25/11/2014

Querido Pai Natal

Olá, tudo bem contigo? Espero que sim, que continues barrigudo e feliz como eu me lembro e tanto gosto.

Como sabes, ando o ano todo à tua espera, ansiosa para que regresses e para que possamos estar juntos novamente. Esta é a época do ano que mais gosto, em que a casa se enche de calor, os carinhos são frequentes, o aconchego e o conforto são tão constantes, que resolvem dores, cansaços e problemas pertinentes e permanecem os sorrisos. Reencontramos amigos distantes e familiares perdidos, quebramos as barreiras da vontade e deixamos as desculpas de parte, para arranjarmos tempo de qualidade com aqueles que fazem parte do nosso coração, apesar das longitudes. O coração conhece sempre quem lá vive.

Quando era pequena, tu eras o mais desejado. Do lado do meu pai, éramos vários os primos na mesa de Natal, acotovelados por idades diferentes, mas com os mesmos sonhos, nos quais tu tinhas sempre o papel principal, mesmo quando já não acreditavam que eras real. Perto da meia noite, o meu tio Manelito subia as escadas alcatifadas, as mesmas que eram palco das nossas brincadeiras infindáveis, vestia o fato vermelho e branco, punha uma almofada a fazer de barriga farfalhuda, colocava a tua barba branca e, com cuidado para ninguém reparava, imitava cada um dos teus gestos. E, naqueles minutos em que tu fazias parte dele, nós víamos-te novamente e éramos muito felizes.

Mas nada faltava quando era neta única do lado da minha mãe. Apesar de nunca te ter visto por lá, parecias mais real do que nunca, pois ouvia o teu sino e a gargalhada sonante, enquanto corria escadas acima para apenas imaginar a tua partida. E, quando o meu pai me explicou que tu serias sempre real na minha imaginação, tudo fez sentido. Eras tu e sempre serias.

Pois bem, querido Pai Natal, este ano portei-me bem. Dei uma volta à minha vida e decidi concretizar alguns dos meus sonhos. Escrevi um livro, lancei-o para o Mundo e ainda estive em algumas cidades de Portugal a apresentá-lo. Conheci muita gente do outro lado do meu computador, abracei pessoas que já entendia pelas palavras escritas e pelo carinho que me dedicavam. E continuei a escrever, tanto que já estou a caminho do segundo livro.

Apliquei-me mais à fotografia, estou a acabar o meu projecto 365, de fotografar algo todos os dias durante um ano e isso trouxe-me muitas outras coisas, que nunca pensei fazer. Fotografei pessoas e momentos especiais, fui reconhecida por aquilo que a minha criatividade foi capaz de elaborar. 
Continuei a cantar com os Oh Honey, a minha banda do coração e concretizei algumas vontades que tinha há algum tempo, venci batalhas, conquistei palcos. Retornei ao meu piano, à minha voz e, enquanto me lembrava de músicas antigas, idealizei sons novos.


A minha amiga Artrite Psoriática, depois de muitas voltas, deu-me tréguas e as dores são tão reduzidas, que há dias que até me esqueço que a tenho comigo.
Comecei a trabalhar com os meus queridos do We Blog You e, desde então, que o trabalho tem sido muito, mas também muito feliz.
Voltei ao meu crochet e, nos serões, comecei a fazer almofadas bonitas para oferecer aos meus amigos queridos. Percebi que, quando me dedico às minhas paixões, sou mesmo boa no que faço.
E, claro, continuei a ser a mãe da minha linda Baducas e também a amiga-mãe que todos os meus amigos conhecem.


Acima de tudo, constatei que nunca serei um título só e que, quanto mais me envolvo em coisas que gosto, mais irei fazer, já que quem corre por gosto até pode cansar, mas será sempre um cansaço bom e feliz. Só estarei parada no dia em que decidir parar. Consigo ter sempre mais vontades e mais objectivos para cumprir, desde que a minha imaginação se mantenha assim, saudável e activa.

Por isso, querido Pai Natal, este ano tive tudo aquilo que queria, os amigos felizes, o carinho daqueles que me lêem, a música, o trabalho mais-que-muito, os sorrisos ainda maiores, as gargalhadas muito altas e, principalmente, a saúde que me andava a chatear. Mas, para este Natal, quero pedir-te só mais uma coisa. Quero que nunca te esqueças de mim. Podes guardar-me na tua memória com aquele sorriso de criança, mesmo sabendo que era o meu tio que punha a tua barriga almofadada, ou com o brilho dos olhos de quem ouvia o sino natalício que o meu avô tocava. Porque sei que, ao dedicar-te estas palavras, estarás sempre desse lado, a alimentar os meus sonhos e desejos, sem deixar que eu perca o meu sentido, a minha imaginação de criança. E isso é a melhor prenda que me podes dar.

Um beijinho e até breve,

a tua pequenina, Raquel*

9 comentários:

  1. Aii, gosto tanto, até me vieram as lágrimas aos olhos! Escreves tão mas tão bem, mas isso já toda a gente sabe. :D

    lenaspetals.blogspot.pt

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  2. Que bonita carta!
    Como eu também adoro o Natal e o Pai Natal (que nunca vi, mas ouvi...)

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  3. Que doce de carta! Muito amor a isto, Raquel <3

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  4. Adorei ler!
    Uma deliciosa carta. Tenho a certeza que Ele vai realizar o teu pedido ;)

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