02/10/2014

A Música: James Blake

(imagem retirada daqui)

Quem se interessa um pouco pelas emoções e pelas lembranças que elas carregam, sabe que não é novidade nenhuma que o sentido que mais as recorda é mesmo o olfacto. Quando sentimos um cheiro a limão, imediatamente recordamos os nossos bolos que fazíamos com a nossa avó, enquanto éramos pequenos, ou lembramo-nos de alguém, quando sentimos um perfume no ar.

No entanto, as músicas são também um excelente encontro com fragmentos de nós mesmos, do nosso passado, de pessoas que fizeram ou ainda fazem parte da nossa vida, de momentos especiais para nós. E é assim mesmo que sinto as músicas do James Blake, como se relatassem caminhos da minha alma.

Para quem não o conhece, aqui vão alguns factos. James Blake é um músico e produtor britânico de 26 anos, mais especialmente de Londres, que sempre se encontrou no meio onde se move, pelos sons que cria. É conhecido na música electrónica, embora as suas raízes vão para muito mais longe e toquem o soul, as melodias com alma e sentido, o funk e o predomínio das batidas do baixo, como se imitassem o compassar de um coração. Ao mesmo tempo, acondiciona o seu amor pelo gospel, pelas inúmeras vozes em conjunto e associa-as a um groove profundo e sincero.

(imagem retirada daqui)

Como exemplo de tudo aquilo que James Blake apresenta, surge o seu primeiro lançamento musical (oficial) em 2010, Limit to your Love, replicada pelo original da cantora/escritora Feist, de 2007. Neste exemplo, fala-se do mais puro dos sentidos, com uma métrica quase poética, assim como as palavras que o identifica e é, ainda hoje, uma das suas músicas mais conhecidas, pedidas e tocadas internacionalmente, pela sua simplicidade tão segura. Porém, é com Wilhelm Scream (efeito de som que é usado em muitos filmes), uma versão da música Where to Turn do seu pai, o também músico James Litherland, que ganha significado como um dos mais jovens interesses da música electrónica.




Depois do lançamento de alguns EPs, entre 2009 e 2010, de onde destaco uma das minhas músicas deste autor, CMYK, em 2011, James Blake eleva-se, então, com o seu primeiro álbum, de título homónimo. Neste primeiro álbum, ganha alguns prémios consideráveis e capta grandes atenções, com os dois singles já falados por aqui, Limit to your Love e Wilhelm Scream.

Mais tarde, em 2013, surge com Overgrown, onde, pelo menos para mim, se acentua predominantemente e define o seu percurso. O primeiro single, Retrograde, revela-se como uma música com o coração em carne viva, com a sua interpretação de se apaixonar perdidamente, que nos leva até aos caminhos do seu próprio sentimento. Por outro lado, em Life Round Here desafia os limites das relações mais íntimas, da sua intensidade e daquilo que nos consome, daquilo que é capaz de nos fazer.

Se, em DLM revela a sua paixão por gospel, pelas vozes intensas e em Digital Lion propaga os seus interesses pelo funk, pelas batidas determinadas, em Overgrown demonstra as constantes do tempo, dos timings perfeitos, da natureza imperfeita do ser humano e aqueles momentos em que o chão nos foge dos pés. Porém, To the last acaba por ser mesmo a minha preferida, por ser quase uma música perfeita para casamentos, com os sinos, a proclamação do amor-para-sempre e as ondas sintetizadas lá atrás, mesmo no final.



Para aqueles que acham que esta música é apenas para ser ouvida no conforto do lar, com um chá quente na mão, desenganem-se. O ano passado vi este senhor a tocar no Primavera Sound aqui pelo Porto e foi uma das maiores surpresas de sempre, pois foi capaz de fazer exactamente aquilo que faz nos seus discos e ainda mais. Ele, sozinho, prova que não é preciso estar aos saltos no palco para encher o público num concerto. Para isso, basta contar-nos histórias através da sua música, mostrar momentos que já conhecemos e conceber empatia com cada um daqueles que o ouve.

(imagem retirada daqui) 

Em suma, James Blake é um daqueles músicos tão especiais como aquilo que transmite na perfeição. Com os sons que cria, é mestre na ressonância emocional, pois leva-nos para lugares conhecidos de outros tempos, sítios do nosso coração. E nisso, não podia ser melhor.

1 comentário:

  1. O som de James Blake faz com que me abstraia do local onde estou e eleva-me a um nível tão fora de mim. e de uma forma tão simples. Amei o texto.

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