, medo de campainhas, sentirmo-nos mal como o frio, enjoados com o cheiro de cozido e náuseas com sumo de laranja, mesmo sem percebermos porquê. E, se existem alguns significados que mudam com o tempo, outros ficam guardados numa gaveta específica, sem nos apercebermos, e só despertam quando são despoletados por uma situação "crítica".


Em resumo, a realidade é obtida e percepcionada pelos órgãos dos sentidos. Temos acções automáticas sempre a acontecer em segundo plano no nosso corpo, como o bater do coração, a respiração e outros reflexos, por isso, quando isso é modificado, surgem as associações. É inconsciente, é natural e só difere das âncoras da PNL, porque estas são mais conscientes, planeadas e com objectivos específicos para mudar comportamentos e reacções.

O arrepio de uma música especial, que acontecia na mesma altura que davam o primeiro beijo a alguém que amam. O arroz de polvo que comiam quando souberam de uma notícia triste. O som do comboio que passa ao lado da casa da vossa avó, onde passaram a infância com os primos felizes. É isto que acredito como base da Psicologia que estudei, é isto que marca a diferença, é isto que nos torna especiais. Cada um à sua maneira.

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