18/11/2014

Voltar às origens: Crochet

Há uns tempos atrás, no meio dum dos meus bloqueios de escrita (a sério, cérebro?), decidi voltar às origens e a uma arte que sempre gostei muito, o crochet.

Comecei a fazer crochet na adolescência, num dos momentos depressivos/solitários que esta época da vida tem. Na verdade, envolvi-me nisto na altura que entrei para o secundário e saí do colégio onde estudava para uma escola pública. Lembro-me perfeitamente desses primeiros tempos, em que usava saia às pregas, meias até ao joelho e fita no cabelo, sem qualquer noção da "vida real", vinda dum lugar onde facilmente me chamavam betinha e menina dos papás. Apesar de não se falar ainda de bullying, confesso que não foram tempos muito fáceis, mesmo no colégio. Não sabia onde me encaixar, não sabia o que dizer, nem o que fazer.

Depois de inúmeros pedidos aos meus pais que me deixassem ir para uma escola pública, assim o fizeram. Mas eu continuava a menina de saia às pregas, meias até ao joelho e fita no cabelo, a mesma miúda betinha, que falava muito pouco, que estava muito no seu Mundo encantado, que brincou até tarde e que não tinha vergonha desse sítio mágico onde viviam os seus sonhos.


Uma vez naquela escola, tive de crescer. Mesmo inconscientemente, sabia que precisava de me afirmar de alguma forma. Assim, peguei nas agulhas e malhas que a minha mãe tinha lá por casa e resolvi a fazer os primeiros acessórios em crochet, as carteiras e os pormenores mais básicos, mais fáceis de elaborar por alguém que nitidamente não percebia nada do assunto. No entanto, foram esses complementos básicos que comecei a usar na escola, associando-os à minha maneira de vestir e para contrariar aquilo que anteriormente usava.

Desde a primeira carteira que fiz que comecei a chamar a atenção. Tinha colegas minhas que queriam que lhes fizesse algo ao seu gosto e as encomendas choviam para alguém que só queria fazer algo mais pessoal, que contasse um pouco de mim mesma. Com as ocupações da escola, as preocupações de adolescente e os namoros, fui deixando o crochet de parte, mas aquilo que sempre me recordo é duma história feliz e muito boa.


Mais recentemente e como disse, decidi voltar ao crochet. Tenho andado com alguns bloqueios de escrita, que me impedem de escrever o segundo livro (vai a caminho, prometo!) e, no meio de um mês particularmente difícil, decidi arriscar, comprar umas linhas e fazer algo para mim, enquanto a criatividade da escrita não voltava. Foi assim que surgiu a primeira almofada, com alguns erros e outras particularidades que fizeram com que sorrisse muito de cada vez que lembrava uma técnica ou um ponto diferente. E logo me atrevi a fazer a segunda, para oferecer aos meninos do We Blog You, como agradecimento da reviravolta que me têm dado à vida.

Para quem já arriscou em algo deste género, pode confirmar que tricotar ou fazer crochet é algo muito viciante, relaxante e igualmente gratificante. Perco horas à volta de novos desafios, de novos pontos, motivos e maneiras distintas de chegar a uma meta que me satisfaça. É um bocadinho megalómano, pois rapidamente quero fazer mantas, almofadas e outros acessórios decorativos, mas logo penso que, com a minha paciência, é melhor conter-me e fazer só aquilo que gosto, calma e lentamente, sem pressões.


É certo que tem erros, mas vivo bem com isso, pois é algo que fiz do coração. Comecei em grande, com duas almofadas enormes e que, apesar de serem lindas, a certa altura já estava cansada de as fazer [eu sei que tenho de melhorar a paciência, mas tenham paciência comigo]. De qualquer forma, os primeiros projectos que fiz foi para mim e para amigos, mas já ando a fazer mais e, quem sabe, um dia até vendo isto para o Mundo. O que interessa é aquilo que me faz e a verdade é que, de cada vez que termino um objectivo, fico tão feliz comigo mesma que só me apetece encher a casa de coisas mimosas e feitas à mão. E isso é o melhor remédio de todos. :)

E vocês desse lado? Já experimentaram destas coisas?

10 comentários:

  1. Queria muito mas acho que não tenho jeito nenhum. No Natal passado ofereci um cachecol ao meu namorado. ele com um sorriso forçado nos lábios agradeceu, mas a verdade é que o cachecol ficou todo tortinho. Um desastre. Mas quem tem muito jeito para essas coisas é a minha irmã que vai fazendo mantinhas para os bebés da familia :)
    Gosto muito das tuas almofadas, dão um ar tão fofo e de conforto a qualquer casa!

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  2. Fico tão feliz por saber que o crochet tem vida e espaço neste tempo. É uma memória antiga, vê-los, aos novelos e às agulhas lá por casa. Uma tradição de menina prendada de uma certa elite que passou da minha avó para a minha mãe. Deve ter-se esgotado aí. Por curiosidade, e coincidentemente, ontem falava com uma senhora que adora todos os trabalhos de mãos. Estava a terminar, precisamente, uma almofada. Já tinha destino, contudo, se o destino não lhe recebesse, ficar-lhe-ia, como me confidenciou, tão bem numa cadeira do seu corredor.
    Continuação, Raquel. E perdoa-me a extensa prosa.
    Um beijo :)

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  3. Oh! adorei :) as almofadas são lindas e gostei da história que te levou a fazer as peças em crochet!
    Eu não faço, não sei e nem tenho paciência para essas coisas, mas de facto, fazem-se coisas tão bonitas..a mãe do namorado sabe fazer, talvez um dia lhe peça conselhos :) *

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  4. Também eu já entrei neste mundo do crochet (mas abandonei o barco, deixando coisas por terminar) e que bem que faz. Ter coisas feitas por nós, ver os nossos objectivos cumpridos, é um dos melhores remédios! Não diria melhor, querida Raquel :)

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  5. tricot e crochet são meditações em movimento! é tão, mas tão bom!
    em boa hora, de certeza, veio esta vontade de recomeçar. :-)

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  6. Tens tanto jeito! Encontro muitos cobertores em crochet aqui nas thrift stores na california, feitos com granny squares lindos de morrer so me apetece levar todos para portugal! Vende sim raquel, com certeza iria ser um sucesso. Conheces o etsy? Talvez podesses vender por la.

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  7. Eu adoro! Comecei pelo tricot e passei para o crochet e agora vou fazendo um e outro, mas é exactamente como dizes, viciante e relaxante... quando estou de volta das linhas, nem dou pelo tempo passar :)
    E por acaso, ando há uns tempos a pensar numa almofada. As tuas ficaram muito giras!
    Beijinhos,
    Andreia

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  8. Tão bonitas as tuas almofadas... Também tenho historias giras com o croché, ligadas à minha avó ...mas a minha avó está ligada ao meu amor por livros, mais do que o croché, por isso bora lá escrever Raquel!!! Mal posso esperar por isso. Adorei o 12:) e antes de começar a escrever qualquer coisa para a minha pequena sapataria primeiro vou lendo um bocadinho do teu livro e depois ganhou asas....

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  9. Tantos mimos bons pelas minhas almofadas! Obrigada, de verdade :)

    E a escrita volta, devagar, mas volta. :)

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  10. Que fixe Raquel. Eu não me dou bem com agulhas. A minha avó Albertina tentou ensinar-me e eu queria aprender, mas acabei por desistir. Hoje tenho pena, devia ter aproveitado melhor o que ela sabia :)

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