23/09/2014

Filhos electrónicos

Na semana passada, o Rui do Pés no Sofá introduziu um tema que lhe surgiu numa conversa com o filho. O pequeno pediu-lhe uma PSP, ou seja, uma PlayStation portátil e a resposta foi difícil, mas segura ao seu coração, à sua maneira de ver a vida, exterior, prática e intensa. E, numa área que me diz tanto, não fui capaz de não falar sobre isto. [e decidi estendê-lo até este post]

Como alguém que trabalhou com crianças e pais, a minha opinião é sincera: este assunto não é nada fácil. Se, por um lado, acho que as crianças não devem estar demasiado conectadas a PSPs, iPads e iPhones, para não viverem duma forma virtual, por outro sei que há pessoas que só usam estas ferramentas às refeições, como auxiliar a uma alimentação cuidada e para evitar birras, confusões e chatices. A polémica é muita, mas há uma questão que continua a ecoar:

Será que as crianças vivem demasiado electrónicas?

As verdades são muitas. Os filhos não nascem com livros de instruções, ninguém vem ao Mundo a saber educar de antemão, há crianças mimadas e confusas, há miúdos que não gostam de legumes, sem sequer provar, que se recusam a comer sopa e fruta sem nunca terem comido e há atitudes de pais que arrepiam até o humano mais frio. Mas no meio de tudo isto também existem crianças com temperamentos diferentes, gostos e maneiras distintas, que são mais tímidas, que não gostam de acordar cedo, que preferem brincar até tarde, que têm muita energia que precisam de gastar, que reflectem claramente que alguns ditados não vão fazer bem nenhum e que há regras demasiado estapafúrdias.

Um exemplo muito prático: eu, ainda hoje, não como cenoura cozida e não acredito que a minha educação tenha sido má. Muito pelo contrário! Lá em casa, o meu pai não admitia que o "não gosto" existisse, só deixando o "não aprecio" aparecer depois de provar o que estava à minha frente. A mesa era um lugar sagrado. Não havia fitas ou choros, havia o respeito por aquele momento.

Se bem me lembro, houve também uma altura em que lá em casa existiam livros na mesa (e às vezes outros brinquedos) e contavam-me histórias enquanto eu comia. Era comum ter um livro sempre na mesa, enquanto eu estava entretida com ele. Hoje, que percebo mais sobre o assunto, sei que eles conjugavam algo que eu gostava (livros e histórias), ao acto de comer, por isso tornava-se algo que eu gostava também, por associação. Depois, mais tarde, a mesa era o lugar das conversas ao jantar, para saber como correu o dia, alguns desabafos, conclusões, e o sítio onde começavam e acabavam muitos desejos. Esta era a razão pela qual sempre adorei jantar com os meus pais, porque era um momento de partilha, de crescimento, mas também de muita alegria. Foi uma aposta que lhes correu bem.


Vejo da mesma forma as pessoas que decidem ter um iPad ou iPhone para acompanhar as refeições dos filhos. Sim, há pais que não se dão ao trabalho de se "ocuparem" com as refeições dos filhos, mas também há crianças que só acalmam se tiver algo com que se entreter. Às vezes não é mimo, é temperamento. E há guerras que é melhor não comprarmos. Não é por preguiça ou por desistências, mas por respeito. Se exigimos respeito dos pequenos seres que temos como filhos (ou sobrinhos, ou enteados, ou emprestados), também temos de respeitar os seres humanos que se sentam à mesa connosco, sejam eles adultos ou crianças. Os tempos seguiram e os iPads são os novos livros. E as crianças identificam-se muito mais com aquilo que lhes é comum, familiar e natural. Se os pais não têm livros em casa, não há como inventar esse momento apenas para os filhos. Não é natural.

Duma forma muito geral, na educação não há formulas mágicas, há remédios eficazes. Há coisas que resultam e outras que nem tanto. É claro que eu prefiro as brincadeiras na rua que fizeram parte do meu crescimento enquanto pessoa e lembro-me bem do cheiro da rua, das corridas, dos piões, das escondidas. Aliás, ainda hoje o cheiro a infância é a terra, a brincadeiras sem fim, a tempo sem data. No entanto, o que mais gostava nas brincadeiras da rua eram os amigos da rua, aqueles que ficaram sempre na minha memória. E sei que é preferível para um miúdo brincar em casa com um amigo e uma playstation do que na rua sozinho, pois há competências que só a convivência e a amizade é que ensinam. [algo que daria todo um outro tópico de discussão]

Acredito plenamente que a educação é a chave para a resolução de muitos problemas, mas não é, de todo, um milagre. É preciso ter bom senso, coerência, atitude e muito amor. Quem ama, tem regras, tem maneiras de agir. Ao mesmo tempo, quem ama respeita as diferenças do outro, sejam eles adultos ou crianças, pais ou filhos. As crianças precisam dessas regras para crescer duma maneira saudável e os adultos precisam disso para se tornarem pais, verdadeiros educadores.

Em suma, neste aspecto dos brinquedos electrónicos, assim como em muitos outros que concernem a educação, não há fórmulas mágicas. É necessário respeitar aquilo que nos vai na alma, ser-se fiel a quem somos, seguir os nossos princípios, aquilo que nos caracteriza, e passá-los àqueles que se seguem. Não é fácil, mas todos crescemos em conjunto. E, para todas as grandes questões educativas, o segredo é pensar com a cabeça e agir com o coração.

E vocês? O que acham desta questão?

P.S. Rui, obrigada por me lembrares deste tema tão bom! Por aquilo que vejo, és um paizão, pois respeitas o teu pequeno e a ti mesmo. Obrigada também por isso. :)

9 comentários:

  1. Cada um tem de definir os seus limites de acordo com o temperamento do filho, penso eu. No meu caso, não gosto da televisão ligada à refeição, tanto que não existe na cozinha e a única coisa que promovo (só tem 14 meses) e exijo é que ele coma à mesa. Ele nunca foi daquelas crianças que abre a boca a tudo, mas também não considero forçá-lo a comer o que não quer. No entanto, sei que se o colocasse em frente a televisão ele comeria facilmente (experimentei e comprovei). Então o que faço é dar-lhe um livro para ele folhear, uma tampa, umas molas ou uma garrafa vazia e ele entretém-se com essas coisas simples e resulta. Cada um encontra o seu equilibrio de acordo com o que lhe faz sentido.

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  2. Uii... discuto este tema tantas e tantas vezes! O meio termo é mesmo difícil de encontrar :\

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  3. Mãe Sabichona: é mesmo isso! Cada um encontra o seu equilíbrio de acordo com o que lhe faz sentido. E só diz respeito a quem está envolvido! Não há respostas milagrosas. :)

    Ana: não é fácil de encontrar, não. Mas tenta-se!

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  4. Penso que na educação a palavra chave seja mesmo o respeito mutuo! Não esquecendo claro, as regras, a tolerância, paciência e amor! :) Como a Raquel disse e muito bem "Não vale a pena comprar uma guerra." :)

    Um beijinho, Andreia
    
http://pontofinalparagrafos.blogspot.pt

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  5. Também li o post e até falei várias vezes sobre o tema. Como disseste, cada um deve seguir os seus instintos e fazer o que acha melhor para os seus filhos, mas que há algumas coisas que me fazem confusão lá isso há...eu acho que as crianças devem acompanhar a evolução, como é óbvio, até porque vivem (com certeza) em casas onde há smartphones, tablets, pc's, etc..no entanto, viver dependente disso não é bom para ninguém, nem para nós quanto mais para crianças tão pequenas... Como comentei lá no blogue, um dia vi num restaurante um miúdo (não tinha mais do que 1 ano e meio) num restaurante a comer e a olhar para um iPhone, fez-me imensa confusão..ainda hoje em dia, quando estou à mesa com o meu pai não mexo no telemovel (a não ser que seja só para tirar alguma fotografia ahaha), tal como disseste, a refeição é uma hora sagrada, para nos alimentarmos e conviver (uns com os outros.)

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  6. Ju: não me faz confusão um miúdo de 1 ano e meio (e até menos) comer a olhar para o iPhone. Muito provavelmente é isso que os pais fazem! Não acho que esteja incorrecto, se os pais se esforçarem para comunicar numa outra altura. E isso nunca poderemos julgar. :)

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  7. É de facto um tema "quente". Eu antes de ser mãe tinha muitas teorias e confesso que o meu filho já me mostrou que a prática é outro mundo.
    Aprendi que não há formulas. Tudo se resume a ir experimentando o que funciona com cada criança, dentro do que achamos aceitável. Sempre com muita paciência e amor.

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  8. Pertinente e abordado de forma simples, concreta e ausente de falsas convicções. Partilho, em tudo, da tua opinião. E, até porque à minha volta, começam a aparecer os primeiros bebés, venho mostrando o meu ponto de vista, assim se proporcione. Não merece a pena investir na solução alheia, quando na nossa casa, todo o contexto e feitios se alteram. Porventura, a reacção à acção e a capacidade de nos adaptarmos sem sofrermos alteração do que somos, seja o melhor.
    Por fim, a descrição do que é a partilha da mesa, é também o meu relato. Acrescendo, apenas, as minhas duas irmãs :)

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  9. Na minha opinião, estes gadgets podiam ser muito bons e até pedagógicos para as crianças mas que, por preguiça dos pais que acabam por se acomodar, tornam-se muito maus. Não há nada mais triste para mim do que ver duas crianças no restaurante agarrados aos tablets de forma obcecada e ao mesmo tempo souless. Quando te liam histórias tu tinhas reacções. O teu cérebro não parava, as tuas expressões não paravam, estavas a aprender enquanto te entretinhas. Agora olha para os miúdos viciados nestes tablets... Não é bem a mesma coisa. Mas isto é um assunto com pano para mangas sobre o qual, um dia, também irei escrever :)

    Adorei o teu blog by the way!

    http://pesdescalcosechocolate.blogspot.pt

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