20/08/2014

Terapias Expressivas: o Valor do Silêncio

Para mim, não há assunto mais na ordem do dia, já que esta semana começou com a má disposição de algumas pessoas que decidiram espalhar o veneno e o ódio nas redes sociais. Eu sou daquelas pessoas com a resposta na ponta da língua e sei que, por vezes, tenho mesmo de me conter. E, como gosto muito de ditados populares, tenho um especial para este momento:

"Quando não tens nada de bom para dizer, o melhor é estares calado"

No entanto, sabemos que, por vezes, é muito difícil não reagirmos ou respondermos a alguém que nos atiçou numa discussão ou que nos dirigiu um comentário negativo. Há pessoas que têm o dom de nos porem os cabelos na ponta dos pés só com uma palavra e o objectivo é mesmo esse, o de tocarem na ferida mais funda.

Quando estamos tensos, a resposta ou reacção nunca deve ser imediata, na medida em que facilmente podemos perder a razão. Nestes momentos, a impulsividade nunca resulta. Devemos parar, deixar passar uns minutos, respirar fundo e pensar se a nossa resposta melhora ou piora a situação. E, por vezes, a melhor resposta é mesmo o silêncio. Assim, aqui estão algumas situações-limite em que o melhor é estarmos calados:

1. Se ofender alguém
Se não houver nenhuma hipótese realista de que as coisas melhoram ou vão resolver-se, o silêncio é o nosso melhor aliado. Podemos até gostar genuinamente dessa pessoa e/ou a relação ser importante para nós, por isso não há razão nenhuma para arriscarmos o afastamento. Há pessoas que não sabem lidar com confrontos ou críticas e são tão rígidas que é impossível aceitarem outra perspectiva, por muito que isso nos custe. Desta forma, se tentarmos falar só tendemos a piorar a situação, pois reforçamos as diferenças que existem entre nós e essa pessoa, e o melhor remédio é ignorarmos.

2. Se magoar alguém
Para evitar zangas e chatices, mesmo quando nos perguntam algo directo sobre a aparência, por exemplo, não devemos fazer um comentário gratuito e negativo sobre essa pessoa. Há que minimizar o que é mau e valorizar o que é bom, pois podem sentir-se atacados e reagir, se tiverem uma auto-imagem forte ou, se forem ingénuos ou naives, vão sofrer com isso.

3. Se nos fizer defensivos, inflexíveis ou tacanhos
Antes de responder a alguma provocação, é preciso pôr o EGO de lado e avaliar conscientemente a legitimidade do ponto de vista de cada um. Todos temos opiniões diferentes sobre aquilo que nos rodeia e, apesar de discordarmos, por vezes não há nenhuma resposta absoluta e o melhor é ficarmos calados. É nestas alturas que mais aprendemos sobre nós mesmos.

4. Se intensificar a raiva de alguém
Quando uma pessoa está demasiado enfurecida para racionalizar o que os outros dizem, o pior que podemos fazer é "pôr lenha na fogueira". Pode parecer que estamos a interromper, em vez de estarmos a ouvir, por isso a resposta é prematura. Devemos ouvir até ao fim e evitar qualquer reacção defensiva que possa provocar o mau-estar de alguém. Ainda que saibamos que essa pessoa está a exagerar, não vale a pena atiçar demónios, por isso devemos ficar presentes e atentos, olhar directamente e atender pronta e totalmente àquilo que estão a dizer, pois eventualmente vão acalmar.

No final, só respondemos se nos parecer sensato. Durante um confronto, é normal querermos respirar fundo e acalmar as hostes, especialmente se é algo exagerado, injusto ou sentimos abusivo. Todas as reacções exacerbadas podem ter origem anterior e podemos ter magoado as pessoas sem querer, o que resulta numa enorme discussão, mesmo quando parece que "veio do nada". Por tudo isto, ouçam, respirem fundo e, se não parecer sensato, nem respondam.

5. Se intensificar a nossa própria raiva
As emoções como a raiva, a ansiedade e a tristeza devem ser moderadas, para que não comprometam os nossos julgamentos e causar arrependimentos tardios. No meio de um confronto ou discussão, acalmem-se, respirem fundo e pela barriga, façam algum tipo de meditação, contem até 10 (ou 1000!), pensem em técnicas de relaxamento progressivo, visualização positiva e tudo aquilo que resultar para vocês. Numa situação-limite, é importante parar e avaliar:

O meu coração bate rápido? A cara está rosada? As mãos tremem? As borboletas acotovelam-se no estômago? Parece que o corpo tem um súbito fluxo de energia?

E, se assim for, racionalizem, parem e respirem. Tudo irá encontrar o seu caminho natural.

6. Se der razão a algo degradante, se nos prejudicar
Qualquer resposta ao veneno só é para atiçar a "cobra" e, ao respondermos, estamos a dar-lhe uma autoridade que ela não merece. A melhor resposta é mesmo ignorar, pois quem não deve, não teme. As ofensas ficam com quem as pratica e só nos atingem se nos sentirmos ofendidos. Numa situação em que nos atacam duma maneira anónima ou dizem mal apenas por dizer, ninguém se deve sentir obrigado a responder a críticas destrutivas, não é sensato nem sequer tentar a defesa. Quem importa sabe aquilo que vocês valem e não se vai esquecer.

7. Se o objectivo de quem provoca é mesmo iludir e chatear
Uma coisa que temos de ter a certeza é que há batalhas que são invencíveis. Há que aceitar. Da mesma maneira, há pessoas tão inconvenientes, más e cobardes, que só querem deste tipo de batalhas. O bullying é para ser ignorado ou daremos a ilusão de que são mais fortes e superiores.

"Não discuta com pessoas burras. Elas vão arrastá-lo para baixo, ao nível delas, e vão ganhar por terem mais experiência na ignorância"
- Mark Twain

8. Se reforçar um comportamento que precisa de ser erradicado
Esta situação é muito comum nas crianças e nas suas birras tão conhecidas, que usam para ter a atenção dos adultos ou manipular para conseguirem o que querem. Nestes momentos, é importante não reagir, pois podem intensificar o impulso negativo e aplaudir algo que não querem que se repita. As crianças fazem estas birras numa altura da vida em que precisam de aprender a saber lidar com as frustrações da vida e, se sempre lhes dermos aquilo que procuram, nunca vão conseguir ultrapassar os momentos menos bons.

Em suma, existem alguns cenários em que o silêncio ganha. Eu sei que custa, principalmente para mim, que teimo em rebentar quando o melhor é fugir e ignorar. Resta-me dizer que a vida é esta constante aprendizagem e que, lentamente, vou chegar lá. Ao silêncio que acalma.

4 comentários:

  1. Adorei!!!! :)
    e fechaste com chave de ouro..
    "chegar ao silêncio que acalma" :)

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  2. Ai, que não vinha ao teu cantinho há tanto tempo! :o
    Já li as novidades todas (parabéns pela reportagem no Público!) e acabei o retorno a ler este teu texto, com que me identifico completamente.
    Tenho aprendido a valorizar o silêncio, a evitar a resposta pronta e solta sem pensar duas vezes. É uma atitude que já deu os seus frutos (as dores de cabeça menos frequentes são prova disso...).

    Obrigada pela partilha, Raquel. E já sabes: a palavras loucas, orelhas moucas!
    <3

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  3. Parabéns! muito bom e realista (dentro daquilo que achamos ser a realidade. Colhemos o que semeamos logo tento aprender a força do "silêncio que acalma"...

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  4. Eu gosto do silêncio e concordo com o que escreveste. Se não é para se dizer qualquer coisa que valha a pena, mais vale estar calado.

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