28/01/2015

[desculpas para escrever] uma carta para uma amiga

Meu amor de amiga,

Nestes últimos dias falei muito de ti. Devem ser as saudades! Com isto, sei que não és saudosista, mas também sei que sabes que eu sou e que me orgulho de te ter por perto, mesmo que essa presença não seja física. Serás sempre o feijãozinho que cresceu ao meu lado, que criou raízes profundas e que uniu as suas folhas às minhas.

Ainda há pessoas que acham estranho que diga que tenho uma melhor amiga. Parece daquelas coisas infantis, das amizades da infância, em que só tínhamos poucos amigos e que escolhíamos os melhores. É estranho sim. Mas essas pessoas não sabem de quem falo e, já depois dos 30, não me importo que me achem estranha. Continuo a gostar de ti como se duma irmã te tratasses, mas, como não és, és a minha melhor amiga. És a pessoa que sabe tudo sobre mim, mesmo aí longe. És a pessoa que melhor me conhece e que sei que não preciso de dizer nada para saberes o que me vai na alma. É isso que denomino como melhor amiga, alguém que não é do meu sangue, mas que se sente como eu.

Das coisas que mais sinto falta, é das tardes que passávamos juntas sem precisar de haver razões para o fazermos, tardes essas que facilmente passavam a noites, a dias inteiros a ver filmes e séries românticas que gozávamos muito, por serem tão estupidamente românticas que nunca iriam ser reais. Ainda no outro dia vi as cartas que me escrevias no inglês que não sabias (irónico, não é?), da K7 de 4 Non Blondes que me pedias para cantarmos juntas, dos segredos que me contavas e das promessas de amizade sem fim, mesmo quando só nos víamos ao fim-de-semana. Vê lá tu que até tenho saudades dos castigos da tua mãe, que eram os mesmos para as duas, pois o verdadeiro castigo era ficarmos sem nos vermos nem falarmos durante dias. E eu adorava quando quebrávamos as leis todas, fugias aos castigos e ligavas-me às escondidas, só para dizer que estava tudo bem.

Lembras-te daquele diário que tínhamos em conjunto? Não sei onde está, mas gostava de o ver novamente, para recordar mais histórias das nossas. Brincámos até muito tarde e tenho saudades dessa inocência, de ser a Brenda e tu a Kelly do Beverly Hills, de isso não fazer mal nenhum às miúdas de 13 anos. Desabafávamos dos nossos medos com os rapazes, íamos acampar juntas e, muitos anos depois, fazíamos questão de fazer a nossa semana de férias só as duas, onde podíamos ficar a falar da vida até de manhã. E depois, quando foste para a faculdade, eu ia ter contigo e com os teus amigos, que rapidamente angariei para serem meus também.

Muitas histórias temos em conjunto. Gosto particularmente daquelas em que as pessoas diziam que achavam que nós éramos irmãs, mesmo se tu fosses loira e eu morena, e não tivéssemos mesmo rigorosamente nada a ver uma com a outra. Tínhamos camisolas iguais, pensávamos da mesma maneira, havia uma linguagem só nossa e conseguíamos ter conversas inteiras sem dizermos uma só palavra, Ríamo-nos muito e muito alto, chorávamos com coisas muito básicas, mandávamos músicas uma para a outra e sabíamos que, quando piscávamos os olhos com força, estávamos a abraçar-nos. Eu era a amiga ciumenta e tu também foste injusta comigo algumas vezes, mas também não fazia mal, porque nos entendíamos na perfeição.

Dizem que, quando conhecemos alguém, esse alguém fica com uma parte de nós mesmos, por isso todas as pessoas da nossa vida levam um pedaço de nós. Quando te mudaste para Bristol, senti isso mesmo, que levavas um pedaço de mim. De certa forma, é disso que sinto falta, da Raquel que eu sou contigo. Acho que nunca chorei tanto como quando vi a fotografia do nosso Manuel recém-nascido, porque senti que te tinha falhado redondamente, que queria estar lá contigo e ser a pessoa que mais te piscaria os olhos à distância, com muita força, para te sentires abraçada. Senti que foi a primeira vez que perdi algo da tua vida, algo que queria que fosse meu também.

Hoje, passaram já 8 anos desde que te mudaste, uma vida inteira. Houve alturas em que senti essa vida, bem longe de mim. Houve momentos em que a distância foi mais forte do que o coração. Mas não existiam férias que não nos víssemos, mesmo que fosse só por um bocadinho. Mas são muitas as coincidências que nos unem. Mas não me esqueço da magia que continuamos a ter, pois quando pensamos na mesma coisa com muita força, isso realiza-se.

7 anos depois de estares aí e na primeira vez que ganhei coragem para te visitar, por coincidência fiquei alojada numa casa 3 ruas ao lado da tua, sem saber, como se Bristol fosse uma cidade muito pequena para nos manter afastadas. E, naquele dia de Abril em que eu cheguei, o meu sorriso completou-se quando saí da porta de casa e te vi a subir a rua com o teu Manuel de bicicleta. Subitamente, tinha-me encontrado de novo, a Raquel pequenina que sou contigo. E sei que serei sempre a tia Risinhos, o feijão que cresceu ao teu lado e se embaraçou nas tuas folhas.

Crescemos. É a única coisa que me custa ainda de dizer. Hoje, sou uma pessoa que nunca achei que fosse. Achei que serias tu a independente, a que fazia as coisas mais criativas e que eu seria aquela que teria um emprego fixo, um marido estável e muitos filhos. Tu vais a caminho do segundo (já nasceu?) e eu não penso em ter nenhum. Achei que ias ser bailarina ou fotógrafa e hoje, sou eu que fotografo por trabalho (coisas mesmo a sério, acreditas?). Hoje, percebo que as prioridades mudaram. Hoje, sou muito feliz assim e sei que tu também és.

Este ano, tenho muita vontade que chegue Junho. É que me disseste que vens cá passar o Verão e eu mal posso esperar para os nossos dias juntas, aqueles que prometemos a nós mesmas e aos nossos bichos. Já ando a fazer planos para essa altura só nossa e, com 32 anos, vou fugir deste mundo e voltar para o nosso. É que em Junho, vamos voltar a ser pequeninas.

Um beijo,

Raquel *

P.S. Enquanto escrevia isto, recebi uma mensagem tua. Ainda não acreditam que temos magia?

P.S. (2) E as próximas desculpas para escrever são inspiradas neste ditado: "antes cegues que mal vejas". :)

1 comentário:

  1. Primeira vez que venho ao teu blog e a primeira coisa que escolho ler, é esta. Obrigada.
    (Quando acabar esta coisa que me escorre cara abaixo, talvez venha aqui acrescentar mais alguma coisa) *.*

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