10/11/2014

A relva da vizinha é sempre mais verde que a minha

Desse lado, já devem ter reparado que sou uma pessoa muito ligada à solidariedade e às questões socialmente desafiantes. Costumo dizer que aprendi com os meus pais, pois sempre se ligaram a estas temáticas. O meu pai é um dos fundadores do Lions Clube da Boavista, uma filial da maior organização internacional de clubes humanitários e dedicados à comunidade, e, por consequência, a minha mãe também se ligou bastante a isso (e é a governadora do distrito norte deste ano).

Desta forma, desde cedo que lido com isso e a solidariedade foi sempre algo muito importante para mim. Gosto de pessoas, gosto daquilo que nos faz mais empáticos, gosto de me preocupar e ligar a isso. Assim, neste início de semana, trago-vos um projecto que é muito especial para mim: o Há ir e voltar.

Antes de vos falar da causa, conto-vos um bocadinho da história da pessoa por detrás dela, a Diana. Tem 27 anos, é de Amarante e é licenciada pela FLUP em Ciências da Comunicação, com especialização em Assessoria de Imprensa. Depois de acabar o curso, em 2010, fez estágios na área da Assessoria, Publicidade e Marketing Digital. Em 2012, a trabalhar numa startup como Community Manager, recebeu uma oferta para ir para os Estados Unidos da América para trabalhar como babysitter e não recusou. E, desde então, nunca mais quis trabalhar dentro de quatro paredes.


O Há ir e voltar surge, então, quando regressou dos EUA, como uma página de impressões e sensações de viagem, onde partilhou textos e fotografias que captou enquanto estava do outro lado do oceano, mas também do bocadinho de Ásia que visitou e muito da Europa que conheceu. No início deste ano, a Diana estava na Suíça, a fazer limpezas numa pastelaria e para conseguir juntar dinheiro para viajar pela América Latina durante 6 meses, algo que planeava a todo o vapor. Quando estava quase a acabar o seu contrato de 3 meses e já a procurar mais detalhes sobre esse seu sonho, soube de um Serviço Voluntário Europeu para o Quénia durante um ano e candidatou-se por impulso. No dia seguinte, foi seleccionada.

Só depois de tudo isso é que soube para onde ia exactamente: Kibera, uma das maiores favelas do Mundo, uma realidade à qual não estava habituada, onde ia ensinar crianças nas escolas. Logo decidiu que, para o seu coração, o importante não eram os sítios, mas as pessoas e os momentos que queria guardar. No dia em que aterrou no Quénia em Maio deste ano, percebeu que podia fazer muito mais do que dar aulas.



Com o tempo, a Diana acabou por conhecer todos os detalhes da realidade com a qual contactava todos os dias. Entendeu que o sistema de educação não funciona para quem é pobre, pois não existem escolas gratuitas e a maior parte das famílias não consegue suportar a despesa de colocar um filho na escola, e, desta forma, as crianças passam o dia na favela. Além disso, reparou que tinha sempre miúdos que, como não podiam ir à escola, escutavam as aulas do lado de fora, com o ouvido colado à sala de estudo e, depois de perguntar à professora se podia aceitar mais crianças, recebeu a resposta que as famílias teriam de pagar as taxas escolares. Foi assim que a Diana começou a pedir ajuda a Portugal, as pessoas começaram a apadrinhar os estudos a algumas crianças, pelo menos durante um ano.

Até Setembro, conseguiu colocar 105 crianças em 4 escolas diferentes. No entanto, teve de suspender este processo porque não conseguia organizar-se para tudo o que queria fazer, como mandar fazer uniformes para cada criança, comprar mochilas e materiais escolares, e levá-las ao médico quando ficam doentes, algo que acontece com muita regularidade. Sozinha daquele lado do Mundo e sem nenhuma organização que a pudesse ajudar sistematicamente, consegue apenas acompanhar as 105 crianças apadrinhadas e revela que isso a faz muito feliz, por poder ajudá-las a seguir o seu caminho e por saber que, desta forma, elas estão mais seguras. E, durante aquele tempo que estão na escola, as crianças aprendem a ler e a escrever, conhecem o inglês, mas também os seus direitos enquanto seres humanos e ainda passam um bocadinho longe da realidade dura que é a favela de Kibera.

Entretanto, uma das escolas onde ela está a dar aulas vai ser demolida, pois fica ao lado da linha do comboio e apresenta um perigo constante para as crianças, além de não ter quaisquer condições para albergar aqueles meninos. Foi assim que a Diana decidiu fazer uma recolha de fundos para construir uma escola nova, com algo tão simples como a sua vontade. Em Agosto, comprou o espaço para construir a escola e, neste momento, está a organizar e a juntar o dinheiro que precisa para o resto, nomeadamente a limpeza do lugar, todos os materiais de construção para levantar completamente a escola e

Mais do que uma escola, a Diana tem vontade de fazer uma casa para estes meninos de ninguém. A verdade é que a maior parte daquelas crianças são HIV positivos, órfãos, não têm casa e ficam a dormir em casas de vizinhos, porque as pessoas que tomam conta deles têm de trabalhar fora e não estão presentes. Assim, a escola terá dois andares, em que um deles será uma espécie de orfanato, onde a professora irá viver permanentemente e acolher os meninos, sempre que eles precisem. Deste modo, ela espera que eles se sintam felizes e confortáveis, com comida e roupa seca, num sítio onde podem brincar e ser crianças, já que ela não sabe o que vai ser deles no futuro, mas quer que, pelo menos, tenham memórias felizes da infância.

Sabe que ainda tem muito caminho para andar, pois só conseguiu uma pequena parte dos 25.000€ que precisa. No entanto, sabe também que não vai conseguir o dinheiro todo de uma vez, mas quer fazê-lo à medida que a escola vai sendo construída. Não pondera não conseguir atingir o seu objectivo, pois garante que não sai do Quénia sem ter os "seus" miúdos numa escola em condições, com o conforto e a segurança que eles merecem ter, como todas as crianças. E tem a calma de saber esperar, de nunca desistir ou baixar os braços, de saber aguardar pela sua vez.

Numa loucura feliz, este é o Há ir e voltar da Diana. Quando criou a página e lhe deu um nome, estava longe de imaginar que um dia iria fazer as malas para ir viver um ano em Kibera. Hoje, continua a pôr-nos a par dessa aventura de todos os dias, a dar-nos conhecer a realidade daquilo que vê diariamente e daquilo que a rodeia por aqueles lados, a fazer-nos sorrir com as vitórias, a humedecer-nos os olhos com as tristezas e a pedir ajuda para conquistar mais umas batalhas. Hoje, a Diana sabe que pode tardar, mas que esta é uma guerra que vai vencer. Nisto tudo, o seu “há ir e voltar” continua a fazer sentido, ainda que o voltar demore 365 dias a chegar. Porque, para si, há ir e voltar, há dar e receber.

É engraçado como me faz pensar na nossa sociedade, no nosso queixume permanente, na nossa opção de nos manifestarmos contra a relva da vizinha, que é sempre maior do que a nossa. É nisso que vejo a minha vontade de ser solidária, em queixar-me menos e fazer mais. É nisso que quero ajudar a Diana em tudo o que puder, pois vejo que ela saiu do Mundo dela para melhorar o Mundo dos outros. Sim, a miúda louca que decidiu construir uma escola no Quénia. A mesma que não pensou nas dificuldades como impossíveis, mas apenas como desafios. A mesma que ousou sonhar mais alto. A mesma que, no final das contas, me vai fazer aplaudir de pé.

Vejam o Facebook dela e percebam as várias formas que têm como ajudá-la. Um a um, vamos fazer a diferença. :)

3 comentários:

  1. Extraordinário. Obrigado pela partilha, Raquel. Desconhecia, de todo, esta iniciativa. Talvez, como escreves e com o qual me identifico totalmente, embora, não seja tudo, mas ter uma educação onde ajudar quem, por ora, necessita, seja fundamental. À Diana, a continuação da força e da convicção. Ambas, bem me parece, jamais lhe faltarão. Tudo se transforma, mesmo que em passos que mal se vê :)
    Um beijo.

    ResponderEliminar