13/01/2015

[desculpas para escrever] momento embaraçoso

Sabem aquele momento que existe no silêncio, em que as palavras andam bamboleantes numa corda tão imaginária como aquilo que queremos dizer? Aquele segundo em que parece que se abate um enorme vale entre a pessoa que fala e aquela que ouve? Aquele ínfimo detalhe que cria uma distância tão grande que é impossível de transpor?

Pois bem, é disso que vos venho falar hoje. Confesso: não sei lidar com o silêncio. E, ainda que não seja uma pessoa de ter vergonhas ou embaraços, a maior parte dos meus momentos mais constrangidos têm o silêncio como protagonista.

As pessoas que me conhecem sabem bem como sou faladora. Adoro contar histórias, falo pelos cotovelos, rio-me muito alto e, às vezes, digo coisas até sem pensar (ando a tentar mudar isso). Ainda assim, é uma das coisas que mais gosto em mim. Sou tão transparente que todos percebem quando há alguma coisa que não está bem comigo, quando estou nervosa ou quando tenho de lidar com algum problema, pois simplesmente fico calada, sem dizer um pio.

Mas não fui sempre assim. Na escola, era a mais ajuizada. Ficava na fila da frente, sabia a matéria toda e ajudava os meus amigos a copiar por mim. Sempre fui muito exigente comigo mesma e era teimosa com aquilo que sabia que era capaz de fazer, por isso chorava se não conseguia a melhor nota da turma a matemática. Era a melhor aluna a Matemática. Inacreditavelmente, não gostava de História. Gostava mais de entender do que de decorar, gostava de ser mais precisa e analítica, do que sentimental e lírica.

Era, portanto, muito calada. Tinha uma ânsia enorme de ser a mais velha, de aprender muito, de saber mais. No entanto, o embaraço trouxe-me a adolescência. Saí do colégio onde estudava, fui para uma escola pública, aprendi o que era bullying, percebi o que era ser a vergonha de amigas, por me verem vestida com uma saia de pregas e uma fita no cabelo. Calei-me muitas vezes em alturas que me apetecia gritar. Mas remeti-me ao silêncio, o meu melhor aliado.


Um dia, acordei e percebi que não podia ser só números. Naquele momento, não havia nada que os números me pudessem dar, rigorosamente nada que me pudessem ensinar. Num dia como outro qualquer, rendi-me às palavras que o meu avô poeta me andava a incitar desde que percebeu que eu tinha jeito para elas. E comecei a escrever.

Aos 15 anos, comecei a cantar com uns amigos e entendi que tinha uma voz muito própria, uma cantiga muito minha. Apaixonei-me pelo som das palavras que saíam da minha boca, inebriei-me pelo poder e pela força que cada uma delas tinha em mim.

Hoje, é essa a minha maior paixão. Por isso mesmo, não entendo os silêncios, não gosto daqueles ínfimos momentos em que as palavras que eu tanto amo andam numa corda bamba e não sabem o seu devido lugar. Temo os segundos em que não há nada para dizer, em que o silêncio abre um enorme vale entre as pessoas. E, se é verdade que há muito pouco que me enrede, o silêncio é o meu maior embaraço.

P.S. Na próxima semana, falem-me dum lugar das vossas memórias. :)

2 comentários:

  1. O silêncio guarda muitas dores dentro de nós, não é Raquel?

    Mas também descobri que medimos o quanto gostamos de alguém pelo tempo que conseguimo passar com essas pessoas, sem nada dizer, mas em paz connosco :)

    Um grande beijinho e que encontres sempre as palavras certas!

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