15/07/2014

Uma dose de inspiração

Como já disse aqui pelo blog, ando numa fase chata (mas necessária) de descobrir e organizar os pensamentos para o novo livro que ando a escrever. Tenho muitas ideias e, de facto, elas acotovelam-se para que as ponha em papel, mas as outras coisas deixam de fazer sentido, porque não consigo dar-lhes a importância devida. E, sem me conseguir enfrentar, deixo as folhas brancas e nuas, com poucas frases escritas.

De certa maneira, ando a fazer algo diferente do que fiz para o primeiro, em que, inicialmente o caderno estava cheio de motes diferentes e a caneta fluía com uma certa naturalidade. Não sabia bem para onde queria ir, apenas me deixava levar. Sabia que queria escrever contos, mas nunca o tinha feito com tanto rigor, por isso escrevia aquilo que queria, nas horas que desejava, com a vontade que me determinava.

Porém, nos últimos tempos, cansada de ter um centro confuso, fechei-me numa concha para tentar finalizar aquilo a que me tinha proposto e quis obrigar-me a que as coisas ficassem imortalizadas. Como me considero uma pessoa social e que se alimenta daquilo que me rodeia, esta reclusão não foi fácil. Queria ver pessoas, contactar com aqueles que me inspiravam, extrair-lhes mais uns detalhes e eternizá-los na escrita. Mas, lá no fundo, sabia que tinha de ser rigorosa para atingir o meu objectivo ou iria adiar o sonho de ser lida por tempo indeterminado.

(Vivian Maier. imagem esquerda: retirada daqui; direita: veio daqui)

Eventualmente resultou. Consegui desligar-me daquilo que tinha feito e não ceder à vontade perfeccionista eterna de me corrigir, de pôr tudo exactamente como tinha imaginado, de recorrer ao medo para me justificar. Tinha a perfeita consciência que era o meu primeiro livro e que, por isso, era normal que tivesse falhas, que crescesse com ele. Era normal que, depois de um tempo, quisesse fazer as coisas de outra forma, quisesse aperfeiçoar o que tinha feito anteriormente. E, acima de tudo, era normal que aprendesse com as críticas dos outros, pois só a ouvi-las e a incorporá-las nas minhas tentativas futuras, ser capaz de ser melhor.

Desta vez, decidi inverter os factores. Quero organizar-me antes de me atirar para a acção. Tenho muitas ideias e acho que, se conseguir fazer o que penso, será exactamente aquilo que preciso para um segundo livro e algo bastante interessante. Por isso tenho de ter estes tempos mortos em que parece que não faço nada e estou só a olhar para a parede. Não mostro nada, mas estou a produzir mentalmente, mesmo que não pareça.

No outro dia, o Fred falou-me do documentário da Vivian Maier, uma fotógrafa que foi conhecida há poucos anos, mas que fez da fotografia a sua vida. Na sexta-feira, depois de um dia que simplesmente não conseguia produzir, decidi ceder àquilo que me tentava e vi-o de uma assentada só. Há coisas que sabem o seu lugar e que rapidamente ganham nas importâncias e foi exactamente isso que aconteceu. Aos 10 minutos de filme, eu não conseguia parar de chorar. Era mesmo o que eu precisava para me desbloquear:



Ainda há épocas em que bloqueio, claro, sou humana. Mas se há coisa que aprendi dos momentos em que não temos inspiração é a não forçar. Ela aparece quando tem de ser, nas alturas em que estou desligada de tudo e que não estou a obrigar-me a nada. Vejo filmes, olho para fotografias, inspiro-me nos textos dos outros. Foi isso que fiz com as fotografias e a história da Vivian Maier, nos retratos da poesia do silêncio que demonstra, que gostava que fossem um bocadinho meus. Faço isso nas mais pequenas coisas, pois só assim consigo determinar as minhas narrativas. E, na melhor das alturas, as minhas palavras ganham sentido.

P.S. Por favor, vejam este documentário. Está mesmo genial.

4 comentários:

  1. Brutal! :)
    Querida Raquel, tenho a certeza que vais encontrar a inspiração que precisas para esse novo livro! Para uma pessoa tão linda e talentosa como tu as palavras surgem, voam do coração e da cabeça, para o papel. E depois lá estaremos nós outra vez, na fila da frente, a bater palmas com força por mais um belo livro!

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  2. Revejo-me nas tuas palavras e nas tuas pausas, ambas obrigatórias quando queremos e precisamos de coerência. Não duvido, é um método que vamos descobrindo e gerindo melhor, assim evolui o tempo. É permitir que aconteça, ao invés de de forçar que seja. Beijo :)

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  3. Ainda na semana passada passei por um pequeno momento assim e decidi-me a rever o filme "Wilde".
    Obrigada pela partilha. É muito importante revermo-nos nas palavras dos outros!

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  4. Coisas boas como estas merecem ser partilhadas. Obrigada pelos vossos comentários sempre tão meigos!*

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