21/01/2015

[desculpas para escrever] lugar de memórias

(Belfast, 2006)

A casa da minha infância é a casa da minha avó, que tinha uma palmeira que nos lembrava daquilo que tínhamos de tropical. Lembro-me daquela palmeira como se fosse enorme, maior do que aquilo que os olhos são capazes de observar. Acabava lá no céu e, quando era pequena, imaginava que subia até lá cima para ver o Mundo todo.

Tenho dezanove primos, doze homens e sete mulheres. Não, não estou a mentir. Na minha família é mesmo assim, tudo à grande, tudo muito, tudo demais. Por isso mesmo, o que mais recordo da minha infância é o barulho intenso das festas de família, as gargalhadas dos meus tios na mesa da sala e a voz meiga e ao mesmo tempo agitada da minha avó.

A minha família não é italiana, mas desconfio que roubou uma costela a uma dessas populares nos filmes e séries de gangsters. Nasci ali no meio da confusão e sempre me conheci como fazendo parte dela e do seu barulho, da agitação permanente, da algazarra dos dias, das discussões furiosas entre irmãos que são capazes de deitar qualquer casa abaixo, mas que acabam em longos abraços chorosos e nas juras de amor eterno. É uma família capaz de defender todos os seus com garras e dentes como uma mãe leoa, protegendo com fervor os seus relativos debaixo das enormes saias. É uma família que tem um coração mais inchado do que aquele que gostaria e, por isso, vive as coisas com maior intensidade, tanto os amores como os ódios, com a sofreguidão aos pulos e as emoções em carne viva. É uma família com pessoas tão diferentes como imensamente parecidas e que parecem ser personagens de um filme, apenas por serem tão reais como são. E nós só sabemos viver assim, como se cada dia fosse o último.

A casa da minha infância era também o palco das inúmeras brincadeiras dos miúdos que éramos, das corridas, das partidas que fazíamos uns aos outros, dos segredos que dizíamos ao ouvido, das promessas que iríamos ser sempre os confidentes uns dos outros, que nunca nos íamos separar. Desconfio que aquelas paredes ainda guardam confidências daqueles tempos, como tatuagens perpétuas no nosso sítio seguro, o lugar dos risos e das lágrimas, da nossa menor idade, das lembranças sem fim.

(Belfast, 2006)

Na minha infância, era a neta mais velha de 3, a única menina. Éramos miúdos nos anos 80, dois rapazes e uma maria-rapaz, com a bola de futebol nos pés, os piões, as fisgas e a nossa cadela pastora alemão. A rua da nossa casa era o nosso Mundo inteiro, mundo esse que governávamos entre muitos risos e brincadeiras. Brincávamos na rua até quando chovia, tínhamos a porta de casa sempre aberta e toda a gente nos conhecia dali. Não chorávamos se caíssemos e esfolássemos os joelhos, mas se nos chateássemos entre nós ou se um dos 3 estivesse de castigo e não pudesse vir brincar.

A casa da minha infância tinha umas escadas em alcatifa vermelha como o sangue, quente como aquilo que a nossa família carrega no coração. Era mesmo aquele o meu local favorito. Cada vez que me zangava com a vida, subia ao terceiro degrau daquelas escadas que não tinham costas, sentava-me com as pernas entre o de cima e o de baixo, e escondia a cabeça entre os braços e aquela alcatifa vermelha. Fazia essa reflexão para chorar, para fingir que chorava, para fazer fitas, para planear uma vingança ou para pensar na vida difícil que tinha. A vida difícil de alguém com mimo a mais.

Quando era pequena, chorava muito, muito, muito, mas sem fazer barulho. As lágrimas saltavam-me dos olhos sem qualquer som. Pareciam rios e às vezes não fazia sentido, mas era assim. Foram muitas as lágrimas que lá deixei, na terceira escada de alcatifa vermelha da minha casa da infância. Aquela casa com uma palmeira, onde éramos tão felizes. E, mesmo que o tempo tenha passado e tenha criado os muros das distâncias entre nós, aquele é o sítio onde o meu coração se sente em casa.

A casa da minha infância é num lugar que hoje já não existe. A não ser na minha memória.

P.S. Seguindo o post de ontem e o mote deste mês do Promessas por Cumprir, o tema das Desculpas para Escrever da próxima semana é sobre uma carta a um amigo vosso. Pode ser inventada, um amigo de todos os dias, ou o que quiserem. Já sabem, é livre à vossa vontade e imaginação.

P.S. (2) Sim, eu sei um excerto dum dos meus contos para este post. E adorei. :)

4 comentários:

  1. Lindo...
    É incrível Raquel Caldevilla como com poucas linhas consegues provocar emoções tão fortes e me faças chorar, sorrir e rir ...!
    Como parte destas lindas memórias sinto um enorme orgulho em ser tua mãe.
    Obrigada filhota por me fazeres recuar a momentos tão especiais...

    P: é verdade ... nunca vi uma bebé chorar como tu. :) :)
    Ficavas tão linda, tão doce.. que recordo que cheguei a provocar-te só para te ver chorar ...
    DESCULPA...

    ResponderEliminar
  2. Um apontamento tão feliz, Raquel.
    Mesmo que não queria repetir-me, vou ter de te parabenizar pela forma fluida e cuidada como passas as tuas memórias.
    Sem conhecer, vi a palmeira e as escadas de encarnada alcatifa. Vi crianças felizes rua fora. Senti amor e desamor nas tuas linhas.
    Não me canso, obrigado pela partilha.
    Enquanto te lia, lembrei-me da casa Verde. Junto à praia, pintada como quem não quer destruir o forte. Não era a casa principal, mas era a cada de muitas emoções e diversões sem fim. Também por seres um indutor de lembranças, obrigado.

    Um beijo :)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Um dia gostava que me contasses mais sobre a casa verde.
      Um beijo :)

      Eliminar